Lisboa, 16/10/2008 – Mário Soares, duas vezes presidente e três vezes primeiro-ministro de Portugal, lamenta que a União Européia ainda não tenha compreendido a importância de um aprofundamento das relações com a América Latina.
Reconhecido até por seus adversários como “pai” da democracia instaurada em 1974, o advogado Mário Alberto Nobre Lopes Soares, natural de Lisboa, fez sua estréia na política com menos de 18 anos, ao ingressar as fileiras da oposição clandestina ao ditador corporativista Antonio de Oliveira Salazar (1889-1970). Com seus bem vividos 84 anos, que completará dia 7 de dezembro, conserva intactas suas características de político experiente, carismático e pouco formal no trato com os jornalistas.
Por óbvias razões históricas, lingüísticas e culturais, a prioridade absoluta nas relações de Portugal com a América Latina sempre se centraram no Brasil. Mas Soares considera que não é suficiente. É necessário também olhar para os países que falam espanhol. Ao recomendar um incremento das relações políticas, culturais, diplomáticas e econômicas com os países latino-americanos não se refere apenas a Portugal, mas a toda a UE e nem estabelece diferença entre só que na América falam espanhol e o Brasil, de língua portuguesa e presidido por seu amigo de longa data, Luiz Inácio Lula da Silva.
IPS – Portanto, não limita sua sugestão ao seu país…
Mário Soares – Espanha e Portugal estão evidentemente mais próximos, pela língua e cultura, do subcontinente americano, mas me refiro a toda a UE, que tem de compreender a importância que tem para o bloco comunitário europeu as relações com esses países. Nós ibéricos devemos convencer o resto dos europeus desta prioridade. Lisboa e Madri sempre foram partidárias de aumentar as relações da UE com o Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela em trâmite para associar-se plenamente, além de Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru com status de países associados), com resultados até agora modestos.
A União Européia não deu a resposta e o apoio que poderia ter dado ao Mercosul, encerrada em si mesma por seus próprios interesses egoístas, com o notório mau exemplo da Política Agrícola Comum (PAC, que estabelece medidas protecionistas para seus produtos e das quais 40% vão para um único país, a França).
Outro mau exemplo da UE foi dado há poucos dias. Dois países, Haiti e Cuba, se encontravam em uma situação particularmente difícil depois da passagem dos furacões Ike e Gustav. No plano estritamente humanitário, a Europa comunitária tem o dever de ajudar esses dois países. Mas, a título de curiosidade, de onde chegaram as primeiras ajudas? Da Rússia.
IPS – Os políticos portugueses olham quase exclusivamente para o Brasil e um pouco para a Venezuela, devido ao meio milhão de portugueses que vivem ali, mas olham pouco para o resto da América Latina. Certamente, esse não é o seu caso.
Mário Soares – Como todo mundo sabe, sou um grande admirador e amigo do Brasil, esse grande país irmão, a maior presença da língua portuguesa no mundo, com seus já quase 200 milhões de habitantes. Mas, também sou amigo da América Latina que fala castelhano, que conheço relativamente bem e onde conto com muitos amigos, alguns colocados em altos postos em seus respectivos países.
Explico. Sou um admirador da América Latina desde 1970, ano em que a visitei pela primeira vez. Admiro os grandes autores latino-americanos, apesar de todos serem diferentes entre si: Jorge Luís Borges (Argentina), Octavio Paz (México), Jorge Amado (Brasil), Darcy Ribeiro (Brasil), Gabriel García Márquez (Colômbia), Mario Vargas Llosa (Peru), Carlos Fuentes (México), apenas para citar alguns dos que conheci pessoalmente.
Eles pertencem a um mosaico de culturas diferenciadas, originalíssimas, com duas línguas comuns: espanhol e português, que têm a vantagem de poderem se entender mutuamente sem aprender o outro idioma, com uma religião mais ou menos comum, o cristianismo, com um fundo étnico e cultural riquíssimo, que subsiste diferenciado e distribuído pelas diferentes nacionalidades.
IPS – Como vê a América Latina de hoje, com vários processos inovadores em andamento, que alguns chamam de mudança e outros de populismo ou de esquerdistas?
Mário Soares – Quando no último dia 6 dei ima conferência por ocasião dos 10 anos da Casa da América Latina em Lisboa, espontaneamente lhe dei um título que agora revisado, com um pouco mais de cuidado, me parece algo impróprio: “A revolução democrática e pacifica da América Latina”.
IPS – Por que impróprio?
Mário Soares – Pela ambigüidade da palavra revolução, que tem diversas acepções, à qual acrescentei dois adjetivos que também sofrem certa ambigüidade: democrática e pacífica. O que hoje se verifica por todas as partes da América Latina é um desejo generalizado de autonomia em relação aos Estados Unidos. Esse é um dos traços fundamentais do que chamo “revolução democrática e pacífica”. Tanto por parte dos mais radicais, Venezuela, Equador, Bolívia e Nicarágua, como dos mais moderados, Brasil, Argentina, Chile e Uruguai.
Na América Latina, ou ibero-américa, como gostam de dizer os espanhóis, por certo que os países convivem com posturas diferenciadas. A Venezuela do socialismo bolivariano é mais radical do que o Brasil de Lula, que se apresenta como mais moderado. Mas os dois líderes, com os quais conversei, se dão particularmente bem, como pude constatar pessoalmente.
IPS – O denominador comum entre todos os analistas do mundo é que a América Latina está vivendo uma época de mudanças quase sem precedentes…
Mário Soares – De fato, a situação atual é muito diferente da que havia na América Latina que visitei pela primeira vez no começo da década de 70, com a curiosidade de um português que despertou para a política na luta contra a ditadura de Oliveira Salazar. Na época, a maioria dos Estados era governada por ditaduras militares, inspiradas pelos teóricos da “Escola de Chicago” (economistas ultraliberais, com ideologia de mercado como único valor). Embora o domínio dos Estados Unidos fosse sentido com maior ou menor grau em todas as partes, as pessoas comuns eram manifestamente “antigringos”, como os chamavam com desprezo.
Paradoxalmente, foi durante os dois mandatos do presidente (George W.) Bush que os Estados Unidos, absorvido pelas guerras que desencadeou no Afeganistão, com o infeliz apoio da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e no Iraque, por decisão unilateral, com todas as conseqüências negativas resultantes, que a América Latina deixou de ser o “quintal dos fundos”, como se dizia, de seu grande vizinho do norte. Muitos países latino-americanos, a partir daí, ganharam uma efetiva autonomia em relação aos Estados Unidos. Talvez por isso Washington decidiu recentemente reativar a IV Frota que atua na região a partir de sua base na Florida. É interessante constatar que o Brasil acordou com a França a transferência de tecnologia para construir o primeiro submarino atômico para, segundo se explicou, “defesa da extensa zona costeira”, onde acaba de descobrir imensas jazidas de petróleo.
IPS – Do seu ponto de vista, em vastos setores do sul e centro do continente, em maior ou menor grau, se registra um desejo generalizado de autonomia em relação aos Estados Unidos…
Mário Soares – Verdade. Por exemplo, Brasil e Argentina resolveram realizar suas operações em moedas nacionais, não em dólar, o que é sintomático. Na recente reunião de Santiago do Chile (em setembro), foram os países sul-americanos vizinhos que em reunião conjunta impediram que a Bolívia caísse em uma guerra civil, encontrando um consenso entre (o presidente) Evo Morales e seus opositores, sem nenhuma intervenção dos Estados Unidos, o que é sinal importante.
O Banco do Sul, idéia de Chávez (Hugo Chávez, presidente venezuelano), e converter a cidade de Manaus no centro nevrálgico dos corredores terrestres e fluviais que ligarão os oceanos Pacifico e Atlântico, a criação da Unasur (União das Nações Sul-americanas, são outros exemplos notáveis de crescente autonomia.
IPS – E a eventual eleição de Barak Obama como presidente dos Estados Unidos poderá garantir a não-intervenção desse país diante dessas mudanças?
Mário Soares – A América Latina é uma das regiões do mundo mais ricas em recursos naturais e humanos. Está destinada a ter um papel de grande destaque e até decisivo, em todos os aspectos, já durante este conturbado século XXI. Os Estados Unidos sempre são uma incógnita. Obama, apesar de não ser um político de esquerda, nunca cairá nos erros cometidos pela administração Bush, protagonista principal de um período negro da história dos Estados Unidos. O novo presidente certamente vai querer recuperar o prestigio perdido desse país. (IPS/Envolverde)


