AMBIENTE: conservação em jogo em cúpula baleeira

Santiago, 23/06/2008 – As posturas que dividem a Comissão Baleeira Internacional, uma a favor da caça e outra conservacionista, voltarão a se enfrentar na 60ª reunião anual da entidade que acontece nesta semana na capital chilena. Um dos principais assuntos a ser debatido entre os 80 integrantes da CBI, criada em 1946 pelos países signatários da Convenção Internacional para a Regulamentação da Caça de Baleias, será nada menos que o futuro do organismo, que em 1986 acordou uma moratória à caça comercial de todas as espécies de baleia.

A CBI deverá “definir se avança em sua modernização, como um organismo de conservação e manejo responsável dos cetáceos, ou se avança para sua fossilização”, respondendo à realidade de 1946, disse à IPS Elsa Cabrera diretora-executiva do não-governamental Centro de Conservação Cetáce do Chile (CCC). Para os conservacionistas, a evolução da CBI significa que assumirá todas as ameaças que pesam sobre as baleias, que inclua o turismo de observação e a pesquisa não-letal e, ainda, que protejas os pequenos cetáceos como golfinhos e botos, explicou à IPS Aimee Leslie, porta-voz do não-governamental Fundo Internacional para a Proteção dos Animais e seu Habitat (IFAW).

Os baleeiros, entretanto, querem que a CBI volte aos seus inícios, isto é, que seja um órgão que regule a caça, mas, após 60 anos, o estado das populações de baleias não é o mesmo”, acrescentou. A moratória vigente desde 1986, que exclui as comunidades aborígines dos Estados Unidos, Rússia e Groenlândia, consumidoras de cetáceos para subsistência, apenas não é respeitada por Islândia, Noruega e também pelo Japão, que em 1986 iniciou um questionado programa de caça científica no Santuário do Oceano Austral, criado pela CBI em 1994. Pela terceira vez em sua história, a reunião anual deste organismo acontecerá na América Latina, uma região que se declara “conservacionista”.

O bloco latino-americano, integrado por Brasil, Argentina, Belize, Chile, Costa Rica, Colômbia (observadora), Equador, Guatemala, México, Nicarágua, Panamá, Peru e Uruguai, coordena suas ações desde 2005, quando foi criado o “Grupo de Buenos Aires”. Outra resposta dos países conservacionistas é a criação do Santuário Baleeiro do Atlântico Sul, proposto por Brasil e Argentina e patrocinado pela África do Sul. Na 59ª reunião foi aprovada por maioria simples, mas, precisa de dois terços dos votos. O Chile, país anfitrião, deu um contundente sinal conservacionista ao declarar suas águas, que incluem cerca de 5,4 milhões de quilômetros quadrados, livre da caça de cetáceos.

O governo chileno da socialista Michelle Bachelet se prepara para ditar dois decretos e enviar um projeto de lei ao parlamento para concretizar essa disposição, impulsionada pelos não-governamentais Centro de Conservação Cetácea (CCC- e Centro Ecoceanos, bem como pela Confederação Nacional de Pescadores Artesanais do Chile (Conapach). Um dos decretos estenderá indefinidamente a atual moratória de caça de vertebrados marinhos em águas nacionais, que terminaria em 2025, e o outro declara os cetáceos monumento nacional. A iniciativa legal vai regular a interação com os cetáceos, como o turismo de observação. Antes do Chile, México, Costa Rica e Panamá já haviam declarado suas águas santuário baleeiro. Brasil e Argentina proíbem a caça de qualquer tipo de cetáceos em suas águas.

Nos cinco dias de sessões em Santiago do Chile será examinado o atual estado das populações de cetáceos e bem como os métodos de caça e o bem-estar animal, onde se considera, por exemplo, o tempo de morte da baleia desde que é atingida pelo arpão. Os países da CBI também deverão votar a proposta do Japão de autorizar quatro comunidades costeiras nipônicas caçar baleias com fins comerciais. Para isso são necessários 75% dos votos. Para as nações conservacionistas, caso essa petição seja aprovada, se estaria implicitamente levantando a moratória, porque abriria o caminho para outros países baleeiros.

Em uma entrevista publicada pelo jornal chileno El Mercurio, o delegado japonês na CBI, Joji Morishita, reivindicou “a caça sustentável de baleias” como parte da tradição cultural de seu país. Descartou que todas as espécies de cetáceos estejam em perigo e assegurou não ser possível estudar estes mamíferos sem usar métodos letais. Morishita defendeu a caça cientifica de seu país afirmando que entre 1987 e 2006 foram apresentados 182 estudos à CBI. A seu ver, o debate em torno dos cetáceos está radicalizado. “Ainda vemos essa argumentação tão simplista quanto preto no branco: todas as atividades de caça de baleias são diabólicas e todo o resto é de sonhos bons”, disse o delegado japonês ao jornal.

Para Leslie, do IFAW, é impossível realizar uma caça sustentável. “Embora algumas espécies tenham mostrado uma leve recuperação, ainda não se pode dizer que são populações saudáveis”, afirmou. Estes animais migratórios têm um papel fundamental no ecossistema marinho ao manter seu equilíbrio, ressaltou. “As baleias enfrentam mais ameaças do que nunca na história: colisão com embarcações, ruído intraoceânico e mudança climática, além de ficarem presas nas redes de pescadores, acrescentou Leslie, o que a seu ver é suficiente para ainda por cima se acrescentar a caça dirigida.

Para Cabrera, co CCC, por trás da posição japonesa há “razoes geopolíticas bastante importantes para uma nação pesqueira com grandes frotas em águas distantes”, que tem a ver mais com acessibilidade aos recursos pesqueiros de alto-mar do que com uma tradição cultural, considerando o atual estoque de carne de baleia que mantêm. Wakao Hanaoka, ativista do capítulo japonês do Greenpeace, garantiu na sexta-feira, em Santiago, que “a maioria da população de seu país não come carne de baleia”, especialmente os mais jovens, e que “80% deles não entendem o que é caça científica”. Inclusive, alguns supermercados japoneses anunciaram que não venderão carne de cetáceo mesmo se a moratória for levantada, afirmou Hanaoka aos jornalistas.

A não-governamental Oceanic Preservation Society (OPS, dos Estados Unidos) apresentou na capital chilena a sinopse de um documentário denunciando o massacre atual de golfinhos em uma enseada secreta localizada em Taiji (Japão), e as conseqüências do consumo desta carne, que possui elevados níveis de mercúrio. Taiji é uma das quatro localidades costeiras onde o Japão pretende reiniciar a caça comercial de cetáceos. Câmeras ocultas registraram caçadores comentando, inclusive, as matanças de baleias que haviam realizado nas costas do Chile.

Além disso, o filme “The Rising”, que estreará em 2009, acusa diretamente o governo japonês de envenenar suas crianças ao utilizar carne de golfinhos na merenda escolar, apesar do mercúrio prejudicar o sistema nervoso, causando problemas motores, oculares e auditivos. Seu autor é o fotografo Louie Psihoyos. Nas brutais imagens do documentário de Psihoyos, que trabalhou por 18 anos na Revista National Geographic, (EUA), se vê caçadores japoneses arrastando com cordas os cetáceos até a enseada, onde os matam enterrando longos facões repetidas vezes. Os golfinhos demoram longo tempo agonizando em um mar de sangue. Por isso, Psihoyos pediu à CBI para incluir golfinhos, botos e outros pequenos cetáceos na moratória de caça comercial, a fim de protegê-los.

“É difícil estimar a correlação de votos nesta reunião, porque até o último minuto podem se inscrever novos países, tanto pelo bloco baleeiro quanto pelo conservacionista, mas, creio que vamos ter uma tendência semelhante à do ano passado, quando os países conservacionistas foram maioria simples”, previu Cabrera. (IPS/Envolverde)

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *