REPORTAGEM: Mulheres criam alimentos e emprego no mangue

SANTA FÉ, Argentina, 30/09/2008 – (Tierramérica).- O Terramérica pesquisou a tarefa de elaborar alimentos artesanais com uma minguada pesca, empreendida por mulheres de comunidades ribeirinhas do nordeste argentino

Trabalhadoras elaboram alimentos artesanais de pescado. - Gentileza da Fundação Proteger

Trabalhadoras elaboram alimentos artesanais de pescado. - Gentileza da Fundação Proteger

Com gorro e avental brancos, Melina Lucero corta cabeças e caudas dos pescados capturados no Rio Paraná. Em seguida corta a carne habilmente em filé. Suas companheiras de trabalho a processarão e envasarão para vender como conserva artesanal em feiras do litoral fluvial da Argentina. Lucero trabalha em uma iniciativa para agregar valor à pesca artesanal em mangues do Paraná, um rio que se abre em muitos braços no extremo nordeste argentino, formando uma delicada região, rica em biodiversidade. O programa, implementado pela Fundação Proteger, com sede na província de Santa Fé, capacita mulheres de várias comunidades pesqueiras da região.

“O plano consiste em cursos em diferentes comunidades de pescadores e, depois, nos lugares de maior interesse e possibilidades de desenvolvimento, dando-lhes a chance de trabalhar nesta atividade”, explica ao Terramérica Julieta Peteán, coordenadora do programa Água, Mangues e Pesca da Proteger. Por seguir os cursos e elaborar conservas de pescado duas vezes por semana, as mulheres recebem 250 pesos mensais (US$ 85) de um fundo administrado pela Proteger com apoio da Fundação Interamericana, que faz doações para programas participativos e sustentáveis na América Latina.

Esse apoio econômico continuará até dezembro. Nessa ocasião, a Proteger espera ter pronto um plano de negócios que permita colocar os produtos em diferentes mercados. “Os envolvidos receberão uma porcentagem pela venda, com o objetivo de ser um empreendimento auto-sustentável”, acrescenta Peteán. Algumas mulheres trabalham apenas em suas casas e cuidam dos filhos, enquanto os homens vão à “ranchada”, o acampamento que os pescadores instalam em uma das ilhas do Paraná, onde permanecem duas ou três semanas buscando captura.

Lucero, filha de um pescador, trabalha fora de casa, e muito. “Era 'abastecedora'. Eles (os pescadores) iam para a ilha – a cerca de 45 minutos de navegação de Alto Verde, em um dos braços do Paraná – e eu ia com a lancha, e levando ‘provista’ (comida), ferramentas e combustível, e voltava com o pescado para vender”, conta ao Terramérica. Mas, há quatro anos, minha atividade começou a ter uma redução. “Antes, conseguia entre um mil e dois mil quilos, mas ultimamente havia ocasiões em que voltava com 50 quilos e o pescoço encurvado. Além disso, minha mãe dizia que não era trabalho de mulher”, diz Lucero. Muitos pescadores se empregaram como pedreiros ou peões de gado.

A pesca está ameaçada pelas grandes represas no curso norte do Alto Paraná, que retêm água e afetam zonas de reprodução e criação de peixes. E também pela exploração intensiva iniciada uma década atrás por grandes companhias voltadas ao mercado externo, e que teve um forte aumento nos últimos cinco anos. O peixe mais capturado é o sável (Alosa alosa), espécie fundamental na cadeia trófica porque de suas larvas se alimenta a boga, o dourado, o surubi, o pati e muitas outras apreciadas pela pesca comercial. Segundo dados da Proteger, a exportação de pescado do Paraná aumentou de pouco mais de três mil toneladas em 1993 para quase 40 mil em 2004.

Diante disto, a Fundação cedeu parte de sua sede para implementar um programa-piloto de capacitação de mulheres de comunidades ribeirinhas. Em Santa Fé, capital da província de mesmo nome, a experiência avançou mais e já são elaborados diferentes alimentos, como peixe defumado, escabeche e em pasta. “Preparamos escabeche e conservas defumadas de amarelo, pati, bagre branco, mandubé, boga, armado e sável”, conta ao Terramérica Nelson Peteán, engenheiro de Alimentos, encarregado da capacitação e supervisão do processamento em Santa Fé. “Aproveitamos toda a carne e se incorpora até 300% de valor agregado”, assegura.

A comunidade de pescadores de Puerto Reconquista, junto a outro braço do Paraná, no norte de Santa Fé, tenta aplicar a idéia. As mulheres tramitam a autorização de venda no escritório de bromatologia, enquanto a elaboração de conserva acontece na casa de uma delas, Mônica Farias. Casada com um pescador, Mônica trabalha de como voluntária, há 12 anos, no restaurante comunitário infantil do porto local. Agora, também terá um trabalho pago, do qual participam sua mãe, uma tia e outras mulheres da comunidade. O município ofereceu um espaço no porto, onde se levanta um modesto local para processar a carne e curtir a pele, que será usada em artesanato. Será o primeiro local com certificação para funcionar como unidade de elaboração.

Puerto Reconquista fica em uma região de 492 mil hectares de rios, lagoas, leitos secos de rios e pastagens, declarada em 2001 sítio Ramsar Jaaukanigás (em língua indígena “gente de água”). A decisão foi da Convenção Ramsar sobre os Mangues, adotada na cidade iraniana homônima em 1971 para conservar a biodiversidade e promover o uso racional destes ecossistemas. Nas ilhas há variedades de macacos, jacarés e aves e estima-se que a água doce abriga cerca de 300 espécies de peixes.

A capacitação proporcionada pela Proteger também chegou a Puerto Antequera, na província Del Chaco (norte), onde as mulheres elaboram suas conservas. Estamos no coração de outro sítio Ramsar, Mangues Chaco, declarado em 2004, e com 508 mil hectares. A iniciativa de valorizar a pesca artesanal de mangues do Parfaná foi uma das três escolhidas pela Ramsar para dar apoio, junto com projetos similares no Nepal e na Tailândia, explica ao Terramérica a suíça Natalie Rizzotti, oficial da Convenção.

“A idéia é que as próprias comunidades se ocupem dos recursos, por isso é importante que o projeto tenha participação comunitária, propicie educação e valor agregado”, afirma Rizzotti, após percorrer as comunidades que fazem parte do programa há dois anos. A iniciativa também conta com apoio do comitê holandês da União Mundial para a Natureza (UICN), órgão internacional de conservação, integrado por Estados, associações não-governamentais e especialistas, que a apresentará em seu próximo congresso mundial, na cidade de Barcelona, em outubro.

* A autora é correspondente da IPS.

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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