ELEIÇÕES-EUA: Obama sem poder para pressionar a China

Pequim, 07/11/2008 – A China parece ter se contagiado pela euforia mundial pela consagração de Barack Obama como presidente eleito dos Estados Unidos. Mas, analistas alertam que Pequim pode adotar uma posição firme perante seu governo, que começará em 20 de janeiro. O presidente chinês, Hu Jintao, disse que o mundo entrou em uma “nova era histórica” e o jornal do Partido Comunista, o Diário do Povo, afirmou que “Obama fez um milagre”. Tanto Hu quanto o primeiro-ministro, Wen Jiabao, enviaram mensagens de felicitações ao presidente eleito. “Nesta nova era, espero que nossas relações bilaterais de cooperação alcancem uma nova dimensão. O desenvolvimento de vínculos perduráveis e saudáveis servirá aos interesses dos povos dos dois países”, dizia a mensagem de Hu.

Por sua vez, analistas chineses aclamaram a vitória de Obama como sinal do surgimento de um novo país, mais “reflexivo” e “humilde”. O “triunfo significa que os Estados Unidos têm a possibilidade de refletir sobre seus erros passados e realizar mudanças”, afirmou o colunista Chen Bing. “É óbvio que estão buscando respostas para muitas perguntas, Comissão Européia a guerra no Iraque e a crise financeira, mas, também para questões de raça e religião em sua sociedade”, acrescentou.

Shi Yinhong, diretor de Estudos dos Estados Unidos, da Universidade de Renmin, acredita que a crise financeira deu uma lição a esse país e que a vitória de Obama não poderá mudar o fato de que seu governo já não está em posição de impor condições. “Nunca vi o restante do mundo tão crítico em relação à superpotência”, afirmou. “Uma coisa é fazer frente à oposição mundial pela guerra no Iraque, e outra muito diferente é os Estados Unidos não poderem com sua própria economia”, acrescentou.

Obama prometeu restabelecer a posição de seu país na comunidade internacional e proteger os interesses das empresas norte-americanas no mundo. Nas semanas anteriores à eleição estiveram marcadas por endurecimento da retórica em relação a China em matéria de comércio, mudança climática e direitos humanos. Obama prometeu um enfoque “enérgico e pragmático” a respeito da taxa de juros, dos direitos de propriedade intelectual e da segurança na fabricação de produtos. “A China não pode permanecer indefinidamente à margem da tendência democrática mundial, do direito e dos direitos humanos”, escreveu em um artigo publicado pela Câmara de Comércio Norte-Americana na China.

Obama esteve a favor de boicotar a cerimônia dos Jogos Olímpicos de Pequim em agosto e criticou o presidente George W. Bush por comparecer. Também se mostrou decepcionado com o manejo da crise tibetana por parte de Washington. Bush “não foi suficientemente agressivo ao exortar o governo chinês a fazer concessões”, afirmou, referindo-se às conversações de Pequim com o líder espiritual tibetano Dalai Lama. Mas Pequim não está com humor para tolerar as críticas dos Estados Unidos como no passado. O 44º presidente norte-americano enfrenta uma China cada vez mais confiante e enérgica, consciente de que a fortaleza econômica desse país no mundo ficou dizimada após a crise financeira.

Washington tem poucas chances de transformar radicalmente as relações com Pequim. E o governo chinês já fez saber que resistirá às suas pressões em matéria de comércio e mudança climática. Na semana passada a China divulgou um documento político sobre aquecimento global no qual exorta os Estados Unidos e outros países ocidentais a apoiar a transferência de fundos e tecnologia para as nações em desenvolvimento. Além disso, Pequim cobrou de Washington que reduza suas barreiras comerciais e de investimentos e a deixar de responsabilizar a China pelo desequilíbrio na balança comercial bilateral. A China tem um elevado superávit com os Estados Unidos.

Especialistas afirmam que Obama deixará de lado a firmeza exibida em sua campanha eleitoral em relação à China, até adotar um enfoque mais calmo e moderado, de acordo com a complexidade das relações entre os dois países. “As relações bilaterais terão novos elementos, mas nas grandes questões continuarão iguais”, disse ontem o especialista em assuntos dos Estados Unidos Liu Weidong. “Nossas economias são interdependentes. Washington precisa da ajuda de Pequim em matéria de segurança internacional. Nenhum presidente norte-americano pode esquecer isso”, acrescentou.

O novo governo dos Estados Unidos respeitará as políticas chinesas vigentes, disse o assessor mais importante de Obama para a China, Jeffrey Bader, antes das eleições. “No centro das futuras relações entre os dois países há desafios comuns, com a ameaça nuclear, o terrorismo no Afeganistão e Paquistão, o aquecimento, a segurança energética e o vínculo com os países africanos”, disse Bader. Obama tratará os assuntos chineses de “forma mais modesta e pragmática”, assegurou.

O governo Bush conseguiu promover maior grau de entendimento de alto nível com Pequim, mediante conversações regulares através do Diálogo Econômico Estratégico. Especialistas chineses acreditam que o governo de Obama deverá promover os mecanismos existentes e investir mais esforços em conhecer melhor suas contrapartes chinesas. “O mundo está diante de uma recessão e ambos devem se preparar para um longo inverno”, disse Zhang Guoqing, professor de relações internacionais da Universidade de Pequim. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

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