CARIBE: Divulgar, ou não, previsões de furacões?

Havana, 13/06/2008 – Cuba decidiu não fazer previsões públicas da temporada de ciclones porque têm pouca importância para a vida prática das pessoas e costumam criar falsas expectativas, disse José Rubiera, considerado o maior especialista em furacões deste país caribenho. Em declarações à IPS, Rubiera, chefe do Centro de Previsões do Instituto de Meteorologia, admitiu que essas previsões têm uma base científica, e nelas são encontradas correlações de importância para os pesquisadores.

O órgão estatal abandonou em 2007 a rotina de muitos anos de publicar suas previsões para a bacia do oceano Atlântico, região que compreende o mar do Caribe e o Golfo do México, na qual costumam formar-se, em média, cerca de 10 tempestades tropicais por temporada, e seis delas podem chegar a furacões, sendo um de grande intensidade. “Decidimos não divulgar previsões da temporada de ciclones, não por ser um segredo, nem nada parecido, mas porque foi uma decisão tomada no melhor interesse de nosso povo”, justificou Rubiera.

Em sua opinião, enquanto não se sabe onde e quando haverá um furacão em cada temporada, “pouco importa quantos sejam”. Não é preciso alarmar as pessoas, mas “estar sempre bem preparados, sistematicamente preparados”, insistiu o especialista, com mais de três décadas no acompanhamento de ciclones tropicais em cuba e no resto do Caribe. O público em geral não entende bem as previsões, nem encontram nelas o significado preciso que têm, acrescentou. “Ao contrário, muitas vezes acredita-se em falsas expectativas, que se desinflam quanto acaba a temporada e nenhum furacão afetou a área onde mora determinada pessoas”, ressaltou.

A utilidade destas previsões é alvo de controvérsias, especialmente nos Estados Unidos, onde hoteleiros do Estado da Florida abriram um processo judicial contra o professor de ciências atmosféricas William Gray, da Universidade do Estado do Colorado, por suas previsões no ano passado. Sem seu terceiro prognostico da temporada de 2007 no Atlântico, divulgado no dia 3 de agosto, Gray e seu colega Philip Klotzbach estimaram a formação de aproximadamente 15 ciclones com nomes, dos quais sete seriam tempestades tropicais, quatro furacões moderados (categorias 1 ou 2 na escala Saffir-Simpson) e quatro intensos (categoria 3, 4 ou 5).

Os meios de comunicação divulgaram amplamente essa previsão, e muitas pessoas optaram por não viajar à Flórida, que acabou não sofrendo nesse ano a passagem de nenhum furacão, mas, perdas para a indústria turística, o que explica a reação dos empresários. Segundo Rubiera. Por isso, “não se deve especular, mas quando houver nas proximidades um ciclone tropical com certas possibilidades de nos atingir deve-se prevenir em detalhe, dizer quais são os elementos perigosos dos quais se proteger e, sem sensacionalismo, manter o povo muito bem informado”, insistiu.

Segundo Rubiera, a experiência de Cuba em matéria de prevenção ajuda a ser o país com menos mortos por ciclones tropicais em toda a área do Atlântico, inclusive com vantagens sobre países desenvolvidos, “graças ao caráter integral do sistema de proteção que implantou”. Nos 11 anos posteriores a 1995, a etapa mais ativa conhecida na área atlântica, esta nação caribenha foi açoitada por 11 ciclones, três com categoria de tempestade tropical e oito furacões, sendo quatro de grande intensidade. “Entretanto, houve apenas 34 mortes em todo esse período, uma média de três por ano”, acrescentou. Isto se deve ao fato de os moradores em zonas vulneráveis às inundações, quedas de moradias e outros riscos são sempre levados para lugares seguros com a devida antecedência. A proteção está a cargo da Defesa Civil, dependente do Ministério das Forças Armadas, sob cuja batuta se ativa o sistema de prevenção quando se aproxima a formação de uma depressão tropical na área.

O Centro de Previsões do Instituto de Meteorologia emite avisos sobre ciclones tropicais de qualquer classificação e categoria que se encontrem na zona, que são divulgados com maior freqüência na medida em que se aproximam do país. Em caso de indícios de um risco potencial em prazos mais ou menos longos, o Centro de Previsões liderado por Rubiera divulga também avisos de alerta, que permitem às autoridades tomar decisões com tempo suficiente para reduzir riscos.

O acompanhamento e a previsão da trajetória e intensidade futura de um ciclone é uma tarefa operacional árdua e complexa, diz Rubiera, revestida também de uma grande responsabilidade pelas decisões a tomar em um tempo relativamente curto, com impacto direto na população e na economia. Em 2007, a bacia atlântica sofreu o impacto de seis furacões, dois deles de categoria cinco: Dean, que penetrou em terra pela Península de Yucatán, e Feliz, que entrou pelo nordeste da Nicarágua, causando mais de cem mortos, centenas de desaparecidos e enormes perdas econômicas. Outros dois, Noel e Olga, foram extremamente chuvosos.

Esses fenômenos, junto a varias tempestades tropicais, causaram muitos danos materiais e 370 mortes, sobretudo em países caribenhos, segundo uma análise dessa temporada divulgada pelo Instituto de Meteorologia, vinculado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. Cuba foi afetada pelo Noel em sua fase de tempestade tropical, com intensas persistentes chuvas na região oriental, que causaram uma morte e enormes danos materiais. Em seu avanço sobre o Caribe, o furacão Dean causou inundações costeiras em regiões baixas do litoral sul deste país. Uma tempestade tropical se converte em furacão quando seus ventos máximos sustentados alcançam velocidade igual ou superior a 118 quilômetros por hora. (IPS/Envolverde)

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

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