Rio de Janeiro, 23/06/2008 – A construção da maior refinaria latino-americana de petróleo e de uma grande siderúrgica, além da produção de alimentos, são projetos com os quais o Estado do Maranhão, no nordeste do país, quer superar sua pobreza acumulada nas últimas décadas. O Maranhão é a origem da maior parte dos trabalhadores submetidos a condições de escravidão, uma das chamas mais conhecidas do Brasil, e também de dezenas de milhares que enfrentam duras jornadas cortando cana-de-açúcar durante meses, longe de suas casas, há mais de dois mil quilômetros. Este Estado, que ocupa uma área de transição entre o clima semi-árido e a úmida Amazônia oriental, era apontado há quase cinco décadas como “a solução para o nordeste”, um refúgio para os pobres acossados pelas secas, recordou o governador Jackson Lago.
Mas, há pelo menos 15 anos que já não recebe imigrantes nordestinos próximos, pelo contrário, mais de um milhão de maranhenses deixaram sua terra natal em busca de trabalho em Estados vizinhos e distantes, sujeitando-se às piores condições. O garimpo, mineração quase sempre ilegal, e o desmatamento da Amazônia atraíram boa parte desses imigrantes. Nas últimas quatro décadas o Maranhão sofreu uma forte concentração da terra, com “2,5 a três milhões de hectares entregues a grandes empresários”, e houve uma redução drástica da agricultura de pequena escala, sem que “nenhum importante projeto fosse desenvolvido”, explicou o governador na quinta-feira (19) em conversa com empresários, políticos e jornalistas no Rio de Janeiro.
Os grandes projetos instalados em seu território, como a ferrovia que transporta minério de ferro de Carajá, serra que fica no vizinho Pará; uma fábrica de alumínio e um porto exportador compõem uma “economia de enclave”, que em nada contribui para o desenvolvimento local, deixando “apenas a contaminação”, acrescentou o governador do Maranhão. Este Estado, que já foi o segundo maior produtor de arroz do Brasil, “hoje importa mais da metade do arroz que consome”, e é um Estado importador de alimentos, lamentou Lago. Além disso, a expansão última da soja na parte sul do Estado, onde predomina o cerrado, a savana que ocupava uma extensa área central do país expulsou a população camponesa de suas terras. Em Balsas, município onde esta monocultura mais avançou, 95% dos 80 mil habitantes hoje vivem na cidade.
Esta situação “serve de ensinamento” para evitar outros desequilíbrios semelhantes e promover “a convivência” entre esse negócio agrícola agressivo e a produção rural em pequena escala, disse o governador, após reconhecer que os assentamentos de camponeses que promove ainda estão longe de confirmar uma reforma agrária necessária. Uma delimitação do espaço econômico-ecológico do Estado e a criação local de um centro da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa, órgão estatal que foi decisivo no aumento da produtividade agrícola nacional) ajudarão o desenvolvimento local, destacou Lago. O conhecimento nessa área é chave. A mandioca cultivada no Maranhão é quase de seis toneladas por hectare em cada colheita, contra 25 a 30 no Paraná, comparou o governador. Dessa forma, a mandioca do sul compete com vantagens no mercado local, apesar do custo de transporte por mais de três mil quilômetros.
O combate contra o analfabetismo, que se busca superar com ajuda venezuelana na aplicação do método de alfabetização cubano “Sim, eu posso”, e a instalação de muitas escolas técnicas são outras bandeiras do governador atual, cuja eleição rompeu quatro décadas de domínio da política local liderada pelo senador José Sarney. O grupo Sarney continua sendo poderoso, já que controla os meios de comunicação mais influentes do Maranhão, em um monopólio que se repete em outros Estados do nordeste, como Bahia e Alagoas, lamentou Lago. Os grandes projetos com que ele conta para promover a economia local também empregam pouca gente, como a refinaria, e geram ameaças ambientais, com a siderurgia e a construção de outro porto exportador, admitiu.
Diante da falta de experiência em lidar com projetos dessas dimensões e problemáticos, o governo maranhense assinou um convênio com a Universidade de São Paulo para ajudar as autoridades ambientais estaduais a enfrentarem os novos desafios. O Estado já tem meia dúzia de siderúrgicas instaladas que processam o minério de ferro de Carajás, que foram fatores de intenso desmatamento nas três últimas décadas, porque usaram – e algumas continuam usando – carvão vegetal extraído de florestas nativas, em muitos casos explorando trabalhadores como escravos. O Maranhão apresenta hoje extensas áreas desmatadas pelas carvoarias, pela pecuária, extração de madeira e agricultura, produto de uma expansão econômica baseada no intenso aproveitamento não-sustentável de recursos naturais, baixa geração de emprego e desenvolvimento local, tudo o que explica em grande parte a pobreza da população brasileira. (IPS/Envolverde)

