ECONOMÌA: Países pobres sem proteção diante da crise

Washington, 17/10/2008 – A pior crise das bolsas de valores desde a iniciada em 1929 domina o ambiente financeiro nos Estados Unidos.

 - NYSE

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Mas os pobres do mundo raramente figuram entre as preocupações de tanta deliberação. E isto ocorre apesar de a crise ameaçar cada vez mais países pobres, por isso contê-la é uma prioridade com a qual estes coincidem. Os avanços arduamente alcançados pelos países em desenvolvimento nos últimos anos correm risco de se reverterem pela persistente e perniciosa crise financeira desatada desde os Estados Unidos, alertou o ministro das Finanças de Serra Leoa, David Carew.

Seu colega do Quênia, Johmn Michuki, cobrou aumento da ajuda como compensação pelos prejuízos que sofrem as nações em desenvolvimento por causa de uma crise da qual não são responsáveis. Michuki sugeriu que os governos dos países ricos devem ser cobrados por sua regulamentação “delinqüente” das instituições financeiras. “Quem compensará os países inocentes que sofrerão com essa bancarrota?”, perguntou. “No front político, o mundo impõe sanções aos países que parecem delinqüentes. Há algo mais sério no mundo do que a crise que enfrentamos hoje”, ressaltou.

Outro ministro das Finanças, Exiomí Menye, de Camarões, afirmou que o orçamento de assistência oficial, muito menor do que os compromissos assumidos pelos doadores, será reduzida ainda mais na medida em que aumentar o peso do resgate dos bancos e dos cuidados com a recessão sobre os fundos públicos das nações ricas. “No começo, se ficará com o guarda-chuva antes de dá-lo a quem está do lado”, disse Menye à imprensa na reunião anual conjunta do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, realizada em Washington entre os dias 11 e 13 deste mês. “A população dos países avançados têm problemas por causa das crises. Essas nações não correrão até a savana África par anos ajudar”, ironizou o ministro. Organizações humanitárias internacionais pressionam os governos dos países ricos para que façam precisamente isso.

“Cerca de US$ 1,8 bilhão foram encontrados em questão de semanas para resgatar os banqueiros de investimento. É escandaloso que os povos mais pobres do mundo, que sofrem todos os dias por causa do encarecimento do combustível e dos alimentos, ainda estejam esperando sua parte no resgate”, disse Shefali Sharma, da ActionAid. A assistência agrícola das nações ricas, pro exemplo, caiu para US$ 3,9 bilhões anuais, uma pequena parcela dos US$ 30 bilhões que, segundo a Organização das Nações Unidas, são necessários para que os países em desenvolvimento alcancem a segurança alimentar, calculou a ActionAid.

A crise alimentar mundial empurrou mais 100 milhões de pessoas para a pobreza, o que elevou o contingente de famintos do mundo para um bilhão, isto é, um em cada seis moradores do mundo. A organização humanitária Oxfam Internacional alertou que os governos de França, Itália e Espanha pareciam determinados a congelar seus orçamentos de ajuda aos países em desenvolvimento, e cobrou que, por outro lado, implemente um “resgate de assistência”. Se os doadores reduzirem em 25% seus orçamentos de ajuda, como fizeram com a recessão mundial dos anos 90, implicaria uma redução superior a US$ 25 bilhões, suficiente para privar de acesso à saúde mais de 700 milhões de pessoas, segundo a Oxfam. Além disso, o orçamento de ajuda direta ao desenvolvimento como proporção do produto interno bruto dos doadores cairia para 0,28%, muito abaixo do 0,7% reiteradamente prometidos desde a década de 70. Embora a economia mundial não esteja no limite da recessão, como afirma o FMI, até cem milhões de pessoas correm o risco de se converterem em pobres devido ao encarecimento de alimentos e combustíveis, afirma o Banco Mundial. “O grande aumento de preços dos alimentos e da energia e a inflação associada supõem grandes desafios políticos para a maioria das nações, que se complica” pela crise financeira, indica um informe apresentado pelo Comitê de Desenvolvimento, que assessora as duas instituições.

Alguns mercados emergentes e de países em desenvolvimento já acusaram o golpe: enfrentam um refluxo de capitais, maiores gastos, dificuldades para conseguir crédito e queda da demanda de suas exportações para o mundo industrializado. Os sistemas bancários dos países mais pobres sofrerão maior tensão se a crise persistir e se aprofundar, disse o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn. Ministros das Finanças do Grupo dos 24, que representa o Sul em desenvolvimento nos organismos financeiros multilaterais, voltaram a exigir do FMI maior controle e supervisão das economias dos países ricos, entre eles os Estados Unidos. Também reclamaram do FMI e do Banco Mundial dinheiro suficiente para que as nações pobres se resguardem da tormenta.

Michuki fustigou o FMI por não prever as conseqüências que teria a falta de regulamentação nos mercados financeiros norte-americanos e a bolsa que se formou em conseqüência. “Alguns de nós estamos muito preocupados porque a vigilância que deveria ser feita pelo FMI sobre os mercados parece não ter sido aplicada”, lamentou o ministro do Quênia. (IPS/Envolverde)

Abid Aslam

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