Nações Unidas, 02/07/2008 – Alguns países importadores de petróleo acusam os produtores pelo aumento de preço, mas, especialistas apontam entre outros fatores fundamentais o desequilíbrio entre oferta e procura, a fraqueza do dólar e a especulação. “A maioria dos membros da Organização de Países Exportadores de Petróleo está produzindo no máximo de sua capacidade”, disse à IPS Dariush Zahedi, pesquisador do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade de Berkeley, na Califórnia.
“A Capacidade ociosa está em níveis relativamente baixos. A Arábia Saudita, o membro da Opep que tinha maior margem para aumentar a produção, já o fez”, acrescentou Zahedi. “Outros fatores incidiram no encarecimento mais do que a Opep, com a queda do dólar, o crescimento da demanda nas economias emergentes, os distúrbios geopolíticos existentes e potenciais em países produtores de petróleo e a especulação”, assegurou. “Também creio que os preços não cairão no curto prazo porque os fatores que forçam sua alta, ao que parece, não se modificarão de modo apreciável”, acrescentou o especialista.
A Arábia Saudita concordou em produzir 200 mil barris de 159 litros a mais por dia este mês. Mas nem essa notícia impediu um aumento do preço: a cotação do barril superou na semana passada, pela primeira vez, os US$ 140, tanto em Nova York quanto em Londres. “Enfrentamos desequilíbrios em uma economia mundial em crescimento, e o fornecimento de energia não é adequado”, disse Jeffrey Sachs, assessor especial do secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon , em matéria dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio estabelecidos pela ONU.
“Por isso o preço do petróleo não baixará rapidamente. Não voltaremos à situação de três ou quatro anos atrás. Suportaremos preços mais altos no setor energético, mesmo com um grande investimento necessário para aumentar o fornecimento, mais eficiência no uso e melhorando a sustentabilidade ambiental”, afirmou Sachs na semana passada, em uma audiência nas Nações Unidas. A Opep não é diretamente culpada pelo aumento de preços, disse o professor da Universidade de Columbia respondendo uma pergunta da IPS.
“A atual é a economia mundial maior e mais faminta de petróleo que jamais vimos, e a principal causa é o fornecimento limitado”, respondeu. “Não me consta já termos atingido o preço máximo ou se o alcançaremos dentro de 10 anos. Mas, existe uma grande tensão sobre o fornecimento, pois a demanda e a economia mundiais crescem tão rapidamente que fica difícil imaginar”, acrescentou Sachs.
Os países da Opep (integrada por Angola, Arábia Saudita, Argélia, Equador, Emirados Árabes Unidos, Indonésia, Irã, Iraque, Kuwait, Líbia, Nigéria, Qatar e Venezuela) guardam em seu subsolo mais de 75% das reservas de petróleo do planeta, com produção diária de 32 milhões de barris. A Arábia Saudita, com 9,25 milhões de barris/dia, é o principal produtor. “A Opep foi importante como pano de fundo para os aumentos dos últimos meses”, disse Samuel Ciszuk, analista de assuntos energéticos da empresa Global Insight Limited, com sede em Londres.
“A grande maioria de seus membros produziram no máximo de sua capacidade e deixaram, principalmente, a Arábia Saudita reagindo às flutuações, embora com quantidades relativamente pequenas”, acrescentou Ciszuk. “A Arábia Saudita poderia ter saído do contexto da Opep e acrescentado unilateralmente meio milhão de barris diários no último mês e meio. Nesse caso, a ninguém ocorreria prever a morte do sistema de cotas da Opep, pois, de todo modo, nenhum outro membro pode produzir mais”, explicou o especialista.
Paul M. Sampson, correspondente em Dubai do Grupo de Inteligência sobre Energia para todo o golfo Pérsico ou Arábico, disse à IPS que vários fatores incidem no encarecimento da energia. “A demanda petrolífera da Índia e da China cresceu mais rapidamente do que muitos previam, e acredita-se que o consumo dos dois países continuará para alimentar sua industrialização em crescimento”, disse Sampson. “Não há muito a ser feito pela Opep para baratear o petróleo. A Arábia Saudita, único produtor da organização com capacidade ociosa importante, se comprometeu a aumentar a produção neste mês, mas, não em quantidade suficiente para esfriar os preços”, acrescentou. Segundo Sampson, a Opep é “impotente” para reduzir a cotação do petróleo.
Segundo Sachs, o principal problema é a dependência do mundo dos combustíveis fósseis, como petróleo, gás e carvão, que também contribuem para o aquecimento global. “Não temos apenas um problema energético. Temos um problema energético e um problema ambiental, e ambos devem ser atendidos”, afirmou. “Precisamos aumentar o fornecimento de energia, mas de modo ambientalmente sustentável. Isso requer enorme tecnologia, grande cooperação mundial e investimentos em grande escala. A questão é que ainda não começamos”, acrescentou.
Sachs observou que a economia mundial cresceu entre 4% e 5% ao ano, devendo duplicar em cerca de 15 anos. “É um crescimento muito acelerado e supõe uma enorme tensão para o fornecimento de energia, água e alimentos básicos”, acrescentou. O Grupo dos Oito países mais poderosos do mundo (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia) se reunirá na localidade japonesa de Toyako este mês para desenhar um plano de redução da dependência do petróleo. (IPS/Envolverde)

