Nações Unidas, 30/09/2008 – Uma reunião convocada por organizações da sociedade civil deu a cidadãos comuns de diversos países a oportunidade de relatar suas experiências cotidianas na luta contra a pobreza, com a esperança de chamar a atenção dos líderes mundiais. Em coincidência com a abertura da sessão anual da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, na semana passada, com a presença de mais de cem chefes de Estado e de governo, o Chamado Mundial de Ação contra a Pobreza, uma rede de grupos não-governamentais, organizou o fórum em Nova York.
A jovem Benjamine Agbodjan Ablavi, de Togo, contou que vende fruta para conseguir dinheiro que lhe permita pagar a escola que freqüenta. “A escola deveria ser de graça. Há muitos países na África onde dizem que é, mas, na realidade, não é assim”, acrescentou. “Estas audiências públicas consolidam os vínculos entre as redes que são parte do poder das pessoas. Esta é nossa força”, disse Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda (1990-1997), ex-alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos (1997-2002) e atual presidente da não-governamental Iniciativa para uma Globalização Ética.
Os participantes do fórum centraram sua atenção nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, aprovados em 2000 pela ONU. Entre essas metas figuram reduzir pela metade a proporção da população que sofre pobreza extrema e fome; diminuir a mortalidade infantil em dois terços e a materna em 75%, e acesso universal à educação primária, tudo isso até 2015 e em relação aos níveis de 1990. Outros objetivos são a promoção da igualdade de gênero; combate contra doenças como Aids e malaria; assegurar a sustentabilidade ambiental e desenvolver uma aliança Norte-Sul para o desenvolvimento.
Desde que foram acordados só Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, à população faminta do mundo somaram-se 150 milhões de pessoas, segundo ativistas contra a pobreza. Os cronicamente famintos somam um bilhão de pessoas, número sem precedentes desde a década de 70. A organização não-governamental Action Aid estima que outros 750 milhões sofrem insegurança alimentar. O principal obstáculo para combater o problema não é a falta de recursos, mas a ausência de vontade política por parte dos países ricos.
“Se os doadores cumprirem os níveis de ajuda estabelecidos no Consenso de Monterrey, de 0,7% do produto interno bruto, e 10% dessa quantia serem destinados à agricultura e à produção de alimentos, chega-se a um total de US$ 21 bilhões ao ano, que acabariam com a fome”, disse Colm O’Cuanacháin, de Action Aid, na reunião da semana passada. “Estes US$ 21 bilhões representam menos de um décimo dos US$ 267 bilhões que as nações ricas destinam anualmente para subsidiar sua agricultura”, acrescentou.
O arcebispo sul-africano Njongonkulu Winston Hugh Ndungane, disse que em seu país “o preço do pão triplicou nos últimos meses e o da querosene duplicou. Que já sobrevivia com apenas um dólar por dia foi arrastado para uma pobreza mais profunda”, afirmou. Embora uma das metas nas quais mais se avançou seja a do acesso universal à educação primária, sobretudo na África, ainda há 75 milhões de meninas e meninos que não vão à escola. Raquel Castillo, da não-governamental Estratégias Mundiais para a Educação de Todos, citou o exemplo de uma menina de 12 anos que se suicidou porque seus país não podiam pagar o custo da matrícula. Era de dois dólares.
“Hoje, 2,5 bilhões de pessoas não têm acesso a serviços sanitários básicos e 900 milhões à água potável. No ritmo em que avançamos, para alcançar os Objetivos do Milênio nesta área na África subsaariana serão necessários cem anos”, disse Jamilla Mwanjisi, da Rede Africana da Sociedade Civil para a Água e os Serviços Sanitários. Das 1,3 bilhão de pessoas que vivem na pobreza extrema, 70% são mulheres, segundo algumas estimativas. Embora concentrem dois terços das horas trabalhadas em todo o mundo e produzam metade dos alimentos, recebem apenas 10% da renda e têm em seu nome menos de 1% das propriedades. (IPS/Envolverde)

