SOMÁLIA: Mulheres ‘Asseguram que a Vida Continua' nas Ruas Violentas de Mogadíscio

NAIROBI, 12/11/2008 – Shamso Abdulle: As mulheres podem movimentar-se com mais facilidade porque não pertencem a clãs. Crédito: Najum Mushtaq/IPS No quinto dia de todos os meses, um grupo de empresárias reúne-se para partilhar as suas experiências e discutir assuntos relacionados com o comércio. O que torna esta situação excepcional é o facto de estas mulheres serem provenientes da região centro e sul da Somália e de se reunirem em Mogadíscio, uma das cidades mais devastadas e perigosas do mundo. Com 780 membros registados, a maioria dos quais proveniente da região de Banadir, a Associação de Mulheres de Negócio de Banadir é liderada por uma mulher de negócio com grande experiência, Shamso Abdulle. Banadir é uma das oito unidades administrativas no centro e sul da Somália, que inclui a capital do país, Mogadíscio.

Mãe de nove filhos, coberta dos pés à cabeça por um elegante véu islâmico ou hijaab, e insistindo em falar apenas na sua linguagem materna, Abdulle representa uma história de sucesso empresarial pouco provável. O país na África Oriental onde vive não tem um Governo central há 17 anos.

A cidade onde vive tem sido assolada por uma guerra intestina interminável entre clãs de senhores da guerra e por intervenções militares estrangeiras.

"Quando comecei o meu negócio de importação de mobiliário e outras mercadorias da Índia em 1984, a Somália era um país diferente,’’ contou Abdulle à IPS em Nairóbi há duas semanas, onde participou num seminário sobre a economia de guerra da capital da Somália, organizado pelo Instituto Norueguês para a Pesquisa Urbana e Regional.

"Durante seis anos consegui ter uma actividade comercial normal, ganhar o suficiente para ser independente e expandir o meu negócio para outros locais como o Dubai.’’

Em 1991, eclodiu a guerra. O Estado entrou em colapso e começou a era dos senhores da guerra. Tal como aconteceu com a maioria dos outros comerciantes, Abdulle teve de abandonar o seu negócio e fugir da cidade.

"Tive de deixar Mogadíscio e viver com a minha família no mato durante meses. As minhas poupanças estavam a desaparecer rapidamente. Logo a que a luta baixou um pouco de intensidade, com a intervenção de uma missão das Nações Unidas, regressei à capital para a explorar a possibilidade de retomar o meu negócio,’’ recorda.

Quando regressou, descobriu que as regras e as normas de exploração empresarial tinham mudado completamente. O porto de Mosgadíscio estava fechado e não abriria até 2006, o que forçou as empresas a deslocarem-se para outros portos distantes como El Ma'an, Merka e Kismayo.

Em vez de regulamentos e instituições governamentais, os comerciantes tinham de negociar passagem segura para as suas mercadorais — e para eles próprios — junto de uma variedade de milícias. As transferências de dinheiro através de bancos tinham sido substituídas pelo sistema informal hawala, ou hundi.

Para as mulheres, era difícil conseguirem empréstimos dos grandes homens de negócio que não tinham qualquer garantia de reembolso ou de obterem um retorno desse empréstimo. O poder de compra do público tinha baixado; a violência e a insegurança eram elevadas, tal como continuam a ser até hoje.

Mas também havia uma grande oportunidade para as mulheres entrarem na actividade comercial.

"Uma das principais razões pelas quais há tantas mulheres comerciantes em Mogadíscio é o facto de muitos homens terem morrido no conflito ou terem perdido os empregos no funcionalismo público. Por outro lado, trabalhar como vendedores ambulantes ou lojistas é considerado abaixo da dignidade dos homens que, antes da guerra, trabalhavam como médicos, professors universitários e burocratas em Mogadíscio,’’ explica Abdulle.

"A maioria das mulheres foi forçada a entrar na actividade comercial para garantir a sobrevivência da família numa cidade caótica.’’

É também considerado aviltante para um homem somali fazer trabalhos domésticos como cozinhar, tomar conta de bebés e limpar a casa. As mulheres comerciantes, diz Abdulle, também têm de desempenhar os seus papéis tradicionais em casa.

Um outro motivo pelo qual o número de mulheres de negócio aumentou durante o conflito é o sentido de segurança relativo que as comerciantes gozam por comparação aos homens.

"As mulheres não pertencem a clãs e não estão envolvidas na luta. Transportam mercadorias e vendem-nas nas zonas da cidade e noutras partes do centro e sul da Somália onde os homens não conseguem vender,’’ esclarece Abdulle. "Podem tirar partido das piores condições.’’

Em 2000, as mulheres de negócio de pequenos e médios rendimentos juntaram-se para formar uma associação que visava proteger e promover comerciantes do sexo feminino. Abdulle divide os membros do seu grupo em diversas categorias.

A maioria das mulheres comerciantes em Mogadíscio vende qat ou miraa, uma planta moderamente narcótica cujas folhas e caules são mastigados durante horas por pessoas em toda a Somália (e noutras partes da região) como passatempo. Grandes quantidades de qat são importadas do Quénia e da Etiópia e depois vendidas principalmente por vendedoras e lojistas do sexo feminino.

"É comum a pilhagem de remessas de miraa do aeroporto para o mercado. Têm de passar por cerca de 50 barricadas na estrada ou pontos de controlo e o qat é talvez a mercadoria mais procurada na cidade,’’diz Abdulle, descrevendo as dificuldades que as mulheres comerciantes enfrentam todos os dias na cidade.

Recorda-se que, embora houvesse paz durante o breve interregno de seis meses de regime da União dos Tribunais Islâmicos em 2006, foi uma má altura para as mulheres comerciantes

"Não só tinham banido a venda de qat mas a União dos Tribunais Islâmicos também queria que todas as mulheres ficassem em casa e impôs duras restrições sobre elas.’’

Depois existem mulheres que se aventuram no mercado apenas para "ver se têm sorte’’ a vender géneros alimentares. Uma outra categoria inclui as waqda, ou vendoras, que receberam algum empréstimo dos grandes homens de negócio e estão a tentar pagá-lo através de pequenos restaurantes ou como vendedoras de retalho.

As mulheres também vendem bidões de gasolina. Os produtos têxteis e o mobiliário representam uma outra área de actividade comercial para as mulheres.

"Muitos dos nossos membros transportam mercadorias aos ombros visto que não têm lojas e não podem alugar um ponto de venda. Estas comerciantes itinerantes fazem parte essencial da economia de Mogadíscio. Uma grande maioria de mulheres comerciantes mal consegue ter o mínimo para sobreviver e continua a ser pobre. Mas elas estão a tentar sair dessa situação.’’

Ela própria pertence ao outro lado do espectro, embora se descreva como mulher de negócio de nível médio. Viajante regular ao Dubai, Índia e outros países, Abdulle identifica diversos problemas que as mulheres comerciantes somalis enfrentam no terreno.

"Claro, a insegurança na Somália, particularmente em Mogadíscio, constitui a maior ameaça. Mas no terreno as mulheres de negócio somalis também sofrem devido à falta de aptidões básicas. A maioria é analfabeta e precisa da ajuda dos homens para fazer contas básicas e comunicar com o mundo exterior.’’

Portanto, explica Abdulle, o desenvolvimento de capacidades, especialmente a nível de educação e do inglês, é uma das actividades centrais da sua associação.

"Apesar da sua contribuição para o comércio em Mogadíscio mau grado as dificuldades e as condições extremamente violentas, as mulheres continuam sem voz,’’ observa Abdulle, acrescentando que não há representação feminina no principal conselho da comunidade empresarial de Banadir, composto por 75 membros.

"Sem a participação das mulheres, a economia de guerra de Mogadíscio não podia ter sobrevivido ao conflito constante. Desde a limpeza das ruas até à venda de artigos essenciais como produtos alimentares e qat, as mulheres são cruciais para que a vida continue no meio do violento caos de Mogadíscio.

"Chegou a altura de também elas terem uma voz no principal órgão decisor dos homens de negócio,’’ conclui Abdulle.

Najum Mushtaq

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