LONDRES, 20/05/2008 – (Tierramérica) O encarecimento do petróleo e do transporte pode obrigar os governos a voltarem a confiar na produção local de alimentos, afirma em entrevista ao Terramérica o cientista Michel Pimbert.

O especialista Michel Pimbert propõe valorização da produção e da distribuição locais de alimentos. - Gentileza IIED
É preciso parar a globalização e evoluir para a produção alimentar local, que permita às pessoas controlar sua própria nutrição, renda e economia, desde os lares até o plano regional. Pimbert expõe suas idéias na Internet, na publicação “Towards Food Sovereignty” (Para a Soberania Alimentar), que inclui vídeos e áudios com testemunhos de agricultores, indígenas e consumidores. Os primeiros três capítulos estão disponíveis gratuitamente no site do IIAD (www.iied.org). Pimbert não é o único que reclama mudanças de rumo na agricultura.
No dia 15 de abril, a Avaliação Internacional do Conhecimento, da Ciência e da Tecnologia no Desenvolvimento Agrícola (IAASTD) divulgou pesquisas de vários anos e concluiu que continuar com as práticas agrícolas atuais leva ao desastre. Embora não tenha tomado parte diretamente nos trabalhos da IAASTD, Pimbert afirma que sua pesquisa foi paralela, ao trabalhar diretamente com pastores e agricultores tradicionais para incluir seus pontos de vista, em geral marginalizados. Terramérica conversou com Pimbert em seu escritório em Londres.
P- Muitos reclamam maior produção de alimentos para resolver a crise da carestia. O que o senhor pensa a respeito?
R- Que não há bastante comida para alimentar a todos é um mito persistente. As questões reais são a distribuição dos alimentos e a desigualdade da renda. Entidades como a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) e o Grupo Consultivo para a Pesquisa Agrícola Internacional (CGIAR) reclamam mais pesquisa para aumentar o rendimento das colheitas. É mais do mesmo. Ninguém se fixa no acesso aos alimentos e à terra. É muito mais fácil falar sobre questões tecnológicas do que sobre o panorama completo. É momento de olhar o que está mal no sistema alimentar mundial e encontrar maneiras para que funcione melhor, especialmente para as comunidades pobres e marginalizadas.
P- Quais são os sistemas alimentares locais?
R- Começam no lar e se expandem pela vizinhança, o município e a região. Junto à produção alimentar se inclui processamento, distribuição, acesso, consumo, reciclagem e disposição de resíduos. Variam muito de um lugar para outro e são a base do sustento, da cultura e do bem-estar de centenas de milhões de pessoas, em sua maioria de nações em desenvolvimento.
P- Quais são as vantagens de produzir os alimentos no mesmo lugar onde são consumidos?
R- É muito mais democrático, oferece mais controle aos cidadãos. É ecologicamente mais sustentável e mais adaptável às condições variáveis. Mantém os recursos dentro da comunidade e gera mais renda local. Além disso, potencializa a diversidade cultural, refletindo a história e as circunstâncias de cada lugar. Afinal, comida é cultura.
P- O que fazer: criar ou fortalecer sistemas alimentares locais?
R- Governos, corporações internacionais e outras elites marginalizam ou diretamente ameaçam os remanescentes destes modelos e os ecossistemas dos quais dependem. Trinta anos de políticas neoliberais devastaram a produção local com o comércio desleal (dumping) de alimentos fortemente subsidiados das nações ricas.
P- Como recuperar a produção local em um pais destruído como o Haiti, por exemplo, onde houve distúrbios por falta de comida?
R- A primeira coisa é observar as políticas que impedem ou dificultam o surgimento destes sistemas. Deter as importações de alimento barato subsidiado seria um primeiro passo. Pode-se conseguir que os sistemas alimentares sejam justos e sustentáveis. Mas são necessárias políticas nacionais e internacionais que promovam a soberania alimentar junto com fortes federações de organizações locais. A proteção da agricultura nacional é indispensável em muitos países pobres. É interessante que várias nações estejam fazendo exatamente isso agora. A Índia por exemplo, rechaça o princípio da Organização Mundial do Comércio de que é preciso abrir os mercados, pois tenta controlar sua própria segurança alimentar.
P- O que significa para o senhor soberania alimentar?
R- É o direito das populações de decidirem sobre seus alimentos e sua agricultura. Tem a ver com regenerar uma diversidade de sistemas alimentares autônomos baseados em igualdade, justiça social e sustentabilidade ecológica.
P- Que impacto pode ter neste processo o encarecimento do petróleo e da energia?
R- O sistema agroindustrial global é muito dependente da energia barata. São necessárias entre 10 e 15 unidades de energia para produzir uma unidade de energia alimentar. Os sistemas locais de produção são muito mais eficientes quanto ao consumo de energia, e o aumento dos custos da energia e do transporte pode obrigar os governos a reconhecer esta realidade. Como concluiu a IAASTD, nosso sistema alimentar precisa de uma transformação completa para vencer os desafios das próximas décadas. Faremos pequenos ajustes ou as mudanças para integrar alimentos, ecologia, sustento e cultura?
P- O que espera conseguir com seu livro?
R- Gerar debate sobre estes temas e elevar a consciência sobre a necessidade de uma transformação em todos os níveis. Espero que as pessoas reflitam e pressionem pela mudança.
* O autor é correspondente da IPS.

