Madri, 04/07/2008 – O décimo-nono Congresso Mundial do Petróleo terminou ontem (3) na capital espanhola ouvindo as propostas dos pobres de todo o mundo e com acordos, com sutis diferenças, entre os grandes do setor. A indústria mundial do petróleo e derivados é o setor que mais riqueza distribui entre os acionistas de suas empresas, mas sem que essa atividade tenha impactos positivos na vida de milhões e milhões de pessoas que, “a rigor, são os verdadeiros donos desses recursos naturais”, disse à IPS Isabel Tamarit, responsável pelo setor privado na ONG Interpón Oxfam.
Tamarit acrescentou que as soluções estão à vista, “mas é preciso ter vontade política por parte de governos e empresários para implementá-las”. A solução, concluiu, se conseguiria com políticas e contratos de exploração mais justos e “uma clara transparência na gestão dos hidrocarbonos sem suas diferentes etapas, tanto pelos governos quanto pelas empresas”. Sobre o mesmo assunto, a Oxfam apresentou um documento indicando lucro obtido em um só lote petrolífero na Bolívia, de aproximadamente US$ 65 milhões por ano, que poderia financiar os cuidados com a saúde de mais de 1,1 milhão de pessoas e a educação de mais de 860 mil.
No congresso aberto terça-feira (1), o otimismo foi transbordante, tanto sobre a manutenção dos altos preços quanto pela dependência do petróleo das economias nacionais. Linda Cook, diretora-executiva de uma das maiores empresas, Shell, e Abdullah Salatt, conselheiro do ministro de energia e Indústria do Qatar, um dos maiores produtores, afirmaram que na reunião plenária que a crescente demanda por gás natural lhe dará maior destaque no curto prazo. Isso se deve, afirmou Cook, ao aumento da população mundial e ao crescimento econômico global.
Mohammad Meziane, presidente da empresa estatal argelina Sonatrach, foi mais além ao explicar que o planejamento energético da Europa indica que 80% do mesmo serão baseados nos combustíveis fósseis e que grande parte destes serão de gás natural. Salatt foi concludente ao considerar que “todos os elementos fundamentais para que ocorra uma globalização do gás natural estão se dando a um ritmo muito rápido”. O presidente da Nacional Offshore Oil Corporation, Cheng Fu, destacou que o grande aumento da demanda no setor se deve majoritariamente ao desenvolvimento de paises do Sul, “que estão em um processo de industrialização e isso implica maior consumo de energia e recursos”.
Isso faz com que se incentive uma produção maior, o que implica o desenvolvimento de novas tecnologias “para aumentar nosso fornecimento, embora nos seja mais fácil buscar zonas onde a extração é mais acessível técnica e economicamente”, afirmou Christophe De Margeri, presidente da multinacional petrolífera Total, considerada a quarta em nível mundial. Quanto às demandas das organizações não-governamentais, vários representantes de empresas de petróleo sugeriram a necessidade e seu compromisso de aumentar ações para a proteção do meio ambiente.
“Podemos e queremos trabalhar com as ONGs”, pois graças à participação de algumas delas suas empresas identificaram e solucionaram problemas originados pela industria do petróleo, disse Brian Doll, executivo da norte-americana Global Environment & Health Advisor ExxonMobil. Um exemplo positivo, acrescentou, é um programa de cooperação realizado por sua companhia junto com grupos defensores do meio ambiente, ao desenvolver o programa Livre de Chumbo, que desde o começo deste século conseguiu que mais de 200 milhões de pessoas no mundo respirem melhor graças à implementação de leis que proíbem o uso de gasolina com chumbo.
Beatriz Espinosa, responsável pela área de Saúde, Segurança e Meio Ambiente da Petrobras, destacou que a empresa brasileira recebe prêmios dês de 1998 pelos métodos que desenvolveu para defesa da saúde, segurança e do meio ambiente, transformando esses temas em “um assunto crucial para as 68 mil pessoas que formam a companhia”. Mas, desde a fundação norueguesa DNV, sua representante, Elizabeth Harstad, destacou que continua havendo grandes acidentes na indústria do petróleo, com explosões e vazamentos maciços de óleo.
Apesar de a indústria, entre outras coisas, aplicar programas desenvolvidos pela DNV, ter feito correções, Harstad destacou que “ainda falta capacitação e liderança dos que estão à frente das grandes multinacionais do petróleo para evitar vazamentos de óleo e de gases tóxicos e explosões de tanques de armazenamento”. O presidente do Conselho Mundial do Petróleo, Randall Gossen, considera que há uma relação estreita entre as decisões das empresas, o cumprimento da lei e sua responsabilidade com o meio ambiente, com as comunidades. Para ter êxito – explicou – “a tecnologia não é o único instrumento, pois se necessita também da licença social para operar”.
As organizações não-governamentais ouvem tudo isso, mas mantêm suas críticas. Entre as da Intermon se destacam os questionamentos dos contratos muito longos, que as empresas conseguem nos países do Sul; a renúncia dos Estados à cobrança de impostos quando os lucros aumentarem com a alta do preço do petróleo; exoneração de responsabilidades sociais ou ambientais (salvo exceções) e a venda a preços internacionais dentro dos paises do Sul empobrecido. (IPS/Envolverde)

