Hiroxima, Japão, 26/05/2008 – Mais de 1.300 representantes de organizações religiosas, políticas e humanitárias de aproximadamente 60 países se reuniram nesta histórica cidade japonesa para ouvir a “voz” das gerações mais jovens e renovar sua solidariedade e respeito pelos direitos fundamentais de meninos e meninas. Por outro lado, 42 adolescentes entre 13 e 18 anos expressaram sua vontade de difundir em seus respectivos países o objetivo da Rede Global de Religião a Favor da Infância (GNRC) de resolver os três principais problemas que afetam os mais jovens: violência, pobreza e degradação ambiental. O terceiro fórum da Rede, criada para estreitar a cooperação entre as gerações teve por lema “Aprendendo a compartilhar: valores, ação, esperança”.
“Desejamos reforçar nosso compromisso com a infância e também criar estratégias para ampliar a aliança da GNRC, concretamente em três principais imperativos éticos para acabar com a violência e a pobreza e dar ferramentas aos 2,2 bilhões de crianças do mundo para proteger o planeta”, disse o presidente do comitê organizador do terceiro fórum na sessão de abertura, Samuel Koo, criada em 2000 pela Fundação Arigatou com o propósito de construir um mundo melhor para meninos e meninas, a Rede exorta todos os líderes religiosos, governos e organizações não-governamentais a renovarem seu compromisso com esse objetivo.
“Esperamos que todos se comprometam com a busca da paz e façamos o que nos for possível pelas crianças”, disse o reverendo Takeyasu Miyamoto, presidente da Fundação Arigatou, uma organização não-governamental com status consultivo junto ao Conselho Econômico e Social (Ecosoc) da Organização das Nações Unidas. “A paixão de nossos corações é o motor para alcançarmos nossos objetivos hoje. Estamos aqui porque fizemos algo e faremos mais”, acrescentou. O local escolhido para realizar o terceiro fórum não poderia ser melhor. A conferência acontece em Hiroxima, “para que todos tenhamos a oportunidade de refletirmos sobre os verdadeiros valores da vida”, explicou Miyamoto.
No dia 6 de agosto de 1945 esta cidade japonesa foi destruída pela primeira bomba atômica da historia, lançada pelos Estados Unidos, que matou mais de 140 mil pessoas e é apontada como o golpe de graça da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Mais de 60 anos depois, Hiroxima se converteu em um símbolo de paz e muitos visitantes passam pela “zona zero”, onde fica o Memorial da Paz. Nos últimos anos esta cidade vem sendo reconhecida por implementar um plano de desenvolvimento para a infância que objetiva promover e brindar um sistema completo de atenção destinado aos menores.
“As crianças de hoje estão ameaçadas por terrorismo, fome, pobreza, bem como por atividades criminosas através da Internet”, disse o prefeito de Hixorima, Tadatoshi Akiba. “Para resolver esses problemas, devemos trabalhar juntos. Pedimos ao mundo que proíba as armas nucleares para dar às crianças um mundo melhor”, pediu. Todos os participantes do fórum compartilham a idéia de devolver direitos fundamentais e dignidade às meninas e aos meninos mediante novos enfoques e novas formas de promover uma melhor compreensão entre gerações, crenças religiosas e culturas.
“Temos que derrubar os muros da intolerância, fome, guerra e do analfabetismo que ameaçam a infância. Devemos nos unir às crianças na busca de novas formas e novos caminhos para construir uma nova humanidade”, pediu o prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, também presidente do Serviço de Paz e Justiça da Argentina. A GNRC se orgulha de proporcionar um espaço para que meninos e meninas se expressem. Ao defender o diálogo entre nações, também visa a uma interação aberta com os menores. Os encontros de dois dias e os anteriores ao início do fórum concluíram com os menores compartilhando o aprendido com suas contrapartes adultas nas cerimônias de abertura.
Para a pediatra Vinu Aram, o trabalho a favor da paz deve transcender as gerações. “Devemos começar ouvindo as crianças porque podem ser líderes maravilhosos na reconstrução de nossa comunidade. Nosso trabalho pela paz deve ir além das gerações. É importante criar espaços de confiança, especialmente em nível de base”, afirmou. Além disso, o ex-vice-presidente iraniano e presidente do Instituto para um Diálogo Inter-religioso, Seyed Mohammad ali Abtahi, pediu urgência aos líderes políticos e religiosos para “aprenderem paciência com as crianças”. “As crianças têm uma fabulosa proximidade com o divino. Seu conceito de Deus é mais real, mais íntimo. Compartilham uma semelhança com os filósofos porque prestam atenção a tudo e sabem ser respeitosos. Se consideram integrantes de uma comunidade ampla sem perder sua própria identidade”, afirmou.
O cardeal Jean Louis Tauran, do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso do Vaticano, enviou uma mensagem, lida pelo padre Pietro Sonoda, na qual recordou aos participantes que também se deve apoiar os país, pois precisam de toda a ajuda que possam conseguir para alimentar e educar seus filhos. “É no âmbito familiar que as crianças primeiro se alimentam de amor e cuidado, e depois aprendem a demonstrá-los aos demais”, afirmou.
O principal destaque do terceiro fórum, que acontece a cada quatro anos desde 2000, foi o lançamento de “Aprendendo a viver juntos: Um programa intercutlural e interconfessional de educação ética”, um manual para professores e líderes de jovens para promover a paz e a compreensão entre crianças de diferentes religiões e culturas. O manual não pretende ensinar religião nem historia da cultura, explicou a diretora da Fundação Arigatou em Genebra, Agneta Ucko. Trata-se de um conjunto de ferramentas para estender pontes entre os jovens. “O desafio que temos agora é como implementar o manual no mundo e utilizá-lo em vários ambientes, como escolas e grupos de jovens, para citar alguns”, acrescentou.
A porta-voz para assuntos de violência contra a infância do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Sarah Jones, disse que “a maioria de nossas religiões falam em um ponto ou outro”, e questionou a falta de ação dos governos. “Devemos lembrar aos governos que pobreza, degradação ambiental e violência não se vinculam apenas com direitos humanos, mas também com assuntos de segurança internacional. Sua urgência é real”, ressaltou. Como muitos participantes, Jones se mostrou otimista a respeito de estas questões terem solução e de se poder evitar “as violações dos direitos humanos das crianças”. Os direitos humanos devem ser a base de toda instituição baseada na fé, concluiu. (IPS/Envolverde)

