Washington, 30/09/2008 – A atual crise financeira pode acelerar a perda de poder e influência dos Estados Unidos no exterior, alertam especialistas em política externa. A certeza deste prognóstico depende de o resgate de instituições financeiras em risco de quebra, proposto pelo governo ao custo de US$ 700 bilhões, seja, caso aprovado, suficiente para restabelecer a confiança internacional na economia norte-americana. E particularmente a confiança no dólar, cujo status como divisa de reserva preferida no mundo durante muito tempo animou os estrangeiros a comprarem bônus do Tesouro dos Estados Unidos, sustentando dessa forma uma economia que consome muito mais do que produz.
Mas acima do déficit sem precedentes acumulado pelo governo de George W. Bush, em especial por suas guerras de US$ 15 bilhões no Iraque e no Afeganistão, a crise atual – e a nova carga sobre os ombros dos contribuintes norte-americanos para salvar os bancos – quase seguramente vai prejudicar a capacidade de Washington abrir caminho no exterior, segundo muitos especialistas. “Não é que o resto do mundo esteja olhando a crise financeira norte-americana e concluindo que agora pode por à prova o poder dos EUA”, disse Charles Kupchan, analista do Conselho sobre Relações Exteriores e professor na Universidade de Georgetown. “Mas, creio que, de um ponto de vista psicológico, esta crise financeira, juntamente com os problemas dos Estados Unidos no Iraque e Afeganistão, serão sentidos em matéria de respeito e deferência em relação à fortaleza norte-americana”, acrescentou.
Há apenas duas semanas Thomas Fingar, considerado por muitos o principal analista de inteligência dos Estados Unidos, alertou que apesar de este país “continuar sendo a potência mundial preeminente em 2025, seu domínio estará muito reduzido”. Além disso, disse a outros profissionais de inteligência que a liderança norte-americana “será afetada a um ritmo acelerado nos campos político, econômico e, possivelmente, cultural”. A previsão parece ter se confirmado com muita rapidez, com o colapso, ou a nacionalização, de várias das principais instituições financeiras do país.
Foi destacável a escassa empatia demonstrada pelos chefes de Estado e de governo reunidos na semana passada em Nova York para a abertura da atual sessão anual da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas. Em seus discursos e entrevistas coletivas estes líderes mundiais pareceram coincidir, no gera, em que as drásticas medidas adotadas pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos marcaram o fim efetivo do modelo “anglo-saxão” de livres mercados e capitalismo sem limites.
Washington exporta avidamente este modelo há várias décadas, frequentemente através do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI). “Na história, os modelos são muito importantes, e penso que isto prejudica claramente o prestígio do modelo anglo-norte-americano que vimos impulsionando”, disse Michael Lind, do centro de estudos New America Foundation, com sede em Washington. Agora é possível que a China contribua com o modelo do futuro, acrescentou.
“Na América Latina, no Oriente Médio e em outros lugares provavelmente estejam dizendo: “Os norte-americanos pregaram esta ideologia de livre comércio, e vejam o que fez a eles. Talvez devêssemos testar um modelo diferente”, disse Lind. “Quanto à competição em termos de poder brando, reputação e prestígio, penso que já temos resultados severamente prejudicados”, afirmou. De fato, nos últimos anos a China já tem um protagonismo muito maior do que os eu em termos de assistência e investimentos na África e na América Latina.
Com o “setor bancário dos Estados Unidos no caos, diminuem as chances de os países irem à Nova York em busca de financiamento e negócios”, segundo Dean Baker, co-diretor do Centro para as Pesquisas Econômicas e Políticas, de Washington. Além disso, é provável que esta crise contribua com uma crescente insatisfação do público nacional, tanto com o modelo neoliberal quanto com a disposição de fazer sacrifícios econômicos em benefício de outros países. “Não espero que os Estados Unidos sejam partidário entusiasta do livre comércio como foram nas últimas décadas”, disse Kupchan à IPS.
“Se houvesse uma série crise econômica no exterior, por acaso os Estados Unidos funcionariam como prestamista de último recurso, como o fez na crise financeira de 1997 e 1998? Duvido. Estamos muito ocupados resgatando a nós mesmos”, disse Kupchan à IPS. De modo semelhante, é certo que o Congresso se verá tentado a reduzir o enorme déficit orçamentário reduzindo programas tradicionalmente pouco populares, com a ajuda ao estrangeiro, que Washington tem usado como mais um meio para influir em outras nações.
Não está claro se a pressão para reduzir gastos também será aplicada no orçamento da defesa, de mais de meio bilhão de dólares – quantia que exclui o gasto nas guerras do Iraque e Afeganistão – embora um legislador-chave, o presidente do Subcomitê de Destinações de Defesa da Câmara de Representantes, John Murtha, tenha previsto na semana passada que isso acontecerá. “Se eu estivesse no Pentágono, estaria preocupado com os empregados dos bancos de investimentos, porque seu orçamento está diminuindo. Repentinamente, todas as reduções militares impensáveis até há duas semanas ficaram claras”, disse Lind. “Dependendo do gasto real, a este pacote será aplicada uma enorme restrição sobre todo tipo de despesa relacionada com a segurança”, disse Bill Hartung, que preside a Iniciativa Armas e Segurança da New America Foundation.
Entretanto, outros analistas não estão tão certos de que o Pentágono, que atualmente representa quase a metade do gasto militar de todo o mundo, seja forçado a reduzir seu orçamento. “Poder-se-ia pensar que uma crise econômica como esta produziria um reordenamento das prioridades”, disse Andrew Bacevich, coronel da reserva do exército e professor na Universidade de Boston. “Mas, não estou seguro de que isto ocorra, porque nossos líderes políticos parecem não ter vontade de, simplesmente, reconhecer que o poder norte-americano tem limites”, acrescentou.
De fato, Kupchan observou que, enquanto a crise financeira “incentivará uma política externa mais moderada e menos onerosa, a segurança nacional ainda derrotará a conveniência econômica”. Mas, dependendo da seriedade e duração da crise, “há probabilidades de que surja uma voz interna” entre o público “que diga que é tempo de os Estados Unidos cuidarem de seu próprio jardim e se concentrarem em seus próprios problemas e não nos dos outros povos. Isto necessariamente significa uma Washington mais introvertida e preocupada”, acrescentou Kupchan. (IPS/Envolverde)

