Santiago, 17/10/2008 – “Não podemos esperar que surjam crises para garantir o direito à alimentação. É preciso nos antecipar”, disse à IPS José Graziano da Silva, representante para a América Latina e o Caribe da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação. “Não basta reagir frente a uma crise”, acrescentou esta semana em uma entrevista coletiva para jornalistas estrangeiros na sede da FAO em Santiago do Chile. Atualmente, por exemplo, é necessário prevenir os impactos na segurança alimentar provocados pela carestia, pela mudança climática e pela produção de biocombustíveis, explicou Graziano.
Amanhã será celebrado o Dia Mundial da Alimentação e a região não tem muito o que comemorar em matéria de erradicação da fome. Entre 1990 e 2005, a quantidade de subnutridos na América Latina e no Caribe caiu de 53 milhões para 45 milhões de pessoas, mas a alta dos preços dos alimentos nos últimos dois anos novamente fez aumentar este número, para 51 milhões em 2007. Na bastaram as diversas medidas aplicadas de imediato pelos países, como substituição de importações de alimentos e apoio à agricultura familiar, através de créditos brandos e assistência técnica.
Tampouco o desenvolvimento de redes de proteção social, com transferências condicionadas de renda e habilitação de creches e cantinas escolares. Alguns países recuperaram alimentos tradicionais, como a mandioca no Brasil e no Equador. “Não creio que em 2008 conseguiremos baixar” o atual número de subnutridos, afirmou Graziano. “Esperávamos que com as boas colheitas deste ano pudéssemos retomar o caminho da redução do número de famintos, mas a incerteza que traz a atual crise financeira deixa isso pendente”, explicou o representante da FAO. Segundo as perspectivas desta agência da ONU, em 2008 as colheitas terão crescimento recorde no mundo de 2.232 bilhões de toneladas, 4,9% mais do que em 2007.
Na América Latina e no Caribe espera-se colher 176,5 milhões de toneladas de alimentos, 5,7% mais do que em 2007. Enquanto a América do Sul responderá por 135,9 milhões de toneladas de colheitas, a América Central e o Caribe serão responsáveis por 40,6 milhões de toneladas. “Neste momento, as boas colheitas não necessariamente significarão que vamos no caminho de reduzir novamente os subnutridos, porque o temor de uma recessão econômica, sobretudo pela redução das exportações na região, é muito alto. Enquanto não for superada a crise financeira será muito difícil fazer qualquer previsão”, afirmou.
Segundo Graziano, a crise atual causa impacto por sua extrema “volatilidade” e “magnitude”. As “variações são de uma magnitude com a qual os países não estavam acostumados, mais ainda quando se vivia uma estabilidade monetária e financeira desde os anos 80, com um credito abundante e barato”, disse o representante da FAO. Nesse sentido, afirmou esperar que a crise “não afete as linhas de créditos do comércio internacional, porque são importantes para o crescimento agrícola, especialmente na América Latina. Esta região depende muito do setor exportador para seu crescimento interno”, acrescentou.
De acordo com a FAO, os preços internacionais dos produtos básicos já começaram a cair, mas as projeções indicam que nos próximos 10 anos estes se manterão entre 10% e 60% mais altos do que na década anterior. “Os países têm de garantir a segurança alimentar. Como? Tendo leis, instituições e programas para implementar as coisas que sabemos fazer”, disse Graziano à IPS. “Sabemos cultivar alimentos, melhorar a nutrição das crianças, fazer uma boa merenda escolar, consumir produtos autóctones e sabemos fazer feiras-livres, que garantem o livre acesso a produtos de boa qualidade”, ressaltou.
“Não estamos falando de fazer um computador de última geração nem um carro movido não sei lá por qual combustível. Estamos falando de coisas muito simples, que todos os países podem fazer. Esta é a lição que podemos tirar destes momentos difíceis”, disse Graziano. “Muitas vezes é preciso ter um incêndio para se dar conta da importância dos bombeiros e do sistema de prevenção”, disse.
A mensagem deste Dia Mundial da Alimentação é: “Segurança alimentar mundial: os desafios da mudança climática e a bioenergia”. Amanhã, na sede da FAO em Santiago acontecerá uma mesa-redonda de alto nível, com participação de membros do Grupo Intergovernamental de Mudança Climática, e será lançado receitário dos chamados Chefes Contra a Fome. (IPS/Envolverde)

