ECONOMÍA-AMÉRICA LATINA: Prioridade aos investimentos estrangeiros

Santiago, 26/09/2008 – Considerando a crise financeira, os países da América Latina e do Caribe que desejam atrair investimento estrangeiro direto (IED) deverão aplicar políticas focadas de promoção de acordo com os interesses locais, afirmou o especialista Michael Mortimore ao apresentar na capital chilena o informe anual da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. A quantia do IED cresceu 36% em 2007 na região, em relação ao ano anterior, atingindo o recorde de US$ 126 bilhões, segundo o Informe sobre os Investimentos no Mundo 2008, preparado pela Unctad. O maior aumento foi registrado na América do Sul, que atraiu 66% do IED regional, como conseqüência da alta dos preços dos produtos básicos e do petróleo.

A divulgação do documento da Unctad acontece em um momento de incerteza na economia mundial. A crise do setor hipotecário dos Estados Unidos que começou em 2007 afetou fortemente os mercados financeiros, provocando problemas de liquidez em muitos países e encarecendo os créditos. Esta semana caíram os últimos bancos de investimento privados norte-americanos, o que forçou o governo de George W. Bush a lançar um plano de resgate de US$ 700 bilhões para evitar que a crise continue se expandindo. Mas, este deve ser aprovado pelo Congresso, em um resultado ainda muito incerto.

As fontes de investimento normalmente diminuem em épocas de crise, portanto os países que buscarem IED deverão “redobrar seus esforços” para consegui-la, disse à IPS Mortimore, chefe da unidade de investimentos e estratégias empresariais da divisão de desenvolvimento produtivo e empresarial da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe. Mortimore foi o encarregado de apresentar ontem o informe da Unctad na sede da Cepal em Santiago. No passado, muitas nações latino-americanas aproveitaram as conjunturas econômicas negativas para “abrir (seus mercados), desregular e privatizar, com resultados mistos”, afirmou o especialista.

“Em lugar de entrar em uma competição aberta, de todos contra todos, é preciso procurar definir quais são as fontes mais importantes para nós e como podemos conseguir êxito em termos de atrair estes investimentos para que seu impacto seja maior para o desenvolvimento nacional”, acrescentou o economista. Na região, o Brasil conseguiu atrair a maior quantidade de investimentos estrangeiros diretos em 2007, ao totalizar US$ 35 bilhões, seguido do México com US$ 25 bilhões e do Chile com US$ 14 bilhões. Em ordem de importância vêm a seguir Ilhas Caimãs, Colômbia, Argentina, Peru, Ilhas Virgens, Costa Rica e Panamá.

A América Central e o Caribe resistiram à desaceleração da economia dos Estados Unidos graças ao interesse demonstrado pelos investidores estrangeiros nas atividades baseadas em recursos naturais e na indústria de serviços financeiros, diz o informe da Unctad. A mineração metálica, as indústrias extrativas e a manufatura baseada nos recursos naturais foram os setores que mais atraíram IED em 2007. Do documento também constam as diversas políticas adotadas pelos países em relação à IED, facilitando-a criando obstáculos.

Em alguns países, como Bolívia, Equador e Venezuela, diminuíram os incentivos, aumentaram os impostos ou diretamente foram nacionalizadas empresas e indústrias, não apenas extrativas, mas também de infra-estrutura e alimentar. Outros países, entretanto, como Colômbia, El Salvador e Jamaica, aplicaram medidas para melhorar o clima comercial e atrair mais IED. Por outro lado, o investimento estrangeiro feito pelos países da América Latina diminuíram 17%, ficando em US$ 52 bilhões, principalmente devido à forte redução dos fluxos de saída do Brasil. Nesta oportunidade o informe esteve dedicado a “empresas transnacionais e o desafio das infra-estruturas

Em termos gerais, o documento diz que o investimento estrangeiro pode contribuir para a ampliação da infra-estrutura nos países em desenvolvimento se o planejamento for adequado. Segundo a Unctad, os países em desenvolvimento não podem vincular-se à economia mundial nem exportar seus produtos a preços competitivos se não contarem com boas redes e fornecimento de eletricidade, telecomunicações e transporte, bem como de serviços básicos, com água potável.

Nos anos 90, o maior aumento o IED em infra-estrutura nos países em desenvolvimento foi registrado na América Latina e no Caribe, devido à privatização dos serviços públicos. Por outro lado, agora aumentou a um ritmo maior na África e Ásia. A Unctad também afirma que as multinacionais deveriam ser um “complemento” e não um “substituto” de investimentos públicos e privados locais em matéria de infra-estrutura, já que é pouco provável que estas assumam os custos e riscos de projetos voltados à população mais pobre.

É preciso que os organismos públicos tenham a capacidade técnica e administrativa para guiar, negociar, regulamentar e fiscalizar os investimentos das empresas multinacionais, diz o informe. Em alguns projetos, sobretudo de fornecimento de água potável e energia elétrica, pode ser necessário que o setor estatal continue sendo responsável pela gestão, acrescenta. Por fim, a Unctad projeta que no restante deste ano continuarão aumentando os fluxos de IED na região, mas, seguramente, a um ritmo menor do que em 2007, devido às atuais turbulências financeiras. (IPS/Envolverde)

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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