JOANESBURGO, 24/06/2008 – Mal existe um carreiro pela descida íngreme e através do denso mato até à casa dos Mabuyakhulu. Seria fácil passar por alí sem encontrar Zanele*, de 13 anos, e a irmã Andiswa, de oito anos, que vivem sozinhas. O pai morreu há muito tempo e a mãe está hospitalizada com SIDA. As duas meninas estão completamente sozinhas.
A mãe, Hlengiwe, está no hospital Mosvold em Ingwavuma, situado num local remoto no norte do KwaZulu Natal, na fronteira com a Suazilândia, e não sabe o que irá acontecer às filhas quando falecer.
Zanele vai buscar água e limpa a casa enquanto Andiswa constrói uma casa de bonecas de pedra. Antes, tinham estado a trabalhar na horta. A casa — uma estrutura feita de galhos secos entrelaçados cobertos com uma fina camada de lama — parece que vai desabar a qualquer momento e, quando chove, a água escorre pela colina abaixo e jorra para dentro da casa através de grandes buracos nas paredes.
A mãe está no hospital há alguns meses mas nenhum dos vizinhos as veio visitar desde que ela se foi embora, diz Zanele. “Temos saudades dela mas rezamos por ela — e para que continuemos a estudar,” acrescenta. Têm medo porque pela noite dentro estranhos dão pancadas na porta. “Trancamos a porta e ficamos aqui dentro,” diz.
O irmão mais velho partiu há alguns meses e não sabem se vai regressar. A mãe também tinha recebido um bebé orfão, mas os parentes do bebé vieram buscá-lo quando Hlengiwe foi internada.
Hlengiwe diz que não falou com as filhas sobre o facto de ter SIDA e de estar a morrer. “Mas elas sabem que morte é morte e que toda a gente morre,” declara. “Preocupo-me com elas porque estão no mato sozinhas e não há ninguém que cuide delas. Penso naquilo que pode acontecer quando eu já não estiver aqui e custa-me pensar que vão ficar sozinhas.”
A caminho da casa de Zanele e Andiswa, passa-se pela casa de Nhlanhla Maziya, de 16 anos, cuja mãe faleceu com SIDA alguns meses antes. Passou a tomar conta da irmã gémea — que tem um bebé de três meses –, outra irmã com 11 anos e os irmãos gémeos de quatro anos.
A mãe esteve doente durante três anos antes de falecer, e Nhlanhla teve de sair da escola para poder ganhar dinheiro para manter a família. Trabalhou como pastor ganhando $13 por mês, tendo recentemente conseguido trabalho a limpar estradas por $32 por mês. Durante anos teve de cozinhar, buscar água e lenha, e cuidar da mãe acamada — que tinha muitas dores — e ainda dos irmãos mais novos. A irmã gémea foi procurar trabalho, portanto ele era o único a governar a casa.
Não sabe quem é o pai, mas disseram-lhe que morreu. Não tem avós nem tias ou tios. Nas últimas semanas, os gémeos mais novos têm estado com outros parentes que vivem mais longe, mas estes parentes disseram-lhe que os fosse buscar porque tinham um número excessivo de crianças e não tinham recursos para também tomar conta dos gémeos.
Os vizinhos de Nhlanhla não os vêm visitar. Costumavam visitar quando a mãe estava bem, afirma, mas deixaram de aparecer quando ela ficou doente. “Custa ficar sozinho com as crianças pequenas, choram quando têm fome,” diz. “Os mais pequenos esperam que eu tome conta deles.”
Encontrei estas crianças quando desci só um caminho no remoto distrito de Ingwavuma, nas Montanhas Lebombo. Espalhadas ao longo de outros caminhos encontram-se muitas mais crianças na mesma situação. No distrito existem mais de 3.000 crianças órfãs ou vulneráveis cujos pais morreram ou estão demasiado doentes para cuidarem delas.
O Projecto Cuidar dos Órfãos de Ingwavuma foi criado por Ann Dean, médica inglesa, com o intuito de ajudar famílias a obterem subsídios de amparo a crianças, subsídios esses a que é muito difícil ter acesso nesta zona remota. A cada família com quem trabalha, o projecto também fornece comida para um mês, mas o objectivo consiste em fazer com que as famílias cultivem os seus próprios legumes. O projecto organizou com os chefes locais a disponibilização de terra aos órfãos para que estes possam criar hortas colectivas; também proporcionou vedações, ferramentas e sementes.
Os órfãos reúnem-se em “clubes de órfãos” para discutirem assuntos como a prevenção da SIDA, nutrição e lavras com regos. As reuniões também lhes dão a oportunidade de verem que não estão sozinhos e que a sua situação não é diferente. O projecto encorajou muitas das escolas na zona a receberem órfãos e crianças vulneráveis, apesar de estas não poderem pagar as propinas.
O projecto também tem 18 equipas de prestadores de cuidados de saúde baseados na comunidade para cuidarem de pessoas com SIDA em suas casas, para que não caia sobre os filhos a responsabilidade de tomarem conta do pai ou da mãe moribundos. Mas o projecto apenas consegue ajudar metade dos órfãos no distrito.
À medida que os pais morrem, muitas das casas que tinham construído estão a ruir, especialmente com a chuva torrencial das montanhas. Os conhecimentos de construção estão a perder-se com o tempo e uma casa segura no terreno da família é uma das necessidades mais urgentes para as famílias dirigidas por crianças na zona, a fim de evitar que sejam obrigadas a procurar abrigo noutro local e separadas dos irmãos. É também crucial se tiverem de proteger o seu direito de posse sobre o terreno.
O projecto de Ingwavuma está assente na convicção de que é melhor que os órfãos fiquem no ambiente familiar, ligados às suas redes sociais, e muitas comunidades responderam absorvendo órfãos com resiliência e compaixão. Mas há indícios de que as famílias estão a ter cada vez mais dificuldades e não estão a conseguir suprir todas as necessidades das crianças.
Os vizinhos em Ingwavuma e noutros locais estão a ser encorajados a receber órfãos em suas casas mas, presentemente, o cuidado de órfãos com base na comunidade está a exacerbar a pobreza de muitos agregados familiares. Continua a existir o desafio para se encontrar uma solução que condiga com a escala e a longevidade da situação.
*Os nomes dos órfãos e dos seus pais foram alterados a fim de proteger a sua privacidade.

