Buenos Aires, 23/09/2008 – (Tierramérica).- Se pudessem, nossos políticos e empresários tentariam extrair a última gota de fertilidade de nossos solos para ganhar o último dólar, afirma sem papas na língua o conservacionista e investidor Douglas Tompkins.
Agora, Tompkins vive em uma fazenda na Reserva Esteros del Iberá, na província de Corrientes. Essa propriedade, de 200 mil hectares, também será cedida ao Estado para conservação, mas antes Tompkins quer assegurar-se de que as instituições encarregadas resistirão ao apetite de empresas florestais e arrozeiras que estão ocupando sem permissão espaços nesse ecossistema de mangues, com diques e terraplanagens para conter as águas.
Em entrevista ao Terramérica via correio eletrônico, Tompkins defendeu seus ideais conservacionistas e questionou duramente as grandes obras de infra-estrutura em áreas virgens. “Se continuarmos nesse caminho, o próximo é o colapso ambiental”, alertou. A seguir um extrato da entrevista.
TERRAMÉRICA: – Como foi o manejo do Parque Nacional Monte Leon, na costa atlântica argentina? Foi positiva a doação ou se arrepende?
DOUGLAS TOMPKINS: – Não pude voltar a Monte Leon nos últimos anos, mas confiamos em Juan Kuriger, que vive ali com sua mulher Silvia Bruan. Ambos manejam a hospedaria e têm contato diário com o Parque. Juan está bem impressionado e nos sentimos felizes, porque é um juiz rígido e no começo desconfiava do que aconteceria após a Administração de Parques Nacionais assumir o controle. Acreditamos no sistema de parques nacionais e que os países devem levá-los a sério e financiá-los como se deve. Em muitos aspectos, podem ser exemplo de como um país administra a si mesmo. E digo isso por experiência, pois no Chile administramos o equivalente a um parque nacional em Pumalín, o fizemos durante 13 anos com o agora Parque Nacional Corvocado, e o fazemos aqui em Iberá.
– Sua organização mantém controle sobre Pumalín para garantir sua preservação?
– Doamos a maior parte de Pumalín por meio de uma fundação da Califórnia a outra chilena, que ainda está sob nosso controle, assim houve poucas mudanças. Quando estivermos prontos, acabaremos doando ao sistema de parques nacionais do Chile, nos próximos dez a 15 anos. No momento, é um bom modelo do que podem fazer em matéria de conservação as entidades privadas sem fins lucrativos. Vem gente de todo o mundo para vê-lo, inclusive administradores de parques nacionais. Recebemos dez mil turistas por ano. Infelizmente, o vulcão Chaitén, que está dentro do Parque, entrou em erupção este ano, causando graves danos à cidade de mesmo nome, e tivemos de fechar Pumalín para os devidos reparos.
– O senhor está contra a construção de uma estrada que cruzaria Pumalín. Não teme que essa postura possa ser considerada ingerência de uma entidade privada liderada por um estrangeiro na decisão de um Estado soberano?
– Sua pergunta está mal formulada. As leis do Chile, como as da Argentina, concedem ao governo todas as facilidades para expropriar, se considerar necessário, para construir estradas, portos, aeroportos, e isso nada tem a ver com a soberania. Essas são sandices de políticos ultranacionalistas e antiecologistas. Não estamos contra a ligação, a pedimos por muitos anos. Mas a estrada deveria ser construída junto à costa, mesmo atravessando uma parte de Pumalín, pois seria mais veloz, mais barata e curta, mais segura e eficiente, além de não causar impacto ambiental. Se for considerado necessário estender a estrada para o interior, será cem quilômetros mais longa, terá muitas ladeiras, custará 50 vezes mais e causará tremendos impactos ambientais, consumindo milhares de milhões mais em energia e combustível. Além disso, levará 15 anos para ser construída, enquanto pela costa serão apenas dois anos e sem necessidade de dinamitar nenhuma área. São três mil pessoas vivendo na costa sem estrada, e apenas 75 pumalinos no interior, que não pedem uma estrada ali. Socialmente, não há dúvida sobre qual deveria ser a prioridade, mas os políticos com noções geopolíticas obsoletas estão lutando pelo trajeto interno.
– O senhor se opõe à construção do complexo hidrelétrico de Ausén, no sul do Chile. Como acha que esse país deveria enfrentar a falta de energia?
– Quem provou que falta energia ao Chile? Toma-se isso como um fato inquestionável, mas, talvez, o que exista seja excesso de demanda. O mesmo ocorreu na Califórnia, na década de 70, até que se descobriu que é possível desvincular o crescimento econômico do aumento do consumo energético. O Chile deveria trabalhar na conservação e eficiência e em seguida em fontes alternativas, e não nessas gigantescas centrais obsoletas. Grande parte da energia do Chile é literalmente jogada pela janela. Provavelmente, 75% da energia para calefação é perdida por vazamentos por tetos, paredes, janelas e portas. A Argentina não está melhor. O Chile precisa de um cuidadoso plano de desenvolvimento que mantenha valores paisagísticos e dê garantia de um futuro grande negocio turístico e qualidade de vida para seus habitantes.
– Não teme que suas posições conservacionistas em países como Argentina e Chile possam ir contra as necessidades de desenvolvimento destes países?
– Sua pergunta está cheia de pré-julgamentos e dá a entender que a conservação deve ser deixada em segundo plano. Mas a natureza funciona em seus próprios termos, e não como os humanos gostariam. O ponto de vista dominante, seguido por quase todos os governos do mundo, nos trouxe pobreza, catástrofes ambientais, mudança climática e extinções em massa. Se continuarmos pelo mesmo caminho, o próximo será o colapso ambiental.
– Como vê as empresas que erguem barreiras em Esteros del Iberá?
– O caso mais interessante é o da Florestal Andina, que há três anos desafia as leis para erguer barreiras destrutivas no Iberá. O mau manejo e a estupidez desta empresa são impressionantes. Ignorou ordens judiciais e provocou um caos ambiental em suas terras. Porém, pela primeira vez na história, os cidadãos se levantaram, levando aos tribunais Eduardo Maquiavelo, dono da Florestal Andina, e ganhando em cada uma das instâncias. O juiz deu a Maquiavelo 72 horas para começar a desmanchar a barreira e restaurar o prejuízo ou irá para a prisão. É um sinal de que o sistema judicial pode funcionar na Argentina, apesar das milhões de queixas que ouvimos dos cidadãos.
– O que diria a quem acredita ser necessário ocupar terras, mesmo dentro de uma reserva, para produzir mais alimentos?
– O que está implícito em sua pergunta é que todo território mundial deve estar sujeito à produção. Se seguirmos essa lógica, não alimentaremos o mundo, mas o mataremos de fome. Deve haver um desenvolvimento cuidadoso de atividades compatíveis com a maneira como os ecossistemas funcionam e são capazes de manter uma biodiversidade sã e vigorosa. Isto está muito claro para a ciência, mas não para nossos políticos e empresários, que, se tivessem o caminho livre, tentariam extrair a última gota de fertilidade de nossos solos para ganhar o último dólar ou peso com a superexploração da natureza.
* A autora é correspondente da IPS.


