DIREITOS HUMANOS: Diálogo entre as diferenças

Madri, 17/07/2008 – Os reis Juan Carlos, da Espanha, e Abdulá, da Arábia Saudita, abriram ontem a Conferência Internacional para o Diálogo, que busca um compromisso global para o respeito aos direitos humanos, a rejeição da violência e o entendimento entre todas as religiões e culturas. A Conferência, instalada em Madri e que terminará na sexta-feira (18), é uma iniciativa do rei saudita, que disse na abertura que serão abordados temas como a vida das sociedades humanas, a segurança e a paz, os direitos humanos, a cooperação internacional para a paz e o desenvolvimento e a convivência pacífica no mundo.

Juan Carlos, por sua vez, disse que no planeta se deve fazer com que impere um entendimento comum, para ser possível “acabar com a barbárie terrorista, a fome e a discriminação, e para serem respeitados os direitos humanos, sem exceções”. Ao ser perguntado sobre a questão do islamismo, Abdulá disse à IPS que esta reunião não foi convocada para discutir sobre esta ou aquela religião, mas para “criar um ambiente positivo para compartilharmos a fim de estudar como podemos e devemos cooperar para resolver os problemas da sociedade atual”. Entre os assuntos que preocupam atualmente estão “a desintegração familiar, a queda da ética, os problemas da juventude e muito especialmente como acabar com a violência e conseguir que reine a paz”, ressaltou Abdulá.

O monarca saudita negou que as tragédias vividas pela humanidade tenham ocorrido ou sido motivadas por razoes religiosas, e sim que quando foram invocadas crenças isso se deu pelo “extremismo adotado por alguns dos seguidores” de diversas religiões e postulados políticos. Por isso afirmou que a diversidade de religiões pode ser um meio para a “felicidade” dos humanos, porque se Deus quisesse outra coisa “teria imposto uma única religião à humanidade”. O rei Abdulá concluiu que “não se trata de discutir sobre as religiões, já que todas têm um deu único, o que queremos é que as religiões sejam um meio para superaras disputas e não para serem suas protagonistas”.

Na abertura da reunião o rei Juan Carlos também defendeu o diálogo, que deve ser feito “a partir do respeito mútuo às nossas respectivas identidades e crenças”, no sentido de “facilitar o melhor conhecimento mútuo, destacar aqueles valores nos quais coincidimos e promover a colaboração e o entendimento recíproco”. Em toda essa linha, prosseguiu, “o diálogo entre religiões e culturas tem um destacado papel que ganha importância nesta era da globalização”. O monarca recordou que a Espanha saiu de uma ditadura (liderada por Francisco Franco de 1939 a 1975) e construiu e desenvolveu sua democracia “em torno da tolerância, da convivência e do respeito mútuo”, sistema de direito que sempre é partidário de “aprofundar a paz, o diálogo e a cooperação em nível internacional”.

A esse respeito, o vice-ministro de Informação da Arábia Saudita, Saleh Al Namlah, explicou aos jornalistas que a escolha de Madri para sede da Conferência teve por base a “boa relação” entre os dois países e pela característica da Espanha como “ponte cultural, um centro histórico de encontro entre muçulmanos, cristãos e judeus”. Do encontro, do qual também participam monges budistas, é organizada pela Liga Mundial Islâmica e acontece por sugestão do rei Abdulá, cujo governo a apóia política, religiosa e financeiramente.

A Liga é um organismo civil com sede em Meca, a cidade saudita centro de peregrinação do mundo muçulmano, e que representa os povos das nações islâmicas e as minorias em outros países, com mais de 40 delegações nos cinco continentes, desenvolvendo atividades culturais e de cooperação. Uma característica destacável desta Conferência é que, pela primeira vez em um encontro desta natureza e presidido pelo rei da Arábia Saudita haverá uma mesa-redonda com participação de delegadas de várias religiões para tratar do tema “A mulher nas diferentes religiões”. Entretanto, nos discursos inaugurais os dois monarcas não mencionaram a questão feminina nem se falou de seus direitos, e entre as 250 pessoas participantes, de todo o mundo, apenas 15 são mulheres.

O secretário-geral da Liga, Abdala bin Abdul Moshsin Al-Turku, disse que a Conferência deve buscar a consolidação dos valores morais e as nobres práticas sociais contra a libertinagem e lutar contra a decadência moral e o desmembramento familiar, mas tampouco mencionou sequer os direitos da mulher. A teóloga espanhola Margarita Pinto, que presidirá o debate sobre a mulher nas religiões, disse à IPS acreditar que “em nenhuma cultura existe igualdade entre os sexos, embora as mudanças positivas estejam ocorrendo mais em umas do que em outras. E essa desigualdade se deve aos sistemas patriarcais referendados pelos religiosos”.

Sobre o futuro acrescentou que “há muito por ser fazer e os avanços acontecerão na medida em que as mulheres se conscientizarem de seus direitos e lutarem, porque o que já conseguimos não nos foi dado de presente”. Para Margarita, “nenhuma religião vai contra os direitos humanos, e sua violação se deve aos que interpretam mal os princípios religiosos e estabelecem normas, e até agora na imensa maioria dos casos são homens, políticos ou não, que têm feito isso”.

Nos debates iniciados ontem também se destaca a participação do secretário-geral do Congresso Judeu Mundial, Michael Schneider, e do cardeal católico Jean-Louis Tauran, que é o responsável do Vaticano para o diálogo com o Islã. Sobre o diálogo, o presidente do Congresso Mundial Judeu, Ronald Lauder, disse que “é um dever dos líderes religiosos trabalharem juntos para restaurar um respeito pelos valores éticos e para evitar o choque de civilizações”. Para Tauran, este encontro, além de seus objetivos, é “um grande ato de valentia”.

Da abertura do encontro também participaram, entre outros, o ex-primeiro-ministro britânico e atual enviado do Quarteto para o Oriente Médio, Tony Blair: quase todos os membros do governo saudita: o juiz Baltasar Garzón; o defensor dos direitos civis dos afro-norte-americanos nos Estados Unidos, Jessé Jacson, e os ministros espanhóis Miguel Angel Moratinos, de Assuntos Exteriores e Cooperaçao, e Mariano Fernández Bermejo, da Justiça. (IPS/Envolverde)

Tito Drago

Tito Drago es corresponsal de IPS en Madrid. Periodista y consultor especializado en relaciones internacionales, nació en Argentina y vive en España desde 1977, tras su paso por varios países latinoamericanos y europeos. En 1977 abrió la primera corresponsalía de IPS en España y en 1978 se trasladó a la sede mundial de la agencia en Roma para reestructurar la jefatura de redacción. Es escritor y conferencista. Fue presidente del Club Internacional de Prensa de España, del que es presidente honorario desde 1999. También presidió la Asociación de Corresponsales de Prensa Extranjera (ACPE). Entre 1989 y 2008 fue director general de la agencia de comunicación y editora Comunica, de la revista Mercosur y de los libros y los sitios web de las Cumbres Iberoamericanas de Jefes de Estado y de Gobierno. Desde 1992 dirige el portal sobre la Actualidad del Español en el Mundo.

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