ETIÓPIA: Escolher o Que é Nosso no Meio da Crise Alimentar

ADIS ABEBA, 02/09/2008 – Os críticos dizem que o subsídio cerealífero nos centros urbanos desvia recursos de milhões de pessoas que enfrentam a fome no campo. Crédito: Nicholas Benequista/IPS A crise alimentar mundial forçou famílias a fazerem escolhas penosas. Quando Mulu Baboche se deslocou da capital etíope para visitar a sua aldeia natal no campo, no sul do país devastado pela seca, encontrou o irmão enfraquecido, os animais escanzelados e os nove filhos a definharem com fome. Mulu pensou que podia cuidar de mais uma criança em Adis Abeba, mas qual delas devia escolher.

“Estavam todas tão magras, estavam todas na mesma situação,” disse Mulu, sentada na sua sala de estar.

Escolheu a criança mais nova, não necessariamente a mais doente, mas a sua favorita. Com a seca e a escassez de produtos alimentares devido à crise alimentar mundial que deixou milhões de pessoas indigentes e até mesmo esfomeadas, a Etiópia enfrenta um dilema semelhante.

E, tal como Mulu, o país pode estar a demonstrar a sua própria forma de favoritismo ao providenciar alimentos baratos aos residentes urbanos — possivelmente correndo o perigo de os agricultores e pastores sofrerem com a seca nas regiões interiores do país.

Este mês, os gabinetes do governo local na capital e noutras cidades começaram a vender produtos alimentares a preços quase 40 por cento abaixo de custo, uma primeira remessa de um total de 150.000 toneladas de trigo, comida suficiente para encher pelo menos cinco navios.

Incluindo o transporte, o país pagou cerca de 80 milhões de dólares pelo cereal, segundo números apresentados por Gebere Egziabher, um dos directores da Companhia Comercial de Cereais Etíope. A medida tinha sido anunciada meses antes pelo Primeiro Ministro Meles Zenawi como medida preventiva para a duplicação de preços dos produtos alimentares no último ano.

Grave escassez

Mas entretanto o país tem metade daquilo que necessita para os esforços humanitários nas regiões rurais e está a culpar os doadores por essa insuficiência. Segundo algumas estimativas, mais de 13 milhões de etíopes vão precisar de algum tipo de auxílio de emergência este ano para conseguirem lidar com a combinação da seca e do aumento dos preços de produtos alimentares. A Etiópia pediu aos doadores 300 milhões de dólares adicionais em ajuda humanitária de emergência em Junho, e provavelmente irá aumentar esse apelo esta semana.

“É obrigação da comunidade humanitária certificar-se que as necessidades a nível humanitário são satisfeitas,” afirmou Simon Mechale, que chefia a agência de ajuda humanitária do país. “A comunidade humanitária não tem conseguido apoiar integralmente o que ficou estabelecido em conjunto.”

Contudo, os governos doadores podem recusar este mais recente apelo, visto que estão cada vez mais consternados com o programa de alimentação urbana, que afirmam ter posto em perigo os esforços humanitários no campo. Nos últimos 18 meses, o Governo etíope pediu emprestadas 260.000 toneladas de cereal provenientes da reserva cerealífera, criada como banco alimentar para alturas desesperadas, a fim de apoiar a distribuição subsidiada de comida nas zonas urbanas. Uma vez que o governo não pagou uma única tonelada, a reserva cerealífera encontra-se agora praticamente vazia.

“Foi uma estratégia extremamente imprevidente porque não tinham as reservas para responder à crise,” declarou Suzanne Poland, Directora do Gabinete para Bens e Transições de Subsistência da USAID.

A Etiópia e organizações parceiras como Programa Mundial Alimentar tiveram de priorizar a utilização de fornecimentos limitados, reduzindo as rações por um terço e procedendo apenas à distribuição de produtos alimentares das zonas mais severamente afectadas. Uma vez que milhões de famílias desamparadas nas regiões rurais não recebem qualquer auxílio, os filhos estão a ficar gravemente subnutridos. Os centros de alimentação terapêutica criados para ajudar os casos mais desesperados estão, nalguns casos, sobrelotados com as mães e os seus filhos.

Por outro lado, a Etiópia também tem de responder à ameaça que a crise alimentar mundial coloca à sua própria estabilidade política. O aumento dos preços dos alimentos já levou a protestos e tumultos em países como o México e os Camarões; no Haiti, o descontentamento levou à demissão do Primeiro Ministro. Na Etiópia, não aconteceu nada dessa natureza, e as políticas existentes parecem determinadas a evitar tal situação, incluindo a utilização da reserva cerealífera estratégica.

Uma vesz que os Estados Unidos e outros doadores pagam os seus empréstimos à reserva cerealífera com ajuda alimentar directa, sacos de trigo americano — trigo rotulado “não para venda”, trigo que originalmente estava destinado a caridade “proveniente do povo americano” – estão a ser vendidos agora juntamente com o trigo que o governo etíope gastou milhões para importar.

Numa conferência de imprensa no início de Agosto em Adis Abeba, o Ministro de Estado para a Agricultura, Abera Deresa, reiterou a posição governamental que os pobres urbanos estão entre os mais vulneráveis. Mas a defesa do programa alimentar urbano com base nestas razões tornou-se mais suspeita depois de o governo ter subido o preço do cereal subsidiado e permitido que qualquer pessoa o comprasse.

Antigamente, apenas as famílias certificadas como pobres podiam comprar o cereal subsidiado a 90 birr ($9.47) por 50 quilos. Agora, 50 quilos custam 125 birr, o que exclui pessoas como Mulu que outrora dele dependiam. Em vez disso, comerciantes, padeiros e mães da classe média fazem agora fila para comprar o trigo.

Mulu diz que poderá enviar a sobrinha de volta ao campo já na próxima semana devido à subida do preço do trigo subsidiado.

“A vida é terrível ali, mas não tenho escolha,” afirmou.

Regressando de uma cerimónia na igreja que assinalou o fim de 15 dias de jejum, Mulu e a família ainda não tinham comido nada. Estava a guardar o último pedaço de pão para a noite, não sabendo bem como é que iria alimentar a família no dia seguinte.

“Os próximos dias serão muito negros,” acrescentou.

Nicholas Benequista

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