EDUCAÇÃO-IRAQUE: Outro exame perdido

Bagdá, 14/08/2008 – De crise em crise, sem eletricidade nem liberdade de se deslocar diante das péssimas condições de segurança, a grande maioria dos estudantes iraquianos foi reprovada nos exames da escola secundaria. “Os estudantes secundários serem reprovados é o resultado natural do que acontece no Iraque com a ocupação norte-americana”, disse à IPS o professor Mahmud Jassim. “Como vão passar em provas tão difíceis sentindo-se horríveis, exaustos pelo calor, às escuras pela falta de eletricidade, tendo de trabalhar devido à morte ou detenção do pai e com todos os problemas do mundo sobre suas costas!”, acrescentou. Jassim disse que 75% de seus alunos perderam os exames.

“Me dá vergonha os resultados da minha escola este ano”, disse à IPS o diretor de um colégio em Bagdá, que pediu para não ser identificado. “Não posso dar porcentagens porque revelaria meu nome e o da escola. Não parece que vivemos em um país democrático, não é?”, perguntou. Outros dois diretores, que não quiseram se identificar devido ao clima imperante, afirmaram que os resultados dos exames mostram as divisões sectárias, e não por bons motivos. As escolas secundárias xiitas têm um mau sistema de vigilância durante as provas que permite aos alunos colar, e muitos professores acreditam que a maioria dos estudantes que aprovaram usou desse artifício.

“Os que copiaram passaram, os honestos reprovaram”, disse à IPS Ghanim Jamil, professor em Bagdá. “Se um aluno é filho de um alto funcionário do governo ou de um membro de uma organização armada, como vamos proibí-lo de colar? Nos matariam”, acrescentou. Entretanto, alguns funcionários do Ministério da Educação sugeriram que os maus resultados são um sinal animador. “A baixa porcentagem de aprovações mostra credibilidade e disciplina”, afirmou Waleed Hussein, funcionário de comunicação e relações públicas do ministério. Hussein se negou a dar números sobre estudantes que não passaram de ano.

“Desde que fomos expulsos de nossa casa, vivo em outra, velha e de dois quartos com toda minha família”, contou à IPS Manhal Ali, que perdeu cinco dos sete exames que foram dados. “Vivemos cinco irmãos e nossos país em um lugar pequeno que não tem quase nada, nem eletricidade, para não falar do ambiente de lotado. Passei em árabe e inglês porque sou muito bom nessas matérias, mas repeti nas outras que implicavam estudar muito”, explicou o jovem. Muitos dos estudantes pertencentes a famílias que abandonaram suas casas com os quais a IPS conversou repetiram este ano. “Meu pai foi detido por soldados norte-americanos em 2005”, contou Omar Khattab. “Sua loja de roupas foi saqueada pelo chamado exército iraquiano que chegou com os norte-americanos para levá-lo. Agora, tenho de trabalhar como ajudante para alimentar minha família”, acrescentou.

O Iraque foi considerado um dos melhores países do Oriente Médio pra se estudar. Depois da invasão do Kuwait entre 1979 e 2003 liderada pelo ditador Saddam Hussein, executado na forca em dezembro de 2006, em 1990 a Organização das Nações Unidas impôs sanções econômicas ao Iraque, que afetaram gravemente o sistema educacional. Desde a ocupação pelos Estados Unidos, em março de 2003, a deterioração sofreu uma aceleração. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), este país destinou 5% de seu orçamento à educação até 1989, enquanto as nações em desenvolvimento destinaram, em média, apenas 3,8%. Dezenas de milhares de escolas foram construídas entre 1960 e 1990. Mas na década de 90, mais de 83% das escolas do centro e sul do país precisavam de reformas. Esse número subiu desde a invasão de 2003. As promessas de Washington de reconstruir a infra-estrutura educacional ficaram pelo caminho.

“Decidi deixar de me enganar sonhando em ir para a universidade e ser advogado”, disse à IPS Sufian Kathum, outro estudante de Bagdá que também não passou nos exames. “É preciso enfrentar a realidade, o Iraque não existe como país”, sentenciou. “Os norte-americanos e seus colaboradores nos querem para sermos policiais corruptos e lixeiros que coloquem bombas à margem das estradas para eles. Temos que nos dar conta de que a universidade se converteu em um luxo que não podemos pagar”, lamentou Kathum. (IPS/Envolverde)

* Ali, correspondente na província de Diayala, trabalha em estreita colaboração com Dahr Jamail, nosso especialista em Iraque e radicado nos Estados Unidos.

Ali al-Fadhily

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