EDUCAÇÃO-AMÉRICA LATINA: É preciso cuidar do que já foi conquistado

Santiago, 27/11/2008 – Em meio à crise financeira internacional, os países da América Latina e do Caribe devem proteger os importantes progressos, embora ainda insuficientes, alcançados dentro da iniciativa de Educação para Todos (ETP), informou a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. A Unesco apresentou esta semana em Genebra o “Informe de Acompanhamento da Educação para Todos (EPT) 2009”. A parte referente à América Latina foi divulgada em Santiago do Chile.

“A principal conclusão é que a América Latina é uma das regiões do mundo mais adiantadas e com melhores possibilidades de alcançar as metas de EPT até 2015. Mas, há um problema muito sério de igualdade”, disse à IPS o diretor do Escritório Regional da Unesco, o costarriquenho Jorge Sequeira. “No caso da educação primária, os êxitos são muito interessantes, mas, temos de protegê-los porque há uma crise financeira que vem de cima e pode colocá-los em risco”, afirmou.

Os seis objetivos da EPT foram acordados pela comunidade internacional em 2000 em Dakar, (Senegal) para serem alcançados até 2015. Estes são atenção e educação da primeira infância, ensino primário universal, atenção às necessidades de aprendizagem dos jovens e adultos ao longo de toda a vida, alfabetização dos adultos, igualdade entre os sexos e qualidade da educação.

Antes da crise financeira e econômica internacional, os indicadores mostravam que nem todas as metas da EPT seriam cumpridas pela região até 2015, “embora alguns países, como o Chile, estejam muito perto”, explicou Sequeira. A crise pode aumentar o tempo necessário para atingir os objetivos, ressaltou. O documento indica que a educação pré-escolar experimentou um rápido desenvolvimento nos últimos 10 anos. Enquanto em 1999 havia 16,4 milhões de meninos e meninas neste nível, em 2006 somavam 20,3 milhões, equivalente a uma taxa bruta de escolarização de 65%.

No México, em Cuba e algumas ilhas do Caribe, a cobertura chega a quase 100%, mas em importantes países sul-americanos, como Bolívia, Chile e Colômbia, é inferior a 60%. Mais atrás ficam países como Honduras com 38% de taxa bruta de escolarização, Paraguai (34%) e Guatemala (29%). Quanto à educação primária, o informe diz que 94% das crianças em idade de cursar esse nível o fazem efetivamente. Em 2006, eram 2,6 milhões que não iam à escola.

Entre os obstáculos no caminho para atingir a meta figuram trabalho infantil, deficiências no sistema de saúde e falta de capacitação. Além disso, estima-se que os governos da América Latina e do Caribe gastam por ano US$ 12 bilhões devido à repetição de cursos em razão das salas adicionais que o fenômeno gera. Também há uma tendência crescente para a expansão da educação secundaria. Atualmente, há 59 milhões de jovens cursando este nível, uma taxa bruta de escolarização que fica próxima dos 89%.

Com relação à educação superior, o documento diz que em 2006 havia na América Latina e no Caribe 16,2 milhões de estudantes matriculados. Entre 1990 e 2006, a taxa bruta de matrícula média passou de 21% para 31%, mas esta oscila de 3% em Belize a 88% em Cuba. “No momento de entrar no ensino superior é que ficam mais claros os efeitos conjugados das desigualdades no acesso ao primário e na finalização dos estudos deste ciclo, bem como a progressão através do ciclo secundário”, explica o informe.

“No Brasil a porcentagem de negros com idades entre 19 e 24 anos matriculados na universidade chega a 6%, enquanto entre os indivíduos da raça branca do mesmo grupo etário essa porcentagem é de 19%”, diz o estudo. Dos seis objetivos da EPT, um dos mais atrasados é a alfabetização de adultos: entre 2000 e 2006 havia na região cerca de 36,9 milhões de adultos analfabetos. Além disso, em termos de paridade de gênero, a região mostra menor presença de homens no ensino secundário e terciário.

Para por fim a esta situação são necessárias políticas docentes integrais, que considerem salários dignos, melhores condições de trabalho, formação permanente, adequada avaliação de sem desempenho e incentivos especiais para trabalhar em condições difíceis, entre outros. Um dos assuntos que mais preocupa a Unesco neste momento de crise financeira e econômica, com projeções de crescimento em baixa nos países da região, é que os governos reduzam seus orçamentos para a educação.

“A mensagem para os governos é, primeiro, que considerem o investimento no atual sistema de educação de forma tão importante quanto antes, mas que também considerem pautas para proteger os progressos alcançados em alguns países, com muitas dificuldades, nos últimos oito anos. Proteger o que já se obteve é tão importante quanto continuar avançando”, concluiu Sequeira. (IPS/Envolverde)

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *