ALIMENTAÇÃO-ÁFRICA: Receita para a revolução verde

Oslo, 22/09/2008 – A crise alimentar da África pode ser aliviada com a modernização da agricultura e reformas na cadeia de comercialização, para que os pequenos produtores obtenham fertilizantes mais baratos e sementes de alto rendimento, segundo especialistas. Mas, estes também alertam que ate o momento não existem os fundos necessários. A questão foi analisada na terceira Conferência sobre a Revolução Verde na África, que aconteceu no mês passado em Oslo. A série de reuniões foi lançada em 2006 pela companhia norueguesa de fertilizantes Yara International.

A iniciativa foi uma resposta ao chamado feito em 2004 pelo então secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan (1997-2006), que pediu maior cooperação entre os setores público e privado para concretizar uma “revolução verde” na África. O termo “revolução verde” foi cunhado em 1968 por William Gaud, então administrador da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, em referência à crescente produção agrícola observada na América Latina e na Ásia entre os anos 40 e 60 graças a um uso maior de fertilizantes e melhores variedades de cultivos, entre outras variáveis.

Essas revoluções verdes permitiram aumentar significativamente a produção de trigo em paises como Índia e Paquistão, pelo uso de sementes de alto rendimento e técnicas modernas de cultivo. Alguns especialistas disseram que permitiram cerca de um bilhão de pessoas contassem com alimento suficiente. A principal recomendação surgida da conferência do ano passado foi a criação de um fundo para financiar investimentos no setor agrícola africano. Também se falou da necessidade de reduzir os preços que os produtores devem pagar pelos fertilizantes e pelas sementes, melhorando a infra-estrutura e os mecanismos de distribuição.

Essa idéia não se concretizou, por isso durante o encontro do mês passado foram analisadas outras opções de financiamento. Entretanto, a maioria das promessas feitas pelos doadores não foi cumprida. Alguns especialistas consideram que se houvesse fundos suficientes para projetos agrícolas seria simples duplicar e ate quintuplicar a produção de alguns cultivos, como se viu em Malawi, que em apenas dois anos passou de importador a exportador de milho, facilitando o acesso dos camponeses aos fertilizantes.

“Estamos muito preocupados pelos lentos progressos realizados na África e pela perda de interesse ao longo de vários anos por parte de diversos atores no processo de desenvolvimento, na agricultura em pequena escala e seu potencial”, disse aa IPS Lennart Bage, presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Ifad). “Tenho a esperança de que agora, à luz do tremendo impacto que a crise alimentar tem sobre os pobres na África, se tome consciência de que devemos considerar a agricultura uma prioridade política e de financiamento, com a participação de governos, doadores e do setor privado”, acrescentou Bage.

Na maioria dos casos, prosseguiu o presidente do Ifad, os pequenos agricultores africanos são mulheres “que produzem para si mesmas, suas famílias e, em alguns casos, para o mercado. Podemos incentivar essa produção para que uma quantidade maior seja destinada à comercialização”, disse Bage. Até pouco tempo atrás, “os baixos preços no mercado internacional, devido aos subsídios à agricultura nos paises ricos, determinaram que era mais fácil para as nações pobres importar alimentos artificialmente baratos do que aumentar sua produção e produtividade interna”, afirmou.

Bage recordou que o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, disse que o mundo deve produzir 50% mais alimentos ate 2030, para enfrentar as necessidades de uma população em aumento. “O crescimento da produtividade agrícola, que era de 4% a 6% no começo da década de 80, caiu para entre 1% e 2%. Atualmente, existe uma tendência declinante que não é sustentável. Podemos fazer muito com nossos conhecimentos e nossas experiências atuais, se contarmos com os fundos necessários. Não contamos com isso hoje, mas existe um compromisso maior de palavra do que no passado, por causa da crise alimentar”, disse Bage. (IPS/Envolverde)

Tarjei Kidd Olsen

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