DESENVOLVIMENTO: Questão de fé

Hiroxima, 29/05/2008 – Entre 30% e 70% da crescente infra-estrutura sanitária na África pertencem a organizações religiosas, estimou a Organização Mundial da Saúde (OMS). Além disso, um terço de todos os pacientes de Aids (síndrome da deficiência imunológica adquirida) do planeta é atendido sob os auspícios da igreja Católica. O Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef), em colaboração com organizações muçulmanas, aumentou de apenas 6% para 75% a taxa de imunização de crianças menores de 5 anos em Serra Leoa, país devastado pela guerra civil.

Segundo a Iniciativa de Liderança Budista, cerca de 30% dos monges na China, no Camboja e Laos receberam capacitação sobre Aids e HIV (vírus de deficiência imunológica, causador da Aids). O arcebispo Celestino Migliore, representante do Vaticano na Organização das Nações Unidas, disse que a Igreja Católica dirige mais de 250 mil escolas em todos os continentes, com 3,5 milhões de professores e 42 milhões de estudantes. Apesar das acusações de que alguns grupos propagam sua religião ao proporcionarem serviços sociais e humanitários, a maioria das organizações religiosas continua obtendo um grande impacto em todo o mundo.

Enquanto o mundo segue combatendo a intolerância, o analfabetismo, as doenças e a xenofobia, um grupo de mais de 1.300 líderes religiosos, educadores, ativistas e crianças de 62 países reafirmaram o papel-chave desempenhado por essas organizações nos esforços para resolver os males políticos, sociais e econômicos de nossos tempos. “Em um mundo de pluralidade, chamamos todas as comunidades religiosas e espirituais a reconhecerem que nenhuma religião é uma ilha”, diz a Declaração de Hiroxima, adotada ao final da reunião de três dias organizada pela Rede Global de Religiões a Favor da Infância (GNRC).

Esta organização disse que as entidades religiosas são atores únicos na comunidade internacional. “Sua presença local e sua jurisdição ampla, mesmo nas partes mais isoladas do mundo, lhe dão potencial para fornecer assistência em uma escala verdadeiramente global”, afirmou. O reverendo Keishi Miyamoto, da Fundação Arigatou, afirmou: “Nosso objetivo é servir de ponte efetiva entre o sistema da ONU e os líderes religiosos do mundo e suas comunidades de fé quando se trata da preocupação mais compartilhada por toda a humanidade: a sobrevivência e o bem-estar de meninos e meninas”.

A Fundação Arigatou patrocinou o terceiro fórum da GNRC, realizado na semana passada na cidade japonesa de Hiroxima. Em sua Declaração, a GNRC propõe a realização de um “Dia Mundial de Oração e Ação pela Infância”, a ser celebrado todo dia 20 de novembro, coincidindo com o Dia Internacional da Infância. Consultado sobre o papel que a religião e da educação ética podem ter para contribuir na eliminação de conflitos, do racismo e da xenofobia, o presidente de Soka Gakkai International, Daisaky Ikeda, disse: “Creio que a missão central da religião é trazer à luz as qualidades positivas de cada um”.

“A religião existe para fortalecer nossos aspectos espirituais, para nos ajudar a sermos verdadeiramente humanos, para ajudar os indivíduos a serem mais felizes e as sociedades serem mais pacíficas e harmoniosas”, disse Ikeda. Mas, às vezes, mais do que a religião atendendo as necessidades humanas, são os seres humanos os que se convertem em servos das religiões, acrescentou Ikeda, que preside essa organização não-governamental com sede em Tóquio e com mais de 12 milhões de membros em cerca de 190 países. “Isto tem que ter um endereço, e aqui creio que teríamos de recordar que os fundadores de todos os grandes credos compartilhavam uma preocupação comum: libertar as pessoas do sofrimento e ajudá-las a serem felizes”, afirmou.

É trágico que a história esteja cheia de tanta discriminação e de tantos conflitos gerados em nome da religião. “Mas, na maioria das vezes, estes foram de fato conflitos políticos disfarçados de religiosos. Os interesses políticos usam as diferenças religiosas para seus próprios fins. Isto tem de acabar”, afirmou Ikeda, filósofo budista e agi vista pela paz. Em sua opinião, a religião e a educação têm um papel-chave no desenvolvimento da sociedade. “Para dizer isso de outra forma, são como as duas rodas de uma carretilha. A fé religiosa sem educação sempre está em perigo de cair no dogmatismo e no fanatismo”, alertou. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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