Pequim, 24/10/2008 – Colocada no papel de salvadora diante da crise mundial, a China será sede de uma reunião entre líderes asiáticos e europeus esta semana, na qual condenará o modelo anglo-saxão de capitalismo e pressionará por uma reforma da ordem econômica mundial. “A Ásia pode ser a melhor esperança?”, perguntou em seu editorial o semanário chinês editado em inglês The Economic Observer. Indicando que este continente quase não teve um papel durante a recuperação mundial da Grande Depressão em 1929, a publicação sugeriu que as estabelecidas e emergentes economias asiáticas constituem agora a melhor oportunidade de resgate após o “tsunami financeiro”. E “mesmo quando a morte de Wall Street não signifique de forma instantânea o triunfo do modelo asiático de Mahathir (Mohammad, primeiro-ministro da Malásia entre 1981 e 2002), é o começo do tão necessário ajuste do poder econômico no mundo”, concluiu o jornal.
Mais de 40 líderes estarão na capital chinesa para a VII Cúpula da Reunião Ásia-Europa (Asem) de sexta-feira e sábado para analisar a crise financeira e discutir um plano de ação conjunta. Além dos 27 países-membros da União Européia, 10 da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), da Comissão Européia, de China, Japão e Coréia do Sul, também estarão presentes outros três países asiáticos: Índia, Paquistão e Mongólia. As conversações serão co-presididas por China e França, que exerce atualmente a presidência da UE. “A China afirma que a comunidade internacional deve fortalecer sua cooperação e manejar em conjunto a atual crise financeira com base em uma consulta eqüitativa”, disse em Pequim o porta-voz da chancelaria, Qin Gang, mas, alertou que “os interesses e as preocupações dos países em desenvolvimento devem ser plenamente respeitados e salvaguardados”.
A China, uma grande economia emergente com US$ 1,8 bilhão em reservas de divisas, é considerada agora um importante ator para uma saída da catástrofe financeira. Funcionários do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos pediram a Pequim que mostre uma atitude positiva e participe de esforços conjuntos com o Ocidente para superar a pior crise desde a Grande Depressão. Qin Gang respondeu destacando que a China adotou “uma atitude responsável e construtiva”. Mas, poucos detalhes foram dados do papel que se espera da China de hoje. As últimas cifras econômicas indicam que a economia desse país também é vulnerável aos efeitos da paralisação global.
O Escritório Nacional de Estatísticas da China indicou esta semana que a economia cresceu 9% no terceiro trimestre deste ano, o menor índice dos últimos cinco anos. Em comparação, a economia cresceu 10,6% no primeiro trimestre e 10,1% no segundo. Esta queda foi atribuída à redução da demanda por bens chineses por parte dos consumidores nos Estados Unidos e na Europa, que diminuíram seus gastos. Nas últimas semanas Pequim se tornou mais crítica sobre a falta de vigilância financeira nas economias industrializadas, às quais responsabiliza pela crise.
O vice-governador do Banco Central da China, Yi Gang, que participou da reunião de emergência do Grupo dos 20 (bloco de nações em desenvolvimento) realizada no começo deste mês em Washington, repreendeu o Fundo Monetário Internacional por ter confiado em demasia no sistema e na obter exercido um controle nas instituições financeiras internacionais. O funcionário disse à imprensa que “a pobre disciplina financeira derivou em um excesso de liquidez mundial e fluxos desordenados de capital”. Com isto concordaram numerosos artigos e colunas na imprensa chinesa, tentando analisar as razões das quedas em Wall Street. Muitos falaram do fim da “era do Consenso de Washington”, como se conhece o grupo de políticas econômicas liberais impulsionadas na década de 90 pelos organismos de crédito com sede na capital norte-americana.
Mas, tampouco está claro o que poderia substituir a atual ordem de capitalismo internacional. “A morte do modelo anglo-saxão de Wall Street não significa uma vitória do modus operandi financeiro da China”, afirmou o XXI Century Economic Herald. “Mesmo quando criticamos os excessos de Wall Street, devemos saber que o modelo chinês de operações financeiras não é necessariamente a resposta. É verdade, os bancos chineses são estáveis e não perseguem lucros excessivos de forma cega. Mas, estão longe de serem livres dos trâmites burocráticos e da interferência administrativa”, afirmou. Segundo Qin Gang, a cúpula da Asem oferece a “plataforma perfeita” para que os líderes discutam vias de saída para a crise.
O primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Gordon Brown, propôs um sistema global de supervisão financeira que fortaleça os organismos internacionais, incluindo o FMI, para vigiar os mercados e atuar como um sistema de alerta. Por sua vez, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, um dos coordenadores da cúpula, prometeu usar a reunião como plataforma para convencer as nações asiáticas a participarem de um plano para reconstruir o capitalismo internacional. “O que ocorreu foi um ato de traição contra os valores do capitalismo. Não é um resultado da economia de mercado”, disse Sarkozy durante um discurso recente no Parlamento Europeu. “A solução mais simples” seria reunir o Grupo dos Oito países mais poderosos com as economias emergentes maiores, lideradas por China e Índia, disse aos europarlamentares.
Analistas chineses antecipam que a cúpula pode concluir com um acordo para criação de um fundo conjunto entre Ásia e Europa, semelhante ao lançado durante a segunda cúpula da Asem, realizada em Londres em 1998, para então combater a crise financeira do sudeste asiático. (IPS/Envolverde)

