DESTAQUES: A verdade do Titicaca está por ser conhecida

BAHIA DE COHANA, Bolívia, 03/06/2008 – (Tierramérica) Um programa binacional, com apoio do Pnuma, deverá lançar luz sobre o grau, a origem e os remédios da contaminação do Lago Titicaca.

Gado bebe no Rio Sewanka, contaminado pelas águas do esgoto de El Alto, Bolívia. - Bernarda Claure

Gado bebe no Rio Sewanka, contaminado pelas águas do esgoto de El Alto, Bolívia. - Bernarda Claure

Ninguém duvida que o Lago Titicaca, fonte hídrica e bacia compartilhada por Bolívia e Peru, está contaminado. Porém, meio século depois que os dois governos alertaram sobre isso, não há estudos integrais da situação de suas águas. Seis são os locais mais prejudicados, entre eles a Bahia de Cohana, no departamento boliviano de La Paz, e a peruana Bahia Interior de Puno, no departamento de mesmo nome. Trata-se de enormes tanques naturais cheios de um coquetel de esgoto, contaminação orgânica e resíduos de indústrias e minas.

A falta de tratamento de esgoto se converteu em uma ameaça para as populações próximas. “Nós usamos a água apenas para lavar roupa”, disse ao Terramérica Sonia Copa, perto da comunidade de Argachi, a uma hora de carro da Bahia de Cohana. “Não a damos nem aos animais porque às vezes está vermelha, outras é negra, com mau cheiro”. Em Argachi, as famílias optaram por cavar poços para conseguir água. “Temos medo de ficar doentes, animais morreram tomando água do rio”, assegura Felipe Chura, dono de um pequeno rebanho.

Apesar de numerosas pesquisas, o problema não foi abordado de forma sistemática, portanto, as verdadeiras condições ambientais e o impacto futuro são uma incógnita, disse ao Terramérica o engenheiro Alberto Giesecke, do Conselho Nacional do Meio Ambiente do Peru. Segundo Giesecke, o principal problema no Peru são os efluentes e resíduos sólidos das comunidades. Do lado boliviano correm águas contaminadas desde os ocidentais municípios de Viacha, Laja, Pucarani e da cidade industrial de El Alto, perto de La Paz, um conjunto que soma quase um milhão de habitantes.

O Titicaca (rocha do jaguar ou rocha do felino em língua aymara) fica na zona fronteiriça das duas nações sul-americanas, escoltado pela Cordilheira dos Andes. É o Lago navegável mais alto do mundo, com 3.810 metros acima do nível do mar. Suas águas são transparentes e azuis na maior parte de seus 8.562 quilômetros quadrados, 3.790 em território boliviano e 4.772 em solo peruano.

Entre sua fauna nativa se encontram várias espécies de patos, peixes como o ameaçado suche (Trichomycterus rivulatus), o karachi (do gênero Orestias) e a endêmica rã gigante do Titicaca (Telmatobius culeus). Entre a vegetação aquática estão o junco (Scirpus californicus) e a yana llacho (Elodea potamogeton) e a lentilha de água (Lemna sp.). Mais de 25 rios deságuam nele. A contaminação teria afetado uma “pequena porcentagem” deles, disse ao Terramérica Luis Albereto Sánchez, coordenador na Bolívia da Autoridade Binacional do Lago Titicaca (ALT).

Entre a informação de instituições diversas e a percepção dos habitantes armou-se uma espécie de quebra-cabeça. “O que se faz envolve instituições públicas, acadêmicas e privadas, mas os sistemas de monitoração não são contínuos nem sustentáveis, de tal maneira que a informação não é única”, afirma Giesecke. “Talvez seja preciso introduzir uma posição mais modesta, praticar um monitoramento essencial. Com disse um autor, nos contentarmos com chegar a um nível de ignorância ótima e não buscar conhecer tudo o que se deve saber”, sugeriu.

Para abordar esse problema, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) incentiva um plano binacional para estabelecer uma rede oficial de monitoramento ambiental, “que uniformize a informação com um único protocolo”, disse ao Terramérica a bióloga Evelyn Taucer, do Centro de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da estatal Universidade Mayor de San Andrés de La Paz (UMSA). “Estamos identificando seis pontos para a localização das estações de monitoramento, a partir dos quais faremos um controle físico, biológico e químico das águas e da biodiversidade aquática”, explicou, pois é preciso “que os esforços se canalizem para uma única rede que proporcione informação oficial para a tomada de decisões”.

Tanto na Bolívia quanto no Peru atuam prefeituras e governadores, ministérios e vice-ministérios, além da ALT, entre outras entidades não necessariamente inter-relacionadas. A Bahia de Cohana fica a quatro horas de La Paz, na região do Lago Menor da Bolívia. Não há um único especialista para alertar que o Rio Sewanka, que acompanha parte do caminho a este povoado de pecuária com cerca de mil habitantes, está sujo e que o Lago cheira mal.

Segundo o liminólogo Roberto Apaza, do Laboratório de Qualidade Ambiental da UMSA, os sedimentos, a proliferação da lentilha de água e a conseqüente redução de espaços para aves e peixes são um fato com o qual os habitantes devem conviver. Disto já se ouvia falar nas escolas. “Nos ensinam sobre contaminação”, disse Lucio Pari, de 14 anos, que sabe que a lentilha tem altas concentrações de cádmio, chumbo e arsênico, segundo diagnôstico do Laboratório da UMSA.

A que mais contaminantes absorve é a lentilha sobre a qual correm os gansos andinos (Chloephaga melanoptera). Esta planta é utilizada como adubo, enquanto o junco serve de alimento para o gado. “Uma considerável quantidade do gado não é abatida nos matadouros municipais, mas em matadouros a céu aberto e clandestinos”, e os restos “são jogados diretamente no Rio Katari”, escreveu o pesquisador Francisco Fontúrbel em seu trabalho “Relevamento ecoturístico rápido da Bahia de Cohana, Lago Titicaca”.

Isto contribui para disseminar o parasita fasciola hepatica. Com ele teriam se infectado e morrido mais de três pessoas na região, segundo Esteban Zapana, ex-autoridade municipal. Algumas propostas de solução vêm de organizações não-governamentais. Por exemplo, a “tecnologia de biodigestão anaeróbica”, um processo de fermentação de excrementos humanos e animais e de dejetos agrícolas para gerar biogás, explica ao Terramérica Oliver Campero, diretor do projeto Tecnologias em Desenvolvimento, que tem estações experimentais em Tiwanaku, a cerca de 70 quilômetros de Cohana.

A Prefeitura de La Paz pretende descontaminar a baía em 25% e tornar potável a água que a população consome. É iminente o resultado de uma licitação das obras para captar a água de uma vertente, tratá-la e canalizá-la, explicou Ramior Villarroel, diretor de Recursos Naturais e Meio Ambiente de La Paz. Se a contaminação não for revertida, dizia a previsão de Fontúrbel, a bacia lacustre “poderá começar a entrar em colapso, interrompendo a cadeia alimentar e transformando em pântano as margens do Titicaca”.

* A autora é correspondente da IPS

Bernarda Claure

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