EUA: Mapa do caminho para a América Latina

Washington, 16/05/2008 – Os Estados Unidos devem reconhecer que seu domínio sobre a América Latina chegou ao fim e têm levar em conta os interesses da região, segundo o Conselho para as Relações Internacionais, um dos centros de estudos especializados mais influentes do país. Seu mais recente informe é conhecido enquanto ocorre a corrida para as eleições presidenciais de novembro, e pode influir na política internacional do governo norte-americano que assumirá em 20 de janeiro de 2009.

O estudo de 76 páginas, divulgado na quarta-feira, sugere o fim do embargo imposto a Cuba há 46 anos e o início de negociações com esse país sobre diversos assuntos de interesse comum. Também propõe tratar em âmbitos multilaterais os problemas com o governo do presidente Hugo Chávez da Venezuela, mas sem fechar os canais bilaterais. “Não deveríamos tentar isolar Chávez”, disse Charlene Barshefsky, representante comercial dos Estados Unidos no governo de Bill Clinton (1993-2001) e co-presidente da equipe que elaborou o informe. “Isso apenas o fortaleceria”, disse.

O estudo recomenda, ainda, aprofundar a relação estratégica com Brasil e México, identificados como os países líderes da região. Os Estados Unidos também devem aceitar que as nações latino-americanas sabem o que é melhor para elas e que, devido aos crescentes laços com potências de fora da América, especialmente União Européia e China, não aceitarão automaticamente a direção ou o conselho de Washington.

“A política para a região não pode continuar se baseando na noção de que os Estados Unidos são o ator externo mais importante para a América Latina”, destaca o estudo, intitulado “Uma nova direção para uma nova realidade”. “Se houve uma era de hegemonia norte-americana na América Latina, já pertence ao passado, mas o contexto de tomada de decisões políticas não mudou o suficiente para refletir a nova realidade”, acrescenta. O estudo foi feito por uma equipe de especialistas presidida por Barshefsky e pelo general James T. Hill, ex-chefe do Comando Sul, o órgão das forças armadas norte-americanas com jurisdição sobre a América Latina.

Como as questões ligadas à América Latina, com comércio e imigração, se converteram em temas da campanha eleitoral norte-americana, o informe também pode influir no debate entre os candidatos à Presidência. Para conseguir a atenção dos dois partidos majoritários, Republicano e Democrata, a equipe que elaborou o estudo foi formada por19 membros, muitos deles ex-altos funcionários de governos anteriores nos dois setores.

Assim com a noção de hegemonia dos Estados Unidos na região perdeu importância, a ênfase dada por este país ao fim da Guerra Fria ao comércio, à democracia e à luta contra as drogas se tornou uma base inadequada para as relações com a região, destaca o informe. Também acusa o presidente George W. Bush de ter ignorado as necessidades latino-americanas no período que se seguiu aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington que causaram três mil mortes. Mas, mesmo antes dos atentados, a política norte-americana operava com uma espécie de “piloto automático” em relação à América Latina, disse Hill.

“Assumimos uma atitude de deixar fazer, deixar passar. Víamos-nos como o poder hegemônico que podia impor sua vontade. Mas os Estados Unidos já não são mais a pedra de toque que foi para a região em seu momento”, acrescentou Hill. Embora as três preocupações fundamentais de Washington na região (comércio, democracia e luta antidrogas) continuem sendo relevantes, o estudo recomenda articulá-las em torno de quatro áreas-chaves: pobreza e desigualdade, migrações, segurança energética e segurança pública. Estes temas não só têm a ver com os interesses dos Estados Unidos, e também são preocupações imediatas para os governos e cidadãos da América Latina.

Barshefsky disse que a integração entre as duas partes atingiu um ponto em que as grandes questões de interesse para a região também são temas domésticos na política norte-americana. “Estamos integrados. A questão é ver com asseguramos que essa integração seja positiva e o hemisfério progride”, acrescentou. Quanto à redução da pobreza e da desigualdade, o estudo recomenda que o próximo governo norte-americano convoque uma “cúpula”, com participação pública e privada, para passar em revista as “melhores práticas” na região e demonstrar vontade de cooperar com a América Latina.

Também reclama um aumento na ajuda destinada à redução da pobreza, financiando completamente a Conta de Mudança do Milênio, fundo criado há quatro anos para recompensar os governos que empreendem profundas reformas econômicas e de governabilidade. Alem disso, propôs expandir o apoio ao desenvolvimento das microempresas e mudar o sentido da ajuda na luta contra as drogas do atual, fortemente militarizado, para as produções alternativas e o desenvolvimento rural. O estudo enfatiza que os programas de redução da pobreza devem “refletir as prioridades dos governos latino-americanos”.

Por outro lado, exorta o Congresso norte-americano a aprovar acordos pendentes de livre comércio com Colômbia e Panamá, bem com estender preferências comerciais adicionais à Bolívia e ao Equador. O objetivo é “fomentar as relações produtivas com estes países”, cujos estreitos vínculos com a Venezuela, com exceção da Colômbia, tem sido uma crescente fonte de preocupação para os Estados Unidos nos últimos tempos.

Em matéria de segurança pública, recomenda ao próximo governo dos EUA ampliar os programas de treinamento para policiais, promotores e juízes para conseguir maior profissionalização, fortalecer o estado de direito e promover maior cooperação de inteligência na região contra o narcotráfico e as os grupos criminosos. Embora o estudo não proponha grandes mudanças na luta contra as drogas, aplaude os recentes esforços de legisladores norte-americanos para equilibrar a ajuda militar e policiai com a cooperação social e econômica prevista no Plano Colômbia, financiado pelos Estados Unidos para erradicar os cultivos daquele país.

Nesse aspecto, destaca que a estratégia “não deteve o fluxo de drogas para os Estados Unidos”, e que “os preços da cocaína e da heroína são tão baixos como antes, ou mais baixos do que nunca”. Washington, recomenda o informe, deveria se concentrar mais na redução da demanda interna e redobrar seus esforços para limitar o fluxo de armas dos Estados Unidos para a América Latina, que alimenta a violência na região. Quanto à energia, o estudo cobra maior cooperação e investimentos no setor de petróleo e gás, apesar das crescentes preocupações sobre “nacionalismo em matéria de recursos naturais”.

Em especial, acrescenta, Washington deveria se concentrar na possibilidade de aumentar a produção de gás e petróleo no México, proporcionando a esse país a tecnologia necessária para perfurar poços nas águas profundas do Golfo do México. Além disso, diz que os Estados Unidos poderiam ajudar especialmente no desenvolvimento de mercados alternativos de energia, sobretudo de biocombustíveis, eliminando tarifas alfandegárias e outras barreiras para promover seu uso doméstico.

A reforma das leis imigratórias deve ser tratada como prioridade máxima do próximo governo norte-americano. O estudo recomenda reforçar a segurança na fronteira e regularizar o status da força trabalhista que já vive nos Estados Unidos. O esquema deveria contemplar uma “migração circular”, que permita aos latino-americanos irem aos Estados Unidos “por um determinado período e voltar aos seus paises com um novo capital financeiro e humano para o desenvolvimento econômico de longo prazo de suas comunidades e nações”. O Estudo também indica que os Estados Unidos deveriam cooperar mais estreitamente com as autoridades mexicanas para combater o contrabando e as redes de tráfico de pessoas e buscar acordos com outros paises para regular melhor o fluxo de imigrantes. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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