ONU: Ventos da Guerra Fria no Conselho de Segurança

Nações Unidas, 09/09/2008 – O ponto morto em que ficou o Conselho de Segurança ao analisar várias crises internacionais leva os analistas a se perguntarem se não voltou a soprar o vento da Guerra Fria, que muitos guardaram no baú da história após a dissolução da União Soviética em 1991.

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As especulações são alimentadas pelo fato de que quando este órgão da Organização das Nações Unidas debateu nos últimos tempos diversas crises, como as do Irã, Zimbábue, Birmânia e Geórgia, se viu paralisado pela colisão entre os representantes das potencias ocidentais e os embaixadores da Rússia e da China.

O Conselho de Segurança, recordam os analistas, foi cenário de batalhas verbais épicas entre os diplomatas dos Estados Unidos e da URSS na década de 60, especialmente durante a crise gerada pela instalação de mísseis nucleares soviéticos em Cuba em 1961. Em um desses debates, o representante de Washington, Adlai Stevenson, por muitos considerado figura “legendária”, pressionou seu colega soviético, Valerikan Zorin, para obter uma confirmação sobre a instalação de mísseis na ilha. “Sim, ou não?”, perguntou Stevenson, acrescentando imediatamente: “E não espere pela tradução para me dar a resposta”.

Zorin respondeu, através de um tradutor: “Não estou diante de um tribunal norte-americano e não penso em responder a uma pergunta que me foi feita ao estilo utilizado por um promotor”. Stevenson replicou que aguardaria uma resposta “até que o inferno congelasse”. Os confrontos e alinhamentos do passado voltaram a se manifestar. Em janeiro de 207, uma iniciativa das potências ocidentais para punir a ditadura militar da Birmânia por suas violações dos direitos humanos enfrentou um pouco comum duplo veto de China e Rússia, que têm esse privilégio juntamente com Estados Unidos, França e Grã-Bretanha.

A história se repetiu no mês passado, quando Pequim e Moscou bloquearam medidas contra o regime autoritário de Robert Mugabe, presidente do Zimbábue, por sua perseguição a membros da oposição, que chegou ao assassinato de ativistas e seus familiares. A disputa entre Estados Unidos e Rússia se intensificou a partir de agosto, após a invasão da Geórgia por tropas russas e pelo reconhecimento por Moscou da independência da Ossétia do Sul e de Abjásia, duas regiões separatistas dessa nação do Cáucaso, uma república que fez parte da URSS.

Quando o embaixador norte-americano, Zalmay Khalilzad, tentou que seu colega russo dissesse se seu país tinha a intenção de violar a soberania e integridade territorial da Geórgia, Vitaly Churkin respondeu que já havia dado uma resposta a essa questão. E acrescentou, sarcasticamente, que Khalilzad “não talvez tenha colocado os fones quando” o fez. E quando representantes de Washington dispararam contra Moscou por suas violações ao direito internacional e à Carta da ONU ao invadir a Geórgia, Churkin perguntou: “Já encontraram armas de destruição em massa no Iraque ou ainda estão procurando?”.

“A ONU se encaminha para uma nova Guerra Fria”, afirmou Phyllis Bennis, diretora do Projeto Novo Internacionalismo do Instituto para Estudos de Políticas, com sede em Washington, e autora de várias pesquisas sobre as Nações Unidas. Na medida em que os poderes econômico, político e diplomático dos Estados Unidos se vê corroído em todo o mundo, a força militar se converte em um fator cada vez mais dominante como ferramenta para manter a hegemonia, explicou.

“A ameaça do uso unilateral do poder militar por parte da Casa Branca continua aumentando, não apenas no Afeganistão e Iraque, mas com mais bases norte-americanas em todo o mundo, bem como com possíveis novas intervenções na Geórgia, Irã, Paquistão e, talvez, em outros países”, disse Bennis à IPS. Em parte como conseqüência do crescente militarismo, e em parte pelo hábito, os governos do mundo continuam tratando os Estados Unidos como se fosse a superpotência que não se pode desafiar, acrescentou. “Na ONU, isto significa permitir que Washington continue levantando sua voz”, ressaltou Bennis.

“Um retorno à Guerra Fria? Não estou certo se podemos caracterizar a situação dessa forma”, disse à IPS um diplomata asiático que acompanha de perto a atividade do Conselho de Segurança e pediu para não ter seu nome divulgado. Esse órgão, o mais poderoso das Nações Unidas, com capacidade para impor sanções e declarar a guerra, não vem funcionando adequadamente nos últimos anos, acrescentou. “A meu ver, a última vez que operou de forma eficiente foi na etapa prévia e durante a Guerra do Golfo de 1991”, quando o governo do presidente George Bush (1989-1993) “trabalhou duramente para montar uma coalizão internacional contra o Iraque”, por sua invasão do Kuwait, disse o diplomata.

Talvez porque os Estados Unidos acabavam de triunfar na Guerra Fria e consideravam que poderiam ser “magnânimos”, sem agir unilateralmente, ou, provavelmente, viram a oportunidade de demonstrar sua liderança e preservar um sistema internacional que o tinha no ápice, acrescentou o diplomata. Mas, especialmente nos últimos oito anos. “Os Estados Unidos se tornaram extremamente ideologizados e unilaterais em seu enfoque. Sempre negro, sem tons cinzas”, ressaltou. A seu ver, isto foi evidente nos meses anteriores à invasão do Iraque em 2003. “Essa atitude contaminou o planejamento e a estratégia, pensaram que seriam recebidos em Bagdá como libertadores”, afirmou.

Mouin Rabbani, editor-associado da publicação Middle East Report, editado em Washington, disse à IPS que desde 1990 a ONU, e especialmente o Conselho de Segurança, esteve sob o domínio, ou a “propriedade” dos Estados Unidos, convertendo-se em um instrumento para ignorar o direito internacional. Para o diplomata asiático, esse zelo ideológico dos Estados Unidos e de seus aliados se manifesta na “perturbadora” tendência de ampliar a definição do que constitui uma “ameaça à paz e à segurança internacionais’. Argumentou que a Carta da ONU deixa certa margem para a interpretação, e que essa definição de “ameaça” esteve geralmente confinada à violência ou à guerra.

“Cada vez com maior freqüência, vemos tentativas do Ocidente de incluir todo tipo de transgressões com possíveis motivos que justifiquem a intervenção do Conselho de Segurança”, disse Rabbani, e deu com exemplo os casos de repressão interna, assassinatos e violação de direitos humanos cometidos pelos regimes da Birmânia e do Zimbábue. O desafio continua sendo se o Conselho de Segurança é capaz de reformar-se para se converter em uma organização internacional eficiente.” (IPS/ Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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