Manaus, 18/08/2008 – O luthier cubano Raúl Lage veio por seis meses, mas já está há sete anos e meio em Manaus, a metrópole da Amazônia brasileira, e renovará novamente seu contrato em setembro.
Os violões e outros instrumentos de corda são feitos com madeiras de árvores amazônicas, com breu branco e tauari, sem valor comercial, mas muito adequadas para fins musicais. “Assim, contribuímos para valorizar espécies que o mercado não dá valor”, disse Gomes à IPS. A diversificação das fontes de madeira reduz a pressão sobre as poucas espécies muito procuradas e amplia o valor das florestas, ajudando a “consolidar o manejo florestal sustentável”, acrescenta. É um exemplo de como evitar o desmatamento amazônico, ao usar um mínimo de madeira para obter produtos de alto valor agregado. A Oela, além disso, capacita comunidades ribeirinhas no manejo florestal, através do barco-escola Educador, e na produção de objetos de madeira e marchetaria no interior amazônico.
Em sua sede de Manaus a escola oferece cursos de informática, produção gráfica, música e educação ambiental, além de apoio psicopedagógico, cine clube e um telecentro para os jovens pobres do bairro onde está localizada, Zumbi, na zona oeste da capital do Amazonas. Mais de 200 pessoas passam diariamente por esta Unidade I da Oela. Mas sua alma é o curso básico de lutheria. Seus 60 alunos adolescentes podem concluí-lo em um ou dois anos, começando a qualquer momento do ano. “Nem todos têm aptidão ou vocação para a profissão, apenas 20% a 25% se tornam luthiers de fato”, mas os demais se preparam para exercer sua plena cidadania, afirmou Gomes.
Os melhores passam para a Unidade II, o laboratório onde se complementa a formação de luthier e são fabricados vários modelos de violão espanhol ou acústico, incluindo alguns elétricos, bem como bandolim, banjo e cavaquinho. São 11 modelos de diferentes instrumentos aos quais logo se somarão mais dois, informa Lage, que coordena a unidade onde trabalham atualmente 10 jovens, aperfeiçoando-se como luthiers. Taiene Quinto de Oliveira, de 17 anos, está nesse grupo há quatro meses, após ter se destacado no curso básico, que concluiu em um ano e meio. “Meu sonho de infância é fazer faculdade de odontologia”, disse à IPS. Mas lhe agrada cada dia que passa na lutheria, e “o sonho vai se modificando”, confessa.
“O mais difícil foi identificar pelo nome todas as ferramentas usadas”, em um trabalho que exige “habilidade manual e paciência, especialmente na marchetaria, pregar pedaços de madeira em outros”, afirma a jovem cujos amigos desistiram do curso. Este ano ele concluirá o ensino secundário regular, outra exigência da Oela. “Um bom luthier precisa conhecer acústica, química da madeira, ecologia” e todos também devem estudar teoria musical, afirma Gomes, ex-professor de lutheria na Universidade Federal do Amazonas.
A Unidade II iniciou uma nova etapa de produção regular, de 30 a 40 instrumentos por mês, forçando também uma intensificação de sua atividade comercial. Os preços variam entre R$ 1 mil e R$ 2 mil e a renda obtida é dividida entre os alunos-operários e a própria instituição, que busca sustentar-se, reduzindo a necessidade de financiadores. Durante seis anos a Unidade II desenvolveu tecnologias próprias, para acelerar a produção em um processo semi-industrial, diz Gomes. São máquinas adquiridas e adaptadas, vários moldes para fabricar as partes curvas, os buracos e concavidades de um violão, e cortes inovadores que economizam madeira e aumentam a resistência em lugares onde se concentra a tensão das cordas.
É complexo fabricar um violão, que se compõe de seis partes. A madeira não pode ter mais de 50% de umidade, algo natural em zonas secas, como Brasília, mas que exige depósitos fechados para desumedificar na Amazônia. Apenas o diapasão da guitarra exige 22 operações mecânicas e uma manual em sua fabricação, diz Lage, que não abandona o cigarro apesar das freqüentes queixas de Gomes quando vai à Unidade Ii. Este, um homem forte de cabelo longo e espessa barba já grisalha, andou por diferentes Estados da Amazônia brasileira, estudou música clássica no contra-baixo e aprendeu a consertar e fabricar instrumentos porque não tinha dinheiro para comprá-los, até se converter em professor da Universidade Federal do Amazonas, que deixou para se dedicar à Oela.
Conheceu Lage em 1996, quando participou do Festival Internacional do Violão em uma de suas várias visitas à Cuba. Seduziu seu colega cubano com o projeto, porque “não tinha a menor experiência sobre como dirigir uma fábrica de violão” e queria criar a Unidade II, admite. Ambos falam com emoção de uma aluna, Antonia Souza, que se destacou a ponto de se tornar professora de lutheria na Oela, e de Francimar Meireles, outro ex-aluno que, convidado pelo governo do Acre para implantar nesse Estado uma escola semelhante.
Era um adolescente pobre cuja mãe, costureira, se opunha ao estudo de lutheria “porque não dava dinheiro”. Mas, essa formação lhe permitiu, ainda muito jovem, ter um bom salário como funcionário do governo estadual, recorda Gomes. Uma grande preocupação do fundador da Oela é consolidar e expandir toda a cadeia produtiva de lutheria, que começa nas comunidades florestais que podem fornecer a madeira já com um primeiro processamento, ampliando sua renda. Levar conhecimentos a essas comunidades beneficia a elaboração de instrumentos musicais e o manejo florestal sustentável, assegura.
Numerosas espécies madeireiras amazônicas, ainda desconhecidas, podem ter boas propriedades, possíveis de serem identificadas por pesquisas científicas. Dessa forma, a lutheria é para Gomes uma atividade que promove inclusão social e benefícios ambientais e cujo produto música, “isto é, a felicidade”. (IPS/Envolverde)


