Rio de Janeiro, 13/10/2008 – A crise financeira iniciada nos Estados Unidos evidencia, mais do que qualquer outra anterior, a distância que separa o mundo do capital do cidadão comum, especialmente nos países em desenvolvimento. O grosso da população nas nações sul-americanas ainda não sente os efeitos do pânico que tem lugar entre os que possuem investimentos nas bolsas de valores, em grandes empresas ou no exterior. Mas as notícias assustam a todos, pela magnitude dos dados e pelas experiências já vividas.
No Brasil, o real teve desvalorização de 31,6% desde agosto e a Bolsa de Valores de São Paulo acumula queda de 20% em outubro e de 44,2% desde o começo deste ano. Segundo os especialistas, algum dia tais índices se converterão em inflação, desemprego e agravamento de chagas sociais. Assim, se repete no Brasil a enorme volatilidade de crises anteriores. Parte da queda da bolsa se deveu ao fato de empresas industriais também especularem com outros valores, especialmente no mercado cambiário.
Três grandes companhias industriais divulgaram perdas de R$ 4,9 bilhões por terem apostado na continuidade da supervalorização do real. Teme-se que outras empresas tenham sua solidez desmentida por essas operações danosas. A aventura se deveu em boa parte à política cambiaria do Banco Central, que favoreceu uma forte valorização do real, o que reduziu a competitividade da indústria brasileira.
De quase R$ 4 por dólar em meados de 2002, quando o iminente triunfo eleitoral do Presidente Luis Inácio Lula da Silva atemorizou o mercado, a taxa de câmbio passou para R$ 1,56 por dólar em 1º de agosto passado. Desde então, a moeda brasileira se desvalorizou aceleradamente e hoje o dólar é cotado em torno dos R$ 2,31. Essa volatilidade se deve à “excessiva valorização anterior”, por causa da elevação também excessiva das taxas de juros fixadas pelo Banco Central, que atraiu muito capital especulativo ao país, explicou à IPS Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do BC.
A virada cambiaria dos últimos meses, uma “correção”, segundo muitos economistas, restabelece a competitividade da indústria, mas aumentará a inflação que está em 6,25 ao ano, quase no limite de tolerância da política de metas a respeito adotada pelo governo. Teme-se que, por isso, o Banco Central continue aumentando sua taxa de juros, atualmente em 13,75%, a mais alta do mundo, acentuando a desaceleração da economia. De todo modo, os especialistas ainda prevêem um crescimento do produto interno bruto de 3% a 3,5% em 2009, contra 5% este ano.
O agravamento da crise em todo o mundo industrializado fez com que o Presidente Lula reconhecesse, finalmente, que o Brasil sofrerá conseqüências, depois de desdenhá-las inicialmente e afirmar que o País seria pouco afetado. Seu colega venezuelano, Hugo Chávez, também admitiu, depois de festejar a decadência do capitalismo que tampouco “somos imunes”. A contaminação dos países latino-americanos pode ocorrer de varias maneiras. México, Caribe e América Central são obviamente vulneráveis pela grande dependência em relação aos Estados Unidos, seja pelo comércio ou pelas remessas de dinheiro enviadas por seus emigrantes, que diminuirão rapidamente.
Na Venezuela, o calcanhar de Aquiles é o petróleo. “Se o preço do óleo não se estabilizar em torno de um mínimo de US$ 80 o barril este país verá uma severa redução entrada de divisas”, afirmou à IPS o economista Pedro Palma, diretor da consultoria Metroeconômica. Porém, o impacto da crise na vida cotidiana desse país demorará mais do que em outros lugares pela forte presença estatal na economia sob gestão que prioriza aspectos políticos. Quando ocorrer, no médio prazo, será grave porque as exportações de petróleo, que somam US$ 44 bilhões por ano, equivalem a 20% do produto interno bruto.
A menor disponibilidade de divisas forçará “empresas, poupadores e consumidores a se voltarem ao dólar paralelo, hoje mais caro, com impacto na inflação”, previu Palma. Atualmente, a inflação na Venezuela chega a 30% ao ano, a mais alta da América, e no câmbio paralelo o dólar custa cerca de cinco bolívares por unidade, enquanto a cotação oficial é de 2,15 bolívares. As dificuldades venezuelanas, além disso, podem ampliar os efeitos da crise em cerca de 15 nações que recebem sua ajuda petroleira, que chega a 200 mil barris/dia oferecidos a preços favorecidos. Se a crise ganhar as dimensões anunciadas, “muitos dos planos de cooperação virão abaixo”, alertou Álvaro Silva, ex-ministro venezuelano da energia .
Quanto à Argentina, os impactos em cadeia são os que mais preocupam os empresários locais. Esse país será duramente afetado pela possível desaceleração econômica do Brasil, seu principal sócio no comércio e no Mercosul, que compartilham com Paraguai, Uruguai e Venezuela em processo de adesão plena. A temida “invasão” de produtos industriais brasileiros, que já causou conflitos no passado, pode se repetir diante de uma depreciação do real maior do que a do peso argentino.
Isso agravará o descompasso no comércio bilateral, que já é crescente. Em janeiro-agosto deste ano o Brasil teve superávit de US$ 3,570 bilhões, 40% a mais do que em igual período de 2007. Mas, “a Argentina não aparece como um país diretamente afetado” pela crise financeira mundial, já que sua “economia real” não mostra nenhum dado adverso, disse Mariano Lamoth, da abceb.com, uma consultoria econômica de Buenos Aires “O Brasil desvalorizou sua moeda, mas não deixará de comprar produtos argentinos nem deixará de crescer de um dia para outro”, afirmou Lamoth à IPS.
Entretanto, este economista admitiu “más expectativas e uma grande incerteza”, com aumento das taxas de juros e desvalorização do peso, encarecimento do crédito, que reduzirá o consumo e as exportações. Porém, manteve sua convicção de que não existe o “risco de uma corrida” (retirada em massa de depósitos) aos bancos nem a temida “invasão de importados”. Lamoth reconheceu que, no campo das idéias, esta crise “rompeu toda lógica” e que “a engenharia financeira falhou e a ortodoxia não está apresentando soluções. Existe uma grande desorientação”, concluiu. (IPS/Envolverde)

