Barcelona, 08/10/2008 – Com a crise financeira internacional, serão deixadas de lado as medidas para minimizar a mudança climática? Pamela Cox, vice-presidente do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe, acredita que não. “Sou otimista”, afirmou. a crise não deixará de lado a ação contra a mudança climática. O dinheiro que já está na mesa será usado para investimento em tecnologias limpas para os países que delas necessitam, acrescentou. Cox apresentou no Congresso Mundial da Natureza, que acontece em Barcelona, o mais recente informe do Banco Mundial sobre mudança climática na América Latina.
Os principais países industrializados comprometeram mais de US$ 6 bilhões há cinco semanas para os Fundos de Investimento Climático (CIF) que o conselho de diretores executivos do Banco Mundial aprovou em julho. Os CIF são instrumentos internacionais de investimento criados para proporcionar tecnologias limpas ao mundo em desenvolvimento e por à prova enfoques inovadores diante da mudança climática. Outra razão para seu otimismo, disse Cox, é o pedido do presidente do Banco, Robert B. Zoellick, para que seja implementado um mecanismo exaustivo do sistema multilateral.
Zoellick afirmou na segunda-feira (6) que é necessário reconsiderar os mecanismos para que o mundo solucione seus problemas econômicos, em meio à atual crise. Em um discurso no Instituto Peterson para a Economia Internacional, em Washington, afirmou: “O Grupo dos Sete [países mais industrializados] não está funcionando. Precisamos de um grupo melhor para uma época diferente. Para a cooperação financeira e econômica deveríamos considerar um novo grupo diretor que também inclua Brasil, China, Índia, México, Rússia, Arábia Saudita e África do Sul”. O G-7 é integrado atualmente por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália e Japão.
Ao apresentar uma antecipação do informe do Banco na Conferência de Barcelona, organizada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), Cox disse que a América Latina não é responsável pela crise financeira nem figura entre os principais responsáveis pela mudança climática. Mas, acrescentou: os efeitos desses dois fenômenos são sentidos em países de toda a região. “Para essas nações, trabalhar junto com o Banco Mundial se tornou parte da solução para combater a mudança climática e ao mesmo tempo fomentar o crescimento econômico”, disse Cox à IPS/TerraViva.
Cox acrescentou que compartilha da frustração de muitos governos latino-americanos pelo caos financeiro, mas enfatizou que a região está melhor preparada para enfrentá-lo graças às suas relações comerciais diversificadas, sua fortalecida situação fiscal e seu crescimento econômico, estável nos últimos anos. “A região produz apenas 6% das emissões globais de gases, e apenas acima de 10% se incluirmos o desmatamento. Mas, já está sofrendo enormes perdas econômicas por causa da mudança climática”, ressaltou.
Cox lembrou que a região inclui cinco dos 10 países mais biodiversos do mundo (Brasil, Colômbia, Equador, México e Peru) e a área mais biodiversa por si só, a ladeira oriental da cordilheira dos Antes. Mais de 50% das florestas tropicais do mundo estão na América Latina, junto com 65% da biomassa de florestas tropicais. “Conservar estas matas é crítico não apenas para proteger a biodiversidade, mas também para capturar carbono e minimizar a mudança climática”, disse a vice-presidente do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe.
O informe do Banco Mundial retrata alguns cenários sombrios como resultado dos efeitos da mudança climática global na América Latina e no Caribe:
– Redução de geleiras: muitas geleiras andinas estão diminuindo, e algumas podem desaparecer completamente nos próximos 10 a 20 anos se não for adotada uma ação adequada. Na Bolívia, no Equador e Peru, este fenômeno pode afetar seriamente os fluxos estacionais de água.
– Morte de selvas tropicais: a floresta amazônica pode perder de 20% a 80% devido aos aumentos de dois a três graus na temperatura da bacia. Isto pode desatar a desertificação em vastas áreas da América do Sul e, inclusive, afetar a América do Norte.
– Aumento de doenças: os casos de malária na Colômbia duplicarão de aproximadamente 400 para cada cem mil habitantes nos anos 70 para 800/100.000 na década de 90. Um aumento da população em risco de contrair a dengue também é temido no Brasil, México, Peru e Equador. Há, ainda, o risco de doenças infecciosas se propagarem na Bolívia e no Panamá.
– Diminuição dos arrecifes de coral: a descolorização causada pelo aumento das temperaturas marinhas devasta as economias das ilhas caribenhas, pois tem impacto nas reservas pesqueiras e no turismo.
O estudo destaca que já há registro na região de redução das chuvas e aumento nas temperaturas por causa da mudança climática, e que são necessárias medidas urgentes para reduzir os impactos negativos sobre a economia, particularmente no setor agrícola. O informe aplaude os países da região por não cruzarem os braços e combaterem o aquecimento global por meio de um desenvolvimento econômico “verde” e de estratégias de mitigação e adaptação.
“A América Latina combina energias limpas mais do que outras regiões do mundo, com abundante produção hidrelétrica e uma dependência relativamente baixa do carbono. A região é líder mundial em transporte sustentável”, diz o estudo. O etanol brasileiro feito a partir da cana-de-açúcar é o biocombustivel mais competitivo do mundo, afirmou Cox. Isto por reduzir em 90% as emissões de gases causadores do efeito estufa ao substituir a gasolina. E, ainda, tem um impacto limitado nos preços dos alimentos. América Latina e Caribe também têm vários programas de eficiência energética que podem ser ampliados, disse Cox, mencionando, em particular, programas com resultados positivos no Brasil e México. (IPS/Envolverde)
(Envolverde/IPS/TerraViva)

