DESTAQUES: Inventário da destruição cultural do Mitch

TEGUCIGALPA, 18/11/2008 – (Tierramérica).- Historiadores, restauradores, cineastas e geógrafos investigam e documentam o dano causado pelo Furacão Mitch no patrimônio cultural hondurenho.

Vista de Tegucigalpa. - Photo Stock

Vista de Tegucigalpa. - Photo Stock

Quando o Furacão Mitch assolou Honduras e boa parte do resto da América Central, em 1998, a dimensão do desastre impediu notar que os ventos e as chuvas arrasaram também o patrimônio cultural, artístico e histórico. Entre 22 de outubro e 5 de novembro daquele ano, Mitch se movimentou pelo Mar do Caribe, América Central, sul do México e dos Estados Unidos. Em Honduras, deixou 6.500 mortos e cerca de nove mil desaparecidos, mais de 300 mil desabrigados, 60% da rede viária destruída e aproximadamente US$ 4 bilhões em perdas econômicas. Nos anos seguintes não houve espaço para observar outros danos.

“Nos esquecemos dos eventos que marcaram esse calendário histórico que o Furacão Mitch produziu e nos deixou, sobretudo para recordar quem somos, de onde viemos e para onde vamos”, disse ao Terramérica o historiador Darío Euraque, diretor do Instituto Hondurenho de Antropologia e História (IHAH). Euraque e um grupo de historiadores, restauradores, cineastas e geógrafos assumiram a tarefa de investigar e documentar o impacto do Mitch no patrimônio cultural hondurenho, uma década depois. Não é fácil, “porque quase não há escritos, a literatura crioula é muito escassa e isso nos apresenta o enorme desafio de como resgatar o perdido para começar a construir a memória futura”, afirmou.

Segundo o registrado até agora, os maiores danos foram a destruição do patrimônio documental. A historiadora Daniela Navarrete diz que “é normal nos centrarmos nas vidas humanas, estradas, casas e outras coisas; tudo isso é parte da vulnerabilidade”, mas esta também “passa por nossa riqueza cultural, e essa reflexão pluridisciplinar ainda não fizemos”, disse ao Terramérica. Os antigos bairros de Tegucigalpa – El Éden, Concordia, Miramesí, El Jazmín e Barrio Abajo – foram muito afetados pelo Mitch. E no mês passado, quando caíram temporais que causaram prejuízos superiores a US$ 100 milhões, moradores dessas regiões tiveram de ser desalojados porque foram detectadas falhas geológicas.

O prédio da igreja católica San Cayetano, em El Éden, ruiu diante do olhar impávido dos moradores, que tentavam voltar para suas casas, apesar das rachaduras no solo e nas construções. El Éden, Miramesí e La Concordia, parte do centro histórico, apresentam falhas desde o século passado e encerram enormes riquezas culturais. No dia 7 deste mês, o IHAH apresentou a obra “Um balanço qualitativo do Furacão Mitch”, da escritora hondurenha Letícia Oyuela, falecida há menos de um ano. No livro Oyuela recorda a origem de Tegucigalpa como centro minerador – fundada pelos espanhóis em 1578 sobre um povoado já existente –, o motivo de sua localização em uma zona montanhosa e de suas ruas estreitas e empinadas que davam a sensação de uma urbe incrustada no coração da montanha, rodeada por florestas de pinho.

Essas florestas já não existem, substituídas por subúrbios marginalizados. O desmatamento incidiu na perda do clima fresco e do ar puro da capital, que fica 990 metros acima do nível do mar. Essa configuração de novos centros urbanos, diz Navarrete, se agravou após a passagem do Mitch. Hoje são conhecidos como as “colônias do Mitch”, e mostram a falta de planejamento urbano e o nascimento de um tecido social que não foi analisado. O Instituto Nacional de Estatísticas divide os centros urbanos em três categorias: grandes, médios e pequenos. Para isso, devem ter mais de 2.500 habitantes, e serviços básicos como água, energia e esgoto. Presume-se que após o Furacão pelo menos 80 de quase cem centros urbanos identificados sofreram grandes danos, deterioração do patrimônio cultural e, sobretudo, perda de arquivos.

O transbordamento do caudaloso Rio Choluteca, que cruza Tegucigalpa, arrasou bibliotecas, cartas familiares, móveis antigos, casas coloniais do século XVII, que caracterizavam o bairro andaluz de Joya, e o museu de pintura da poeta e escritora Clementina Suárez (1902-1991). Da coleção de Suárez, foram resgatadas apenas 20 obras, incluídas valiosas telas de artistas salvadorenhos, hondurenhos e costarriquenhos. O IHAH está restaurando cinco dessas peças. O Choluteca destruiu o histórico centro que abrigava os escritórios da empresa estatal de eletricidade, cujos muros foram arrancados inteiramente. Salvou-se o mural do pintor Arturo López Rodezno, alusivo às relações de produção e exploração trabalhista, hoje perdido no abandono e destinado a abrigar vagabundos e crianças de rua.

Somente agora “entendemos que os furacões não ficam no litoral, devemos nos educar para o risco e a para a proteção do patrimônio cultural porque ficaremos sem história se não aprendermos as lições”, disse o geógrafo Ramón Rivera, da Universidade Nacional Autônoma de Honduras. Os desastres naturais podem ter causado o desaparecimento do império maia, que teve no ocidente hondurenho um de seus principais assentamentos, recordou Navarrete. “Não queremos que isso se repita”, ressaltou.

* A autora é correspondente da IPS.

Thelma Mejía

Thelma Mejía escribe para IPS sobre Honduras desde 1987. Con 24 años de ejercicio periodístico, fue jefa de redacción del diario El Heraldo, escribió varios ensayos y el libro "Noticias inéditas de una sala de redacción", y es columnista del diario digital hondureño Proceso.hn. Licenciada en periodismo en la estatal Universidad Nacional Autónoma de Honduras (UNAH), tiene también una maestría de Teorías Políticas y Estudios Sociales de la UNAH y la Universidad de La Habana. Tiene dos diplomados en periodismo de investigación y ha sido docente universitaria de periodismo de investigación y acceso a la información pública. Se ha desempeñado también como consultora de las Naciones Unidas, el Banco Mundial y centros de investigación académica de su país, Costa Rica y Argentina, en gobernabilidad, derecho y acceso a la información pública, derechos humanos, libertad de expresión y medios de comunicación. Su cuenta en Twitter es @soberanasur.

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