Washington, 13/06/2008 – A crise financeira global originada nos Estados Unidos, em combinação com o incessante encarecimento dos alimentos e combustíveis, já se faz sentir nos países em desenvolvimento, segundo o Banco Mundial. O fluxo de capitais privados para os mercados emergentes atingiu a cifra recorde de US$ 1 trilhão em 2007, mas o Banco Mundial estima que cairá para cerca de US$ 800 bilhões até 2009. Além disso, o crescimento econômico dos países do Sul em seu conjunto passará dos 7,8% em 2007 para 6,5$ este ano, segundo previsão do Banco, incluído em um informe divulgado esta semana intitulado “Fluxos mundiais de financiamento para o desenvolvimento 2008”.
A desaceleração será mais pronunciada nas nações com forte dependência do capital estrangeiro, alerta o estudo. A razão é que, devido à crise, as instituições de crédito estão endurecendo suas condições para concessão de empréstimos. O Banco previu que o crescimento do produto bruto mundial cairá: em 2008 chegará a 2,7%, um ponto percentual a menos do que no ano passado. O Panorama será ainda mais sombrio se a instabilidade financeira causada pela explosão da “bolha” imobiliária nos Estados Unidos se agravar ou se prolongar no tempo.
A avaliação reflete um crescente pessimismo sobre o desempenho futuro das economias dos países em desenvolvimento. “Nunca como antes nos últimos anos a incerteza sobre as perspectivas foi tão pronunciada e voltada para o pessimismo”, disse o Banco. A desaceleração faia vetar a maioria das regiões do mundo em desenvolvimento, com maior impacto na América Latina, Ásia oriental e zona do Pacífico, acrescentou. O crescimento econômico da China diminuirá 2,5%, ficando em torno dos 9,2% no próximo ano e em 9% em 2010.
Por outro lado, o produto bruto da África subsaariana se expandirá. Este ano esse crescimento será de 6,5%, o maior já visto na região em quase quatro décadas. Cairá levemente para 5,9% em 2010, mas estará claramente acima dos resultados dos últimos anos, afirmou o Banco Mundial. As economias com altos déficits de conta corrente e grande necessidade de financiamento externo serão as mais vulneráveis. Entre elas figuram as da Europa oriental, e da Ásia central, alertou o estudo. Também os países mais pobres serão afetados, por sua dependência da ajuda externa, que continua diminuindo.
Os doadores a reduziram em torno de US$ 3,4 bilhões entre 2005 e 2007, destacou o Banco, que citou dados da Organização para a Cooperação Econômica e o Desenvolvimento, com sede em Paris. Em janeiro, tanto o Banco Mundial quanto o Fundo Monetário Internacional haviam indicado que, embora nenhuma região fosse ficar à margem dos efeitos da crise, as conseqüências para os países em desenvolvimento seriam moderadas. As previsões mais pessimistas do estudo se baseiam principalmente nos temores da inflação nessas nações. O preço dos alimentos básicos duplicou desde 2005, principalmente devido à maior demanda, ao auge dos biocombustíveis, às políticas protecionistas e à especulação financeira, destacou o Banco.
Os combustíveis também dispararam: os analistas já especulam com um preço do barril de US$ 140 e não se acredita que a tendência à alta seja interrompida. “O forte crescimento no mundo em desenvolvimento certamente ajuda a enfrentar a aguda desaceleração nos Estados Unidos”, disse Uri Dadush, diretor do departamento do Banco sobre perspectivas de desenvolvimento e comércio internacional. “Mas, ao mesmo tempo, as crescentes pressões inflacionarias, especialmente pelos aumentos nos alimentos e combustíveis, estão afetando um vasto segmento dos pobres ao redor do mundo”, alertou.
Ao mesmo tempo, a escalada de preços está “represando” as perigosas águas em que agora estão os bancos centrais e ministros da economia. “No mundo em desenvolvimento as pressões inflacionárias complicarão o papel que devem ter as políticas monetárias e fiscais para manter a estabilidade macroeconômica no médio prazo”, diz o estudo. Entre outras potenciais ameaças, o Banco citou a debilidade do dólar norte-americano, que pode aumentar a expectativa de inflação e empurrar para alta ainda mais os preços das matérias-primas. A avaliação do Banco se conhece em meio a alertas de economistas, no sentido de que dois terços da população mundial provavelmente sofrerão este ano taxas de inflação de dois dígitos e quando os Estados Unidos tentam persuadir os banqueiros de que evitou cair em uma grave recessão.
“Esse risco parece ter diminuído no último mês”, disse o presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, Ben Bernanke. Ao mesmo tempo, não deu muito importância aos últimos dados estatísticos oficiais sobre o desemprego, que mostraram no mês passado o maior aumento de desocupação em duas décadas. Bernanke reconheceu, entretanto, que o preço da energia pode causar um aumento da inflação ou a expectativa de isso ocorra.
Portanto, os Estados Unidos e outros países deverão transitar por um estreito desfiladeiro, tendo de um lado a necessidade de estimular a paralisada econômica e, por outro, a necessidade de controlar a inflação, prioridades às vezes contraditórias. O estudo do Banco diz que as dificuldades no mundo rico terão uma vida relativamente curta: previu uma completa recuperação para 2010. (IPS/Envolverde)

