POPULAÇÃO-CINGAPURA: Governo casamenteiro

Cingapura, 01/09/2008 – Após fracassar na tentativa de induzir os jovens casarem e formar família, oferecendo vantagens em matéria de impostos e subvenções, o governo de Cingapura decidiu recorrer a casamenteiros. O primeiro-ministro, Lee Hsien Loong, dedicou 30 minutos de um discurso na televisão, de duas horas, para incentivar os jovens educados a se casarem mais jovens e priorizar a família e os filhos antes de suas carreiras profissionais.

Lee, que parecia dirigir-se especialmente às mulheres jovens que têm aspirações profissionais, se referiu a duas imigrantes da Índia que expressaram sua satisfação pelos casamentos arranjados para elas por seus pais. O amor floresceu depois do casamento, segundo disseram, afirmou o governante. Na versão em mandarim de seu discurso, dirigida à majoritária comunidade chinesa, Lee disse que o governo de Pequim patrocina casamentos arranjados. Ali, afirmou, milhares de pais assistem em segredo reuniões com casamenteiros para encontrar cônjuges adequados aos seus filhos. “Não temos esse tipo de reunião. Creio que nossos centros comunitários deveriam organizar esse tipo de encontro”, afirmou.

Lee disse que a baixa taxa de fertilidade é especialmente acentuada na comunidade chinesa, que representa cerca de 70% da população de Cingapura. Atualmente, é de 1,14 filhos por mulher. “Muitos solteiros querem se casar. São sérios e não buscam apenas um prazer momentâneo. Mas, passam por dificuldades, porque alguns jamais tiveram um encontro e, depois que começam a trabalhar e entram em uma rotina, não têm oportunidades para socialização e conhecer moças”, afirmou Lee em seu discurso do último dia 9, por ocasião do aniversario da independência do país.

Cingapura, como outras economias asiáticas de acelerado crescimento, tem uma alta porcentagem de mulheres profissionais de alta renda, que permanecem solteiras. O conselho de Lee para elas é casarem antes dos 30 anos, em lugar de esperar consolidar suas carreiras e começar a buscar um companheiro quando estão perto dos 40. “Casar jovem tem suas vantagens. Esses casais podem se dar ao luxo de adiar a chegada dos filhos, para privilegiar suas carreiras ou ter tempo apenas para eles”, disse Jacinta Leow, formada em comunicação com pouco mais de 20 anos que se casou com um professor há pouco tempo.

Leow concorda com a idéia de que a alta renda afeta negativamente a taxa de fertilidade nas sociedades modernas. Ter um bom casamento e instalar-se em um apartamento exige grande investimento, acrescentou, e se nascer um bebê a carga fica mais pesada. “Assim, o casal tem de trabalhar e poupar por vários anos. Nem todos têm um bom salário”, acrescentou. A resposta do governo a estas reservas foi estabelecer incentivos e subsídios, que exigiram do tesouro cerca de US$ 1,2 bilhão. Incluem reintegração fiscal de 25% para cada filho, maior tempo de licença maternidade e instalação de creches nas empresas.

Um estudo feito pelo governo entre abril e julho deste ano revelou que os jovens, em geral, privilegiam suas carreiras antes do casamento. Muitos mencionaram como obstáculo para se casarem a dificuldade de encontrar o par adequado. “O casamento deve ser confrontado com outras responsabilidades das mulheres”, disse Lai Yee, executiva de relações públicas de um organismo internacional. Lai é filha única. Nasceu em uma época em que o governo de Cingapura aconselhava os casais a não terem mais do que dois filhos, para controlar o crescimento demográfico. Agora, com mais de 30 anos e desfrutando seu trabalho, Lai disse que deve cuidar de seus pais e a inflação, somada aos custos da saúde, é um problema.

“Posso me imaginar casada, mas só se tiver segurança econômica para manter um filho, meus pais terão prioridade diante de um bebê ainda não concebido. Os subsídios ou as vantagens com impostos não me convencerão imediatamente se minhas responsabilidades atuais não forem aliviadas em certa medida”, disse à IPS. “Reconheço que são ambivalentes a respeito do casamento. Não resisto à idéia, mas, tampouco é algo que busque ativamente. Sem dúvida, a independência financeira abriu mais opções às mulheres, que já não devem considerar o casamento como um vale-refeição permanente”, acrescentou.

Em seu discurso, Lee também queixou-se da reticência dos homens jovens em assumir as responsabilidades da paternidade. “A mentalidade começou a mudar, mas não suficientemente rápido”, disse. O governo incentivará “maior responsabilidade compartilhada na criação dos filhos”, ressaltou. (IPS/Envolverde)

Kalinga Seneviratne

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