AMÉRICA LATINA-DIREITOS HUMANOS: Em defesa dos defensores

Cartagena de Índias, Colômbia, 10/09/2008 – Enquanto o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, inaugurava nesta cidade caribenha o fórum regional “Mídia, Cultura e Educação de Direitos Humanos”, patrocinado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, ativistas em Bogotá expressavam seu apoio à cooperação internacional com denunciantes e vítimas de crimes no conflito armado. A Unesco a avalia este ano em todo o mundo, com encontros regionais como o de Cartagena de Índias, os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Para a área da América Latina e do Caribe o faz nesta cidade do norte colombiano, onde “foram forjados os direitos humanos e o direito internacional humanitário” no continente, recordou na conferência o ex-chanceler da Colômbia Augusto Ramírez Ocampo. Neste lugar, no século XVII, o sacerdote jesuíta catalão Pedro Claver se rebelou contra os maus-tratos aplicados aos escravos africanos. Claver morreu em 9 de setembro de 1654 nesta cidade, na época um grande porto de tráfico de escravos. Em sua memória, a Colômbia comemora nesta data o dia nacional dos direitos humanos. Foi em Bogotá que nasceu, em abril de 1948, a Carta Interamericana de Direitos Humanos, meses antes da Declaração Universal.

Participam da conferência representantes de órgãos internacionais, do governo colombiano, do corpo diplomático, estudantes de colégios e universidades locais e uma magra representação da sociedade civil organizada. Entre os conferencistas convidados estão o subdiretor-geral para as ciências sociais e humanas da Unesco, Pierre Sane; o secretário-geral-adjunto das Nações Unidas para a comunicação e informação pública, Kiyotaka Akasaka, e o relator especial da ONU para a liberdade de expressão, Frank La rue Lewy. No continente, “todos os países têm problemas em relação a violações de diversos tipos”, disse à IPS o argentino Santiago Cantón, secretário-geral da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, um dos palestrantes.

“É pertinente que a Unesco comemore o 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos na Colômbia. Também em 2008 é celebrado o 10º aniversario da declaração da ONU sobre os defensores dos direitos humanos”, disse Andrew Hudson, do programa latino-americano da organização não-governamental norte-americana Human Rights First. “A comemoração destas datas é importante”, disse à IPS desde Nova York, e uma oportunidade para refletir “o fracasso de implementar na região estas proteções dos direitos humanos”. Os governos presentes ao encontro “deveriam melhorar a grave situação dos defensores dos direitos humanos, que permanece distante das normas estabelecidas nestas declarações”, ressaltou Hudson.

A conferência da Unesco acontece em meio a paradoxos. A confrontação armada interna da Colômbia, enraizada nos anos 40, faz com que este país registre a crise humanitária mais grave do continente, segundo a ONU. O governo de Uribe anota a redução de seqüestros e homicídios, mas aumenta o número de deslocamentos forçados, o desaparecimento forçado, as torturas e as detenções arbitrárias. A Colômbia se mantém como o país mais perigoso do mundo para exercer o sindicalismo. Enquanto o principal programa governamental é a segurança, o aumento das hostilidades apresenta novas violações do direito internacional humanitário.

O refinado emaranhado legal não é cumprido. “O discurso político e a negação da crise humanitária”, segundo o diretor do Conselho para os Direitos Humanos e o Deslocamento, Jorge Rojas, servem para “desconhecer a gravidade” dos fatos. O mais paradoxal é que os defensores colombianos dos direitos humanos, eles próprios atacados ou sob ameaça, consideraram necessário defender a comunidade internacional que coopera nessa áreas na Colômbia. O ataque maior partiu dos serviços de inteligência e ficou conhecido através da imprensa.

Segundo esses informes, a organização humanitária Minga ajudou guerrilheiros das camponesas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e do pró-cubano Exército de Libertação Nacional (ELN) a saírem da qualidade de refugiados do país e especificamente buscar asilo no Canadá. Minga rechaçou as críticas. “O que fazemos é proteger pessoas ameaçadas”, disse em Bogotá Gloria Flórez, diretora da ONG, em entrevista simultânea à abertura da conferência regional da Unesco. “Estas pessoas, homens e mulheres deste país, vítimas e testemunhas de violações de direitos humanos, merecem todo o apoio e reconhecimento, não apenas da sociedade de nosso país, mas da comunidade internacional”, acrescentou.

Para Flórez, a versão dos serviços de inteligência “não são exclusivamente contra os defensores dos direitos humanos, mas também contra os governos e um direito importantíssimo no mundo, que é o que tem qualquer ser humano no planeta de ser protegido pelos Estados quando sua vida corre perigo”. Especificamente no Canadá encontrou asilo Jairo Castillo, ou “Pitirri”, ex-paramilitar de ultra-direita que agora é testemunha nos processos judiciais contra os políticos ligados com essas forças parcialmente desmobilizadas. Pitirri também testemunhou no controvertido julgamento do ex-senador Mario Uribe, primo do presidente colombiano e seu principal aliado político.

A diretora da Minga expressou “toda nossa solidariedade aos governos europeus, do Canadá, dos Estados Unidos e da América Latina que ajudaram a proteger muitas vidas, a salvar colombianos e colombianas que estavam em grave risco”. Graças a eles, “se conseguiu que pessoas muito valiosas não fossem assassinadas por se atreverem a denunciar”, ressaltou. Flórez se solidarizou também com as ONGs britânicas Anistia Internacional e Brigadas de Paz Internacionais, entre outras organizações humanitárias que acompanham a tragédia colombiana “com um esforço de observação e denúncia, de acompanhamento e proteção de vítimas e de pessoas ameaçadas por fazerem um trabalho de denúncia”.

Entre as recomendações à Colômbia feitas pelo Escritório da Alta Comissária para os Direitos Humanos das Nações Unidas está depurar os arquivos de inteligência sobre defensores dos direitos humanos. Flórez considera que a maioria dos assassinatos e desaparecimentos forçados de defensores dos direitos humanos “ocorrem por informação que parte dos órgãos de inteligência”. O trabalho dos defensores é “legitimo, legal e necessário para o estado de direito e para a democracia colombiana”, destacou, pedindo à Procuradoria Geral da Nação, que vigia o comportamento de todos os funcionários, que investigue essas tentativas de “desprestigiar nosso trabalho”.

Os órgãos de segurança do Estado não devem se por “contra a ação legal que desenvolvem os defensores dos direitos humanos no país, mas contra os que cometem os crimes”. Em suas declarações públicas o governo rechaça a existência de movimentos de vítimas que apontam os órgãos do Estado como responsáveis pelas violações dos direitos humanos. (IPS/Envolverde)

Constanza Vieira

Constanza Vieira, la corresponsal de IPS en Colombia, ejerce el periodismo desde hace casi cuatro décadas. Desarrolló su carrera en medios internacionales, entre ellos Deutschlandfunk, Deutsche Welle, Water Report del Financial Times y National Public Radio. Si le preguntan por lo que más le gusta cubrir, contesta: "La pasarela de la moda de Milán", una forma de indicar que no es corresponsal de guerra y que, si se adentra en temas militares, es únicamente por la necesidad de describir los rostros poco contados del conflicto armado de decenios que afecta a su país. Por una búsqueda, parte de esa cobertura, entró a Twitter, donde hoy tiene dos cuentas: @ConstanzaVieira y @HeavyMetalColom, esta última asociada a su blog en IPS, Heavy Metal Colombia, titulado así "porque el plomo es un metal pesado, y en este país cada cual tiene asignada su dosis personal". ¿Su cuenta en Facebook? "Cuando tenga tiempo la cierro". Constanza trabaja para IPS desde agosto de 2003. En 2005 obtuvo el Premio "Richard de Zoysa" a la Excelencia en Periodismo Independiente, en la categoría Coberturas Peligrosas.

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