DIALOGUES: “O lucro é o inimigo número um do meio ambiente”

SANTIAGO, 14/10/2008 – (Tierramérica).- O capitalismo é uma intervenção brutal, diabólica, nos sistemas naturais, afirma nesta entrevista exclusiva o economista e ecologista chileno Marcel Claude.

Marcel Claude, economista e ativista ecológico. - Daniela Estrada/IPS

Marcel Claude, economista e ativista ecológico. - Daniela Estrada/IPS

A débâcle financeira global é uma prova de que o capitalismo “está mais vivo do que nunca”, e que só seria freado com políticas que extingam toda forma de lucro ou com o fim da vida sobre a Terra, sentencia o chileno Marcel Claude, professor e ativista.

A iminente recessão mundial pode reduzir a pressão sobre os recursos naturais, devido a uma produção menor, mas também pode relaxar as práticas de proteção ambiental, alerta Claude, cujo informe sobre o desaparecimento dentro de duas décadas das florestas autóctones de seu país causou considerável alvoroço em 1995, quando era um qualificado técnico do Banco Central.

A bolha especulativa do setor hipotecário dos Estados Unidos foi apenas o detonador. Uma explicação mais profunda é a queda da “economia real”, porque os Estados permitiram a concentração da propriedade e o aumento da desigualdade e da pobreza em favor da progressão da “economia financeira”, afirma Claude neste diálogo com o Terramérica.

Mestre em Economia pela Universidade do Chile e candidato a doutor na Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica, Claude é professor em três altas casas de estudo de seu país e tem uma ampla trajetória como ativista ecológico.

Em 2006, ganhou um litígio contra o Estado chileno no Tribunal Internacional de Direitos Humanos por acesso a informação pública e enfrentou com êxito uma querela judicial por denunciar conflitos de interesses na discussão da Lei de Pesca.

TERRAMÉRICA – Atualmente, todo mundo teoriza sobre o capitalismo a propósito da crise financeira global. O que o senhor entende por capitalismo?

MARCEL CLAUDE – Menos mal que as pessoas estejam voltando a falar do capitalismo. Apenas se falava da globalização, do neoliberalismo. Mas o capitalismo existe, está mais vivo do que nunca e continuará vivo por muito tempo. A atual crise é uma mostra disso.

O capitalismo construiu uma tremenda capacidade de desenvolver sua razão de ser: o lucro. A essência do capitalismo não é a propriedade privada, embora às vezes esta funcione como instrumento legal para materializar o lucro, nem são os governos de direita.

O capitalismo é a busca do lucro, da taxa de ganhos. O que move o capitalismo são dois pecados capitais: a avareza e a cobiça. Não são virtudes humanas como a solidariedade, a justiça, a verdade e o amor.

Todas as instituições capitalistas tendem a favorecer isto. Se a propriedade privada promove o lucro, tudo bem; se não promove, se passa por cima dela. O mesmo ocorre com a constituição política do Estado ou com o sistema de regulamentação financeira.

O problema é que o lucro sempre é obtido com base na exploração. Sempre se trata de obter uma riqueza que está do outro lado. E as fontes dessa riqueza são duas: o trabalho da humanidade e a produtividade dos ecossistemas naturais. O capitalista sustenta que a atividade produtiva “cria” riqueza, mas simplesmente há uma “conversão”, uma “transformação” de riqueza, que vem fundamentalmente da natureza. A riqueza é a produtividade biológica dos ecossistemas naturais.

O capitalismo é uma intervenção brutal, diabólica, nos sistemas vitais, que se convertem em produtos econômicos pela necessidade de sustentar a vida humana. Mas, como os capitalistas controlam todo o processo produtivo, acabam se apropriando desses direitos de vida.

TERRAMÉRICA – Quais efeitos podem ter as atuais turbulências na reprodução do capitalismo? Passaremos para outra fase ou estamos perto do fim?

MARCEL CLAUDE – Enquanto houver finalidade de lucro haverá capitalismo. Como a avareza e a ambição sempre existirão, a maneira de o lucro não ser determinante é regulamentá-lo, fazer com que na definição das políticas de Estado outros valores tenham maior preponderância. O outro fator possível de destruição do capitalismo é o desaparecimento de toda vida sobre o planeta.

No melhor dos casos, poderíamos avançar para uma fase mais responsável. Isso se não a impedirem as grandes corporações multinacionais e os influentes homens de negócios. Quarenta por cento do produto interno bruto mundial está nas mãos de 200 multinacionais. Passarmos para outra fase dependerá da magnitude da crise e de os Estados conseguirem ordená-la e recuperá-la, coisa que me parece difícil.

TERRAMÉRICA – Quem serão os principais prejudicados?

MARCEL CLAUDE – Sempre são os pobres. Os Estados privilegiam sustentar o sistema financeiro com recursos provenientes dos contribuintes, uma atitude que enfraquece sua capacidade de gerar emprego, expandir a economia e enfrentar os problemas sociais. Estão preferindo deixar de gastar em educação, saúde, infra-estrutura e pesquisa.

Isto significará menor atividade econômica, aumento do desemprego e queda da demanda. Pode ser que diminua a pressão sobre os recursos naturais, devido a uma produção menor, mas também pode haver um relaxamento nas práticas de proteção ambiental, para tornar factíveis outros projetos.

TERRAMÉRICA – Se o capitalismo não é sustentável, qual é a alternativa?

MARCEL CLAUDE – Até agora ninguém construiu outra alternativa e não sei se será preciso. Não se pode mudar um sistema de um dia para outro, mas pode-se intervir de forma politicamente decidida. As políticas estatais deveriam orientar-se praticamente para extinguir toda forma de lucro. Porque entendo o lucro como aquele ganho que não provêm de seu trabalho.

As políticas de Estado deveriam se voltar para uma sociedade baseada no trabalho. Hoje, não há correspondência entre a riqueza de alguns e seu trabalho.

Os Estados deveriam construir uma ordem econômica, política e social sustentada no trabalho. O lucro é o inimigo número um da sociedade e do meio ambiente, é veneno, e o ópio dos povos. A lógica do capital é o acúmulo e a lógica do trabalho é a subsistência, a manutenção da vida, que é mais funcional com a natureza.

* A autora é correspondente da IPS.

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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