ECONOMÍA-MERCOSUL: Olhos bem abertos

Rio de Janeiro, 28/10/2008 – A reação do Mercosul à crise financeira internacional no momento se limita a observar os “possíveis impactos” nos mercados financeiros, na produção e no desemprego e a “manter canais ágeis de comunicação” sobre as medidas nacionais. O bloco reuniu ontem em Brasília seu Conselho de Mercado Comum, composto pelos ministros da Economia, chanceleres e presidentes de bancos centrais, para discutir a crise e as possíveis respostas para minimizar seus efeitos. O Mercosul é formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, tendo a Venezuela ainda em processo de adesão como membro pleno.

As propostas apresentadas nesta VII Reunião Extraordinária do Conselho, e em outras posteriores, serão discutidas em um novo encontro marcado para 15 de dezembro, véspera da Cúpula da América Latina e do Caribe convocada pelo Brasil para 16 e 17 desse mês em Salvador (BA). Brasília sugeriu convocar uma reunião ministerial do Conselho Econômico e social da Organização das Nações Unidas, órgão que a diplomacia brasileira busca fortalecer, enquanto a Venezuela propôs uma cúpula mundial de chefes de Estado e de governo, segundo o comunicado conjunto do Conselho do Mercado Comum.

O chanceler chileno, Alejandro Foxley, defendeu que o Grupo dos Oito países mais poderosos amplie o capital das instituições financeiras internacionais de fomento, em particular do Banco Interamericano de Desenvolvimento, para atender a região latino-americana. Com a presença de representantes dos membros plenos e associados do Mercosul, além de observadores da Guiana e do Suriname, a reunião compreendeu delegados de toda a América do Sul. O consenso expresso no comunicado final destaca “a necessidade de uma reforma profunda e ampla da arquitetura financeira internacional e de aperfeiçoar a regulamentação dos mercados de capitais”. Além disso, defende a conclusão “equilibrada” da Rodada de Doha, da Organização Mundial do Comércio, suspensa em julho por discordâncias expressas principalmente entre Índia e Estados Unidos.

A declaração do Mercosul reconhece que a América do Sul vive hoje “melhores condições do que no passado” para enfrentar a crise financeira, graças aos seus bons “fundamentos macroeconômicos”. Aprofundar a integração, o comércio e a cooperação financeira na região pode ser “decisivo” para “preservar e ampliar as conquistas econômicas e sociais dos últimos anos, acrescenta o documento. Em entrevista coletiva ao fim da reunião, o chanceler brasileiro, Celso Amorim, disse que “fortalecer o patrimônio da integração minimiza os efeitos da crise”, ao manter os fluxos comercial e financeiro. Por sua vez, Foxley rechaçou as “políticas protecionistas” com resposta à crise, dizendo que agravariam os problemas sociais. Já o economista e senador pelo PT Aloísio Mercadante condenou as tentações protecionistas, alegando que as saídas individuais para a crise são enganosas.

As declarações de Amorim e Mercadante e do chanceler chileno tinham como alvo o governo argentino, que tende a adotar barreiras, com fez várias vezes nos últimos anos, para defender seu mercado contra a invasão de produtos importados. Um aumento da Tarifa Externa Comum do Mercosul foi uma das propostas de Buenos Aires. A forte desvalorização do real, em mais de 30% desde agosto, agravou os temores argentinos de aumento do desequilíbrio no comércio bilateral. Entre janeiro e agosto deste ano o superávit brasileiro no intercâmbio com a Argentina chegou a SU$ 3,570 bilhões, 40% mais do que em igual período de 207, apesar do auge da valorização do real, tendência invertida desde agosto.

O Mercosul “deveria adotar decisões comuns”, mas diante da impossibilidade de fazer isso, ao menos teria de estabelecer “diretrizes” em alguma direção para as medidas que cada país adotar diante dos efeitos da crise financeira iniciada nos Estados Unidos, disse à IPS Tullo Vigévani, diretor da Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista. O Mercosul sofre uma “crise aguda” em 1999, quando houve forte desvalorização da moeda brasileira e o processo de integração já estava debilitado diante da perda de expectativas iniciais, mas o “bloco não se tornou inviável”, recordou Vigévani.

Agora a situação é mais grave, com a paralisação do Mercosul, mas todos os países-membros já se convenceram de que a associação entre eles é fundamental para o desenvolvimento de cada um e “devem se dar conta de que interessa a todos que nenhum sócio enfraqueça”, resumiu Vigévani. Este pesquisador de relações internacionais, que acompanha o processo de integração latino-americana, recordou que um acordo adotado pelo Mercosul em 2005 estabelece o princípio do equilíbrio nas relações comerciais dentro do bloco.

Esta crise e a desvalorização do real podem representar uma oportunidade para definir limites ao desequilíbrio comercial, com uma “banda larga” de tolerância e medidas compensatórias a favor do país deficitário, disse Vigévani. A grande dificuldade é que os efeitos de uma desaceleração econômica no Brasil, prevista a partir do próximo ano devido à crise financeira mundial, terá brutal repercussão nos países vizinhos, com economias muito menores, enquanto o efeito não será notável no sentido inverto, acrescentou. (IPS/Envolverde)

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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