AGRICULTURA-MERCOSUL: Jovens que amam a terra

Rio de Janeiro, 26/11/2008 – Ao contrário da geração de seus avós, jovens camponeses do Mercado Comum do Sul (Mercosul) asseguram que querem viver dos frutos da terra onde nasceram, sem emigrar para cidades que já não têm lugar para eles.

 - FIDA

- FIDA

Mas, pedem políticas públicas que garantam sua sobrevivência. Se assim não for, o caminho para seu sonho irá encosta abaixo. Nelson Villar é um pequeno produtor de Los Choapinos, na central sexta região do Chile. Aos 21 anos, aproveita cada palmo de seu meio hectare e de outros dois que arrenda quando necessário, onde cultiva cereja e framboesa.

Mas nessa área, onde até há pouco tempo havia 21 famílias com média de cinco hectares que viviam da terra como ele, agora apenas restam duas. “A cidade está indo para o campo”, queixa-se Nelson ao se referir às duas indústrias exportadoras que se instalaram no lugar após comprarem as propriedades de pequenos produtores, em um processo que agravou a concentração da propriedade da terra em Los Choapinos. Essas indústrias, por outro lado, contaminam com suas atividades a produção agrícola à sua volta, assegurou o jovem.

Nelson é um dos 39 participantes do Curso de Formação de Jovens Rurais, realizado por ocasião da X Reunião Especializada sobre Agricultura Familiar do Mercosul (Reaf) que acontece entre 22 e 27 deste mês no Rio de Janeiro. Janet Salazar, de 25 anos, é outra participante. Ela vive da horticultura junto com sua família na província argentina de Jujuy. Ali trabalham uma área de cinco hectares. Como Nelson, Janet quer ficar no campo, onde, desde pequena, aprendeu brincando a amar a terra. “A maioria dos jovens parte por falta de oportunidades”, não porque querem viver em uma cidade que “já está cheia”, isto é, que não lhes oferece oportunidades de emprego, afirma a jovem.

O curso no Rio de Janeiro lhes dá a possibilidade de trocar experiências com outros jovens e com organizações a autoridades de Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Chile, países integrantes do Mercosul. O objetivo é, segundo os organizadores, construir uma agenda da juventude rural para a proposta de políticas públicas adequadas às suas necessidades, explicou à IPS Álvaro Ramos, coordenador Regional do Programa Fida (Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola) para o Mercosul. Esta instância conta com segmentos dedicados ao acesso à tecnologia e à mercadotecnia, bem como outros ramos mais conceituais, como análise do processo de “estrangeirização da terra”.

Começar pelos jovens tem razões estatísticas. Segundo um dos professores do curso, o paraguaio Luis Caputo, mais de 50% dos trabalhadores rurais da América Latina têm menos de 30 anos. Mas as razões são, sobretudo, “estratégicas”, disse Ramos. Na região “cresce progressivamente a idéia de que as políticas” em matéria de agricultura familiar não devem se restringir à “conjuntura” ou a uma estratégia “compensatória”, mas “integrarem o modelo econômico”, afirmou. Nesse sentido, segundo o funcionário do Fida, os jovens camponeses são “agentes inovadores” e “atores sociais” capazes de reproduzir novos modelos que fortaleçam esse sistema de produção.

Ramos afirma que, diante de um modelo tradicional que não dá um papel relevante à agricultura familiar, a tendência é a emigração para a cidade, motivada pela “busca de melhores opções de trabalho, tecnológicas e sociais”. E, acrescentou, “é preciso reverter esse processo com mudanças no campo, com medidas de longo prazo que produzam a inclusão social destes jovens no meio rural”. Por sua vez, o argentino Favio Pirone, um dos coordenadores do curso, disse que “queremos que os jovens não pensem apenas em políticas para a juventude rural, mas também questões de gênero, de acesso à terra e na reforma agrária, nos seguros agrícolas e na facilitação do comércio”.

Na Reaf informou-se que os agricultores familiares representam cerca de 80% da população rural do Mercosul. Este setor da população é responsável por 60% dos alimentos consumidos na região. Portanto, trata-se de um grupo-chave na definição de estratégias de segurança alimentar na América do Sul, segundo os organizadores da conferência. “Estamos despertando”, comemora a Paraguai Gabriela Maria Zarate Riquel, de 20 anos, que tenta mobilizar outros jovens de sua região. Seus vizinhos “não crêem em nada. Estão desanimados porque, embora queiram permanecer no campo, não contam com ajuda para trabalhar, para obter capacitação técnica e nem crédito”.

Gabriela, que também estuda direito para aplicá-lo no futuro aos problemas rurais, se mostra indignada pelo comentário de um conhecido segundo o qual escolheu essa carreira para não ser camponesa como seu pai. “Amo a terra, como meu pai, que me transmitiu esse valor”, enfatizou Gabriela, que com sua família planta, em uma área de dois hectares, melões e tomates destinados à venda, e outros alimentos como mandioca e milho para consumo familiar. Os três jovens enumeraram múltiplas demandas de sua geração, muitas iguais às de seus pais: mais crédito, ajuda para comprar fertilizantes “caríssimos”, políticas de comércio e cursos, escolas e universidades nas áreas rurais. Também reclamam mais terras, uma tecnologia adaptada às necessidades do pequeno camponês, moradia digna e regularização dos contratos de posse e arrendamento de fazendas, entre outros.

Janet resume essas demandas com uma única frase: “Um plano para arraigar os jovens no campo”. E explica: “quando nossos avós se foram para as cidades era foque nessa época havia oportunidades, pois estavam construindo uma indústria”. Mas, agora, “os jovens camponeses que tiveram de partir voltam indignados porque não há oportunidades de trabalho para eles, e porque são apontados como marginais por serem camponeses, embora produzam insumos para as cidades. Eles acabam dizendo: quero voltar ao lugar de onde vim”, concluiu Janet. E é precisamente ali, onde Grabriela, Janet e Nelson querem ficar, sem precisar partir. (IPS/Envolverde)

Fabiana Frayssinet

Fabiana Frayssinet nació en Buenos Aires, Argentina. Ha colaborado con IPS desde 1996, abordando con reportajes y crónicas la realidad brasileña. Se desempeña como corresponsal extranjera desde 1989, primero desde América Central y luego desde Brasil, donde se instaló en 1996, colaborando con medios internacionales de radio, televisión y prensa: CNN en Español, Univisión, Telefé de Argentina y los servicios latinoamericanos de Radio Suecia y de Radio Nederland.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *