Uxbridge, Canadá,, 04/11/2008 – Diminutos exemplares de salmão jovem foram rastreados eletronicamente pela primeira vez desde seus rios natais nas montanhas Rochosas até 2.500 quilômetros mais ao norte, no Alasca. “Estamos acendendo as luzes nos oceanos”, disse entusiasmado Jim Bolger, biólogo marinho do Aquário de Vancouver. “É muito emocionante. Com esta nova tecnologia, os cientistas finalmente pode ver como as mudanças nos oceanos afetam os peixes e outras espécies”, disse Bolger à IPS.
A nova tecnologia consiste em uma serie de receptores acústicos eletrônicos instalados ao longo do fundo do oceano, estendendo-se por 1.750 quilômetros deste o Estado norte-americano do Oregon, através da província canadense de Columbia Britânica, em direção ao norte, até o Alasca. Os peixes e outras espécies têm transmissores implantados, e os receptores captam seus sinais individuais durante o trajeto. Os transmissores são do tamanho de uma amêndoa, e podem ser implantados cirurgicamente em salmões jovens medindo menos de 14 centímetros de comprimento. Na medida em que se aproximam, os receptores registram o número de serie que identifica os transmissores – que é único – bem como data e hora.
Os padrões de movimento dos animais individualmente, incluindo direção e velocidade, podem ser reconstruídos usando a hora de registro em diferentes receptores e outras cortinas de escuta eletrônica. “Vários mistérios da migração e sobrevivência de peixes podem começar a ser revelados em breve”, disse Bolger, diretor-executivo do Projeto de Rastreamento na Plataforma do Oceano Pacifico (Post), que é parte do internacional Censo da Vida Marinha. Um desses mistérios é para onde vai o salmão após abandonar os rios onde nasce.
Para tentar responder essa pergunta, em 2006 os pesquisadores implantaram transmissores em mil exemplares jovens de salmão Chinook (Oncorhynchus gorbuscha) e acompanharam suas viagens pelos rios Columbia e Fraser usando os receptores do Post. Entre os muitos estudados, dois sobreviveram a um trajeto de 2.500 quilômetros que demorou mais de três meses, desde a parte superior do rio Snake (tributário do rio Columbia) no Estado norte-americano de Idaho, em direção ao mar e depois com rumo norte, ao longo da plataforma continental, até o Alasca. É o que estabelece um estudo publicado na semana passada na revista Public Library of Science Biology.
Segundo Bolger, o mais surpreendente de tudo foi que os salmões procedentes do rio Fraser, cujas águas fluem livremente, sem represas, no Canadá, sofreram os mesmos elevados níveis de mortalidade que aqueles que seguiram através das oito represas do sistema do rio Columbia. De fato, no Columbia sobreviveram mais, considerando distancia e tempo do trajeto. E a sobrevivência foi maior durante a migração dentro do sistema hidrelétrico do que no setor das represas. “Isto sugere a pergunta sobre fatores desconhecidos no sistema Fraser que podem ter impacto nos exemplares juvenis”, disse Bolger, co-autor do estudo.
Os resultados de pesquisas anteriores sobre o esturjão branco (Acipenser transmontanus) também surpreenderam os cientistas, que dessa forma ficaram sabendo que os peixes grandes, que obtêm seu alimento no fundo do mar, migravam desde o rio Sacramento (no Estado norte-americano da Califórnia) para o Fraser, quase mil quilômetros ao norte, no Canadá. “Pensávamos que o esturjão do Fraser era local e que não havia problema em pescá-lo”, explicou Bolger. Nos Estados Unidos, esta espécie é cuidadosamente regulada, mas ninguém sabia que migrava para o Canadá.
“Levem aonde levarem as futuras pesquisas sobre estas perguntas, a tecnologia eletrônica e acústica demonstrou ser uma ferramenta útil para obter dados científicos únicos, de importância em vários terrenos nas políticas públicas”, disse David Welch, da Kintama Research, em Nanaimo (Columbia Britânica), que liderou os estudos sobre o salmão. Ainda este ano serão implementadas continuas de escuta eletrônica semelhantes ao longo da costa nordeste. Também estão em estudos outras duas entre Florida e Cuba e uma entre a mexicana península de Yucatán e Cuba. A esperança é cobrir boa parte da plataforma continental do mudo em um dia, disse Jessé Ausubel, da Universidade Rockfeller, que integra o conselho administrativo do Post.
“Temos uma tecnologia de trabalho e é economicamente acessível. A esperança é ter um sistema de controle em todo o mundo”, disse Ausubel à IPS. Esse tipo de rede de rastreamento pode revelar os mistérios sobre o lugar para onde vão os peixes e quantos podem sobreviver nos oceanos, e pode ajudar no manejo de pescas e nos esforços de conservação. Existem enormes controvérsias ao longo das zonas costeiras da África e de outros lugares sobre qual país é “dono” de certas reservas pesqueiras, acrescento. “Saber para onde os peixes vão é uma pergunta-chave que necessita de resposta”, enfatizou Ausubel.
Saber para onde migram as espécies, onde se alimentam e se reproduzem é vital para os esforços de conservação e manejo. Ausubel espera que na próxima década exista uma Rede de Rastreamento Eletrônico que cubra plataformas continentais, bem como o oceano aberto. É preciso um aparelho de rastreamento diferente para peixes como o tubarão, que atravessam oceanos inteiros. O transmissor em oceano aberto é como um cartão pessoal: não só identifica o peixe especifico como também registra todo tipo de dados sobre onde esteve, bem como dados de qualquer outro peixe com transmissor que tenha circulado por perto. Desse modo, quando qualquer peixe estiver suficientemente próximo de um receptor flutuante, toda esta informação será descarregada. Para as espécies que sobem à superfície, os dados serão transferidos via satélite.
O primeiro destes novos transmissores será implantado em tubarões-salmão (Lamma ditropis) no próximo ano, perto do Havaí. Se tudo correr bem, os cientistas poderão determinar sua rota de migração para o golfo do Alasca. Com os salmões também portando transmissores, será possível realizar o primeiro estudo em tempo real das interações entre predador e presa, explicou Ausubel. “Estes resultados da América do Norte têm implicações globais, e serão de interesse de Chile, Rússia, Japão, Índia e Irlanda, isto é, em cada nação onde os peixes migram de água doce para água salgada”, concluiu Víctor Gallardo, vice-presidente do Censo da Vida Marinha. (IPS/Envolverde)

