Genebra, 28/10/2008 – Os governos necessitam de apoio de seus povos para enfrentar a crise financeira e a melhor maneira de traduzir isso é através das opiniões da sociedade civil, disse Werner H. Schleiffer, coordenador do Congo, aliança de organizações não-governamentais de todos os continentes. A responsabilidade por uma solução recai agora sobre os governos, porque as forças do mercado demonstraram que não podem resolver as crises, acrescentou. Mas, tampouco os governos dispõem do vigor suficiente para esse desafio e terão de apelar à contribuição da sociedade civil, concluiu Schleiffer.
Com essa perspectiva, Congo (Conferência de Organizações Não-governamentais com Status Consultivo nas Nações Unidas) debaterá esta semana a atual crise financeira e seus efeitos econômicos, durante reunião nesta cidade suíça. O Fórum de Desenvolvimento da Sociedade Civil 2008 – nome da conferência – vai examinar também outras questões criticas que afligem a comunidade internacional, com a crise mundial de alimentos, com seus pormenores da sustentabilidade e soberania alimentar, bem como as ligações entre os direitos humanos e o desenvolvimento.
Congo havia se ocupado principalmente da crise financeira em um fórum semelhante feito em Nova York em junho, quando o fenômeno ainda se apresentava com uma magnitude menos ameaçadora. A declaração final adotada no fórum de Nova York mencionou “as desordens e incertezas financeiras mundiais”, mas em um segundo plano, após ressaltar os perigos das crises dos alimentos e da degradação ambiental. Porém, ao analisar a crise alimentar o texto já alertava para o “papel dominante das instituições financeiras internacionais em influenciar as estratégias de desenvolvimento nacionais”.
Congo exortou essas instituições a modificarem suas estratégias com a ótica de ajudar os países definindo suas prioridades sobre o terreno e empregado as experiências e os produtos dessas nações. Outro parágrafo do documento de Nova York demandava o reexame das negociações sobre agricultura que acontecem na Organização Mundial do Comércio, dentro da Rodada de Doha. Mas desde junho as crises de alimentos, energia e das finanças ganharam proporções tão grandes que na época não podiam ser antecipadas, disse Schleiffer à IPS.
Nas primeiras discussões políticas mantidas durante as sessões de abertura da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, em setembro, já ficou claro que esses temas figuravam em um nível culminante da ordem do dia da Assembléia Geral, disse o coordenador do Congo. O próprio secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, lhes atribuiu um caráter “de caso de urgência para o desenvolvimento”, ao indicar quer merecem uma cuidadosa discussão, recordou Schleiffer. Estas crises, que não desaparecerão da noite para o dia, não podem ser enfrentadas sem contar com a participação da sociedade civil.
A ONU e seus governos-membros não podem manejá-la sozinhos, necessitam de uma contribuição firme e determinada da sociedade civil, insistiu o especialista do Congo. Para desempenhar esse papel, o conselho administrativo do Congo, em consulta com suas organizações, decidiu aprofundar as discussões sobre esses temas e elaborar recomendações durante o fórum dos dias 27 e 28 de outubro. A questão da soberania alimentar é muito para as organizações integrantes de Congo, destacou seu coordenador. O outro tema, sobre a ligação entre direitos humanos e desenvolvimento, também exige tratamento aprofundado, disse Schleiffer. Isso salta à vista quando assistimos os movimentos especulativos que distorcem os mecanismos do mercado e apontam basicamente contra o povo, em especial contra as populações do Sul, acrescentou. Schleiffer admitiu que “nos sentimos inclinados a ver as conseqüências destas crises desde as perspectivas de nossas vidas cotidianas em países do Norte”. Mas, aqueles que mais sofrem, e de uma maneira enorme, são os do Sul. “Muito mais do que nós”, ressaltou.
Precisamente, delegados de movimentos-chave da sociedade civil da África, América Latina, Ásia e do Caribe foram convidados a participar do fórum, o que foi possível graças ao apoio financeiro do governo suíço, explicou. As autoridades do Congo encaram a reunião do fórum estimuladas pelos resultados obtidos durante sua participação no Segmento de Alto Nível, uma sessão que o Conselho Econômico e Social da ONU (Ecosoc) realiza alternativamente a cada ano em Nova York e Genebra.
Pela primeira vez, os representantes de Congo ou de suas organizações contaram com um tempo prolongado para expor suas posições nessa sessão, que constitui uma espécie de “parlamento econômico e social” da ONU, descreveu Schleiffer. Em outros anos falaram apenas um ou dois minutos, mas na última sessão tiveram uma hora e meia, afirmou. Outro aspecto animador para a Congo foi a aprovação entre membros da secretaria da ONU e representantes governamentais o documento de conclusões apresentado pela coordenadora da sociedade civil. O texto final das sessões do Ecosoc, destinado à Assembléia Geral da ONU, apresentava uma “semelhança surpreendente” com a declaração aprovada pela sociedade civil, afirmou Schleiffer.
As sessões do fórum foram abertas hoje pelo presidente do Congo, Liberato Bautista, dos Estados Unidos, e serão encerradas amanha pela primeira vice-presidente,m Anna Biondi, dirigente sindical italiana que representa a Confederação Sindical Internacional (CSI). IPS/Envolverde

