REPORTAGEM: Como expiar os pecados da carne bovina

RIO DE JANEIRO, 17/06/2008 – (Tierramérica) A pecuária consome muitos quilos de alimento vegetal para produzir cada quilo de carne e é uma enorme fonte de gases causadores do efeito estufa no Brasil, Uruguai e Argentina.

A pecuária sul-americana carrega as culpas alimentares e ambientais. - Gentileza Sociedade de Criadores de Hereford do Uruguai

A pecuária sul-americana carrega as culpas alimentares e ambientais. - Gentileza Sociedade de Criadores de Hereford do Uruguai

A carestia dos alimentos e o aquecimento global deixam em evidência alguns males da pecuária, como seu elevado consumo de proteína vegetal para gerar pouca carne e seu papel na poluição causadora da mudança climática. Por causa da pecuária bovina, o Brasil está entre os maiores emissores mundiais de gases causadores do efeito estufa, pois a atividade penetra na Amazônia e provoca a maior parte do desmatamento. Segundo o primeiro inventário nacional, de 1994, o corte de árvores representa 75% das emissões brasileiras de gases que aquecem a atmosfera. A destruição de florestas, acelerada desde os anos 80, coincide com a expansão da pecuária.

De 1994 a 2006, o rebanho bovino cresceu de 158 milhões para 205 milhões de cabeças, e 82% desse aumento se deu na Amazônia, segundo o estudo “O Reino do Gado”, da organização ambientalista Amigos da Terra-Amazônia Brasileira, divulgado em janeiro. O gado na Amazônia – 73,7 milhões de cabeças em 2006 – ocupava 74% de toda a área desmatada. Porém, a causa original do desmatamento não é a pecuária, mas a falta de estímulo para uma produção sustentável na Amazônia, afirma Mario Menezes, diretor-adjunto da Amigos da Terra e co-autor do estudo.

Sem ordenamento agrário, controle estatal e políticas de fomento produtivo, a “expansão é desordenada”, disse o ambientalista ao Terramérica. A maior parte das terras da Amazônia é pública, mas o governo não as controla e muitos pecuaristas as ocupam ilegalmente e gastam muito pouco para eliminar as florestas, acrescenta Paulo Barreto, pesquisador do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia. Enquanto isso, recuperar pastagens degradadas custa duas vezes e meia a mais, ressalta.

Com produtividade de pouco mais de uma cabeça por hectare, a pecuária brasileira tem fome de terras baratas. Desmatar quase sem risco de sanção é o caminho lógico. Na Amazônia, além disso, a gado bovino encontrou “sol, calor e água o ano todo”, o que favorece uma carne mais barata, “competitiva, apesar da distância” dos centros industriais, disse ao Terramérica o presidente da Comissão de Meio Ambiente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, Assuero Veronez. Atribuir três quartos dos gases causadores do efeito estufa ao desmatamento é errado, diz Veronez, porque o cálculo inclui toda a biomassa da área, esquecendo que antes das queimadas se retira toda a madeira útil e depois ficam muitos resíduos, por isso queimam apenas “30% a 40% da biomassa original”, disse.

Tito Díaz, oficial de Saúde e Proteção Animal da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) na América Latina, também destaca que “as pastagens fixam carbono em suas raízes” em um volume “bastante considerável que não é levado em conta”. Contudo, agora, “tudo é proibido” por questões ambientais, o que provoca um “estrangulamento da economia amazônica”, queixa-se Veronez. A pressão aumenta. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) iniciou em março a campanha “Mude o consumo para não mudar o clima”, exortando o público e os supermercados a exigirem o rastreamento da carne e rejeitando a proveniente de gado que tenha contribuído para o desmatamento.

Segundo Lisa Gunn, gerente de Informação do Idec, a carne bovina “não é sustentável” porque resulta da conversão de uma quantidade muito maior de alimento e proteína vegetal, além de exigir muita terra. Entretanto, só é possível “mudar hábitos gradualmente, por isso recomendamos o consumo”, em lugar de eliminá-lo, afirmou. Em uma pecuária pastoril como a sul-americana, se produz um quilo de carne com 18 a 20 quilos de pastagem, enquanto em confinamento, usando grãos, são necessários seis a oito quilos de alimento, afirma Francisco Santini, veterinário do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária da Argentina.

O gado confinado ocupa menos espaço, mas também provoca desmatamento, já que se alimenta de soja, da qual Brasil e Argentina são grandes produtores. Esse efeito fica evidente no aumento da área desmatada na Amazônia cada vez que aumenta o preço internacional da soja. É preciso somar também o metano liberado pela fermentação intestinal dos ruminantes e o óxido nitroso dos excrementos, gases emitidos em menor quantidade mas que têm, respectivamente, 21 e 300 vezes mais efeito estufa do que o dióxido de carbono das florestas queimadas.

Na Argentina, a pecuária cedeu à agricultura 11 milhões de hectares nos últimos 14 anos, mantendo um rebanho de 54 milhões de cabeças. As emissões de metano diminuíram com o aumento da alimentação com grãos, disse Santini. O dado mais recente indica, contudo, que a agropecuária gera 44% das emissões nacionais de gases que causam o efeito estufa, com maior participação do metano de origem bovina. No Uruguai, que tem 10 milhões de bovinos (três vezes a população humana), além de 15,2 milhões de ovinos, a agropecuária gera 91% das emissões nacionais de metano e é a segunda fonte de gases causadores do efeito estufa.

Um informe da FAO, de 2006, estima que a pecuária gera 18% desses gases no mundo, superando o setor dos transportes. O cálculo soma o desmatamento, cultivo de alimentos e seus insumos químicos, os gases dos animais, o processamento da carne e seu transporte. Em quase toda a América Latina, perde-se florestas para a pecuária e a soja, mas Chile e Uruguai ampliaram sua cobertura florestal, o que indica que se pode multiplicar o gado “sem necessidade de acabar com a floresta”, destaca Díaz ao Terramérica.

A região tem a vantagem de alimentar seus rebanhos com pastos e forragens, que não competem com a alimentação humana, diante dos altos preços dos cereais que Europa e Estados Unidos utilizam em sua pecuária subsidiada, acrescenta Díaz. Para não perder essa oportunidade, a região deve promover “sistemas pecuários sustentáveis” e recuperar pastagens degradadas, recomenda o especialista da FAO. Isso é feito no Estado do Acre, integrando agricultura, pastoreio e silvicultura, o que melhora a produtividade de pequenas, médias e grandes propriedades, com três cabeças por hectare, o triplo da média nacional, informa Judson Valentim, chefe do centro local da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Valentim admite que a pecuária desmata ao depender de terras baratas, mas isso se corrige com maior produtividade e medidas como a proibição, a partir de 1º de julho, de créditos a agricultores e pecuaristas que fizerem desmatamento ilegal. A pecuária brasileira pode ser sustentável com tecnologias mais produtivas, limitada a áreas adequadas e deixando para a agricultura as terras que têm essa vocação, acrescenta. No entanto, isso exige políticas que compensem o investimento na recuperação de terras degradadas ou mais caras, remunerem serviços ambientais e alterem a lógica econômica que impõe o desmatamento, concordam Barreto e Veronez.

* Com as colaborações de Marcela Valente (Buenos Aires) e Raúl Pierri (Montevidéu).

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *