DIALOGUES: “O Estado do Amazonas na vanguarda ambiental”

MANAUS, 19/08/2008 – (Tierramérica) Não se pode elaborar nenhuma política pública sem ouvir as populações tradicionais. São elas que preservam o meio ambiente, afirma nesta entrevista a autoridade ambiental do Estado do Amazonas, Nádia D'Ávila Ferreira.

 - Gentileza SDS

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O Estado do Amazonas é “um canteiro de idéias e criatividade” e conquistou uma posição de vanguarda por preservar 98% de suas florestas, remunerar serviços ambientais e adotar uma pioneira Lei de Mudança Climática, disse ao Terramérica sua secretária do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SDS), Nádia D'Ávila Ferreira. Esta bióloga, com mestrado em Biologia de Água Doce e Pesca Interior e pós-graduação em Gestão para Qualidade Total, assumiu o cargo em março. Nádia já havia exercido importantes funções na mesma SDS e na Secretaria de Educação do Estado do Amazonas, vasto território brasileiro e um dos nove Estados amazônicos do país. Este é um extrato da entrevista que concedeu ao Terramérica em Manaus.

TERRAMÉRICA: – A Lei de Mudança Climática foi aprovada em 2007. O que foi feito a partir dela?

NÁDIA D'ÁVILA FERREIRA: – O governo estadual criou uma fundação para desenvolver serviços ambientais nas Unidades de Conservação e o Centro Estadual de Unidades de Conservação (Ceuc) e o de Mudança Climática, ambos inaugurados em abril de 2008. O Ceuc fará a gestão das 34 áreas de conservação que somam 17 milhões de hectares, em associação com entidades não-governamentais.

– E na questão da mudança climática?

– A lei prevê seis programas que o Centro Estadual de Mudança Climática deve executar. Um é o da Bolsa Florestal, a cargo da Fundação Amazonas Sustentável. Outro é o programa de energias alternativas. A capacitação é outra atividade. Acaba de ser concluído um painel com professores da rede de ensino, sobre manejo florestal e mudança climática. Já publicamos dois livros, que em 2009 serão distribuídos a todos os professores, quase 30 mil, depois de revisados e ampliados de forma participativa. Queremos mostrar que estudantes do ensino fundamental e médio podem tratar o tema climático. Também haverá controle ambiental, agregando indicadores específicos do Estado, que reduziu em 63% o desmatamento nos últimos cinco anos.

– Mas o que se faz contra o desmatamento, que aumentou este ano?

– O Amazonas criou, em maio, o Grupo Estratégico de Combate a Crimes Ambientais, com 31 integrantes que atuarão com inteligência ambiental, em associação com a polícia e o Exército. É preciso atacar focos bem identificados, porque inspecionar a enorme extensão amazônica custa muito.

– A mudança de matriz energética somente será possível com o gasoduto que levará gás natural de Urucu, interior do Amazonas, até a capital, Manaus, ou se pensa em fontes alternativas?

– Hoje, os consumidores brasileiros pagam cerca de R$ 2 bilhões por ano para subsidiar o petróleo empregado no Amazonas. Com o gás de Urucu, disporemos de energia contínua, que estimulará as empresas a se instalarem no interior. O governo estadual busca fazer com que as empresas desenvolvam potencialidades locais, com os frutos açaí, cupuaçu e castanha. Porém, processá-los exige energia. O gasoduto vai assegurar gás em Manaus, novas centras termoelétricas e mais veículos movidos a gás natural, que hoje estão limitados a 224 táxis.

– Mas os ambientalistas criticam o gasoduto e o uso do combustível fóssil. Não se poderia incorporar o biodiesel?

– O governo federal estimula o biodiesel, mas será necessário comprovar que pode ser produzido em grande escala na Amazônia. Algumas alternativas a partir de frutos amazônicos somente poderão atender pequenas comunidades isoladas. Além disso, haverá benefícios sociais com o gasoduto, que tem em seu trajeto 135 comunidades, 75% delas ainda iluminadas com lampião ou velas. Conseguimos, em audiências públicas, mudar o projeto original, para construir saídas do gás em 125 quilômetros de ramais que abastecerão os sete municípios locais. E os cabos óticos para monitoramento do gasoduto também servirão para levar a Internet de banda larga às comunidades.

– Como a senhora vê a proposta de cientistas que defendem altos investimentos para estabelecer pesquisadores na Amazônia e salvá-la?

– São todos bem-vindos. Mas as pesquisas devem se casar com nossas metas estratégicas. Precisamos, por exemplo, fortalecer as cadeias produtivas, como as da borracha, castanha e outros produtos da biodiversidade local. Também precisamos utilizar madeiras secundárias, porque as mais conhecidas estão acabando rapidamente.

– E sobre o conhecimento tradicional, o que faz sua Secretaria?

– Não se pode elaborar nenhuma política pública sem ouvir as populações tradicionais. São elas que preservam o meio ambiente. Mantemos 98% de cobertura vegetal no Amazonas graças à concentração econômica em Manaus, que, com seu distrito industrial, responde por quase toda a arrecadação de impostos do Estado. Contudo, não houve estímulo para desenvolver o interior, cujas populações sobreviveram à custa de seu trabalho e conhecimento, conservando a natureza, sem nossa retribuição. O governo estadual deu o primeiro passo, reconhecendo essas populações como sendo “guardiãs das florestas” e remunerando seus serviços ambientais com a Bolsa Florestal. É uma iniciativa inovadora. Estamos certos de que nossos programas permanecerão, porque foram criados junto com movimentos sociais e populações tradicionais, com os quais discutimos cada política.

– O Bolsa Floresta ambiciona converter-se em programa nacional?

– A lógica é que seja ampliada. Os indígenas também reclamaram uma bolsa florestal indígena, mas suas terras são federais. No momento, implantamos a Bolsa em seis unidades estaduais de conservação, que serão 12 até o final deste não. Encaminharemos ao Ministério da Justiça o pedido indígena. Se for concedido, não há motivo para não atender os primeiros guardiões das florestas.

– Por fim, que papel tem a comunicação em seus planos?

– Estamos na vanguarda ambiental, com experiências que poderiam ser divulgadas. Entretanto, a imprensa normalmente publica apenas fatos negativos, como o desmatamento, e não, por exemplo, que o Amazonas é pentacampeão em reduzi-la. A idéia difundida é que aqui existem apenas árvores, e não uma grande diversidade cultural e étnica e o maior pólo industrial latino-americano. Temos muita água e biodiversidade, mas, o mais importante, a maior riqueza da Amazônia, são as pessoas.

* O autor é correspondente da IPS.

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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