Nova York, 14/10/2008 – A cada ano, os exércitos do mundo gastam US$ 1,3 trilhão em armas, e países em conflito são frequentemente inundados com parte deste arsenal, que depois é usado contra civis indefesos, denunciaram ativistas pelos direitos humanos. “Se uma nação pode se ver envolvida em uma guerra é injustificável vender-lhe armas. Tem de haver regulamentações e controle, especialmente quando os países que as compram estão envolvidos em um conflito”, disse à IPS Valentino Deng, sobrevivente da guerra civil sudanesa. As experiências de Deng como refugiado inspiraram a última novela do escritor Dave Eggers, “What is the what” (o que é o quê?).
Quando sua aldeia foi atacada e queimada, Deng ficou separado de sua família e fugiu a pé, com um grupo de jovens, para um acampamento de refugiados no Quênia. “Vi como as pessoas morriam bombardeadas desde o ar e aldeias totalmente destruídas pelo fogo. Uma mulher foi assassinada e seu bebê tentava mamar em sua mãe morte. Nesses momentos me perguntava quem estava fornecendo armas para a guerra”, disse Deng. Patrick Cammaert, ex-comandante da missão de paz da Organização das Nações Unidas na República Democrática do Congo, foi testemunha da inutilidade do desarmamento de facções se ao mesmo tempo não for controlada a oferta de armas. “Têm-se a sensação de que se enxuga o chão enquanto a água continua escorrendo pela torneira aberta. Em um momento se desarma um grupo e na semana seguinte tem novas armas e munições”, disse o militar.
Um informe da organização humanitária Oxfam revela que o comércio de armas, que consome os recursos de alguns governos e fomenta os conflitos, conspira contra os avanços rumo aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, adotados pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas e que deveriam ser atingidos até 2015. “É claro que para alcançar essas metas de desenvolvimento, com redução da pobreza, melhor saúde e educação, é preciso controlar as vendas de armas”, disse Katherine Nightingale, autora do estudo da Oxfam.
Pelo menos 22 dos 34 países com menos possibilidades de atingir os objetivos estão em conflito ou saindo de um, segundo dados da ONU. De acordo com a Oxfam, entre 1990 e 2005, 23 nações africanas perderam em conjunto US$ 284 bilhões como conseqüência de conflitos armados, alimentados pelas transferências de armas e munições. Além disso, o comércio internacional de armas é considerado pela organização Transparência Internacional uma das atividades mais corruptas do mundo.
No mês passado, um estudo da anistia Internacional revelou que fornecedores clandestinos de armamento, com fundos do governo dos Estados Unidos e do Iraque, inundaram esse país do Oriente Médio com mais de um milhão de armas desde a invasão norte-americana em 2003. Muitas acabaram em mãos de grupos insurgentes. “A indústria do comércio de armas é global. Queremos um tratado internacional que assegure que os Estados prestem contas pelos processos empregados para sua aquisição”, disse Nightingale à IPS.
Em dezembro de 2006, 153 Estados votaram na Assembléia Geral da ONU a favor de um tratado internacional sobre venda de armas. Este mês haverá uma nova reunião para considerar novos passos rumo a esse objetivo. Ativistas denunciaram que China, Egito, Estados Unidos, Índia, Paquistão e Rússia tentaram bloquear e adiar as negociações sobre o tratado a respeito da venda de armas. (IPS/Envolverde)

