ALIMENTAÇÃO: Agência da ONU vai aos campos dos países do Sul

Nações Unidas, 26/09/2008 – No que constitui uma enorme giro para sua política tradicional, o Programa Mundial de Alimentos (PMA), da Organização das Nações Unidas, anunciou que começará a comprar comida diretamente de associações locais de agricultores do mundo em desenvolvimento. Através de uma iniciativa denominada Purchase for Progress (P4P, ou “compra para o progresso”), o PMA procurará estabelecer uma alternativa ao sistema habitual de compras, através do qual fornecedores pré-qualificados podem obter os contratos. “Esta é uma revolução na ajuda alimentar”, disse a diretora-executiva do PMA, Josette Sheeran.

Josette afirmou que a iniciativa criará mercados estáveis para os agricultores de baixa renda. Os contratos adiantados e as vendas garantidas têm o objetivo de incentivar a produção e a produtividade, explicou. “Mais da metade dos 90 milhões de pessoas às quais entregamos alimentos este ano são agricultores pobres”, acrescentou. “Freqüentemente ficam sem mercados, estradas, transporte e armazenamento”, por isso o P4P lhe permitirá “romper o círculo da fome”, ressaltou Josette. Nos próximos cinco nos o PMA se estabelecerá em 21 países (15 da África, quatro da América Latina e dois da Ásia) com a intenção de elevar a renda de pelo menos 350 mil pequenos agricultores.

Mas o especialista em políticas alimentares Per Pinstrup-Andersen, da universidade de Cornell (EUA), considerou que o P4P não melhorará automaticamente a situação dos pobres no mundo em desenvolvimento. “É verdade que em alguns países africanos o principal gargalo para os produtores pobres é a falta de mercados”, disse Pinstrup-Andersen à IPS. “Para eles, o P4P seria um bom programa”, pois lhes permitiria produzir mais, vender mais e ganhar mais dinheiro, explicou. “Mas, muitos outros não poderão produzir mais”, ressaltou. E o aumento de uma demanda já alta, unido ao encarecimento dos alimentos, deixará tenso o panorama, previu o especialista, acrescentando que “o P4P será um bom programa se conseguir fortalecer a infra-estrutura rural”.

Consultada sobre essas preocupações, Josette disse à IPS que o PMA será ”muito cuidadoso para não competir com os mercados locais”, para evitar que os preços disparem. Os esforços do PMA se unirão aos de outras agências da ONU, do Banco Mundial, da Aliança para uma Revolução Verde (agra) e organizações não-governamentais com projetos para melhorar a produtividade e a infra-estrutura rural.

O apoio financeiro para o P4P procede da Fundação Bill e Melinda Gates, que forneceu US$ 66 milhões, e da Fundação Howard G. Buffet, com US$ 9,1 milhões. O governo da Bélgica destinou US$ 750 mil ao projeto que se desenvolverá na República Democrática do Congo. “Em última instancia, a meta é conseguir que estes mercados se abasteçam sozinhos”, disse na terça-feira o co-presidente da Fundação Gates, Bill Gates, na apresentação da iniciativa. Ainda hoje, a maioria das compras do PMA é destinada a operações humanitárias no mundo em desenvolvimento: 1,6 milhão de toneladas ao custo de US$ 600 milhões em 2007. o principal fornecedor foi Uganda, com 210.223 toneladas.

Presidente ugandense, Yoweri Museveni, aplaudiu a iniciativa do P4P, bem como seus colegas de Ruanda, Paul Kaganme; Tanzânia, Jakaya Kikwete, e a mulher do presidente da Guatemala, Sandra Torres de Colom, todos eles presentes na apresentação. Musevini explicou que a agricultura de subsistência é o fator principal por trás da pobreza em seu país, e perguntou: “Se temos alimentos, mas não temos dinheiro, como sairemos da pobreza?”. Com o P4P, a agricultura de subsistência se tornaria comercial, permitindo alcançar a segurança alimentar e também a segurança de uma renda.

O projeto é conhecido em um momento em que os alimentos, o combustível e os fertilizantes são um obstáculo na luta contra a fome e a desnutrição. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) informou na semana passada que a quantidade de desnutridos no mundo aumentou 75 milhões no ano passado, chegando a um total de 923 milhões de pessoas. (IPS/Envolverde)

Wolfgang Kerler

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *