ECONOMÍA: Banco Mundial e FMI ignoram cúpula de Doha

Nações Unidas, 28/11/2008 – As máximas autoridades do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial estão sob fogo pesado por sua decisão de não participarem da conferência sobre financiamento do desenvolvimento que acontecerá no próximo final de semana em Doha, capital do Qatar. “Não irão”, disse Miguel D’Escoto Brockmann, presidente da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, que convocou o encontro. Sem mencionar nominalmente os Estados Unidos, acrescentou que as duas instituições financeiras “estão controladas por um membro da ONU que é contra” o fórum mundial. “É uma vergonha”, ressaltou.

O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, e o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, não irão à reunião, que foi elevada à categoria de cúpula após a confirmação da presença de numerosos chefes de Estado e de governo. A conferência, que acontecerá entre 29 deste mês e 2 de dezembro, contará com a presença de mais de 40 mandatários, entre eles os da França, Espanha, Coréia do Sul, Turquia, África do Sul, Japão, Austrália, México e possivelmente Brasil. A resolução da ONU que convocou a conferência sobre financiamento do desenvolvimento indica que deve realizar-se “no máximo nível político possível, incluindo a participação de chefes de Estado e de governo, ministros e representantes especiais”.

D’Escoto não recebeu uma notificação oficial sobre as ausências de Zoellick e Strauss-Kahn. “Escreveram ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, mas não para mim”, disse à imprensa na terça-feira. “Naturalmente, eles não dirão que eu não existo. É a Assembléia Geral da ONU que não existe para seus olhos”, acrescentou. Nas conferências internacionais, é o presidente da Assembléia Geral, eleito pela votação de todos os países que integram as Nações Unidas, que desfruta do maior status diplomático, inclusive mais alto do que o de Ban, segundo um funcionário da ONU. Entende-se que D’Escoto, e não Ban, representa os 192 Estados-membros.

Neste sentido, considera-se que sua posição é equivalente à de um chefe de Estado ou de governo, enquanto o secretário-geral da ONU tem o status de um ministro de Relações Exteriores. O secretário-geral da conferência de Doha, Oscar de Rojas, disse que Strauss-Kahn justificou sua ausência em carta pessoal dirigida a Ban, na qual fez referência à “urgentes” questões de trabalho. Zoellick não enviou nenhuma comunicação direta, mas o Banco Mundial informou à ONU que seu economista-chefe o representará na cúpula. De Rojas afirmou que o impacto da crise financeira internacional nos mercados, “que mudam dia a dia e de hora em hora, dificulta a presença” de ambos na reunião.

Um diplomata asiático disse à IPS que nada deveria ser mais importante para eles do que comparecer a uma conferência que também discutirá o impacto da crise econômica nas nações em desenvolvimento. “Sua desculpa não é suficientemente boa”, acrescentou, destacando que Ban dá alta prioridade à reunião de Doha e falará aos participantes. Tanto Zoellick quanto Strauss-Kahn foram à cúpula do Grupo dos 20, que reúne as nações ricas e em desenvolvimento, que teve como anfitrião George W. Bush.

O embaixador egípcio Maged Abdelaziz, participante das negociações sobre a declaração final da cúpula, disse à imprensa na terça-feira que o Banco Mundial e o FMI são “parte integral do processo de financiamento para o desenvolvimento”. O diplomata acrescentou que “têm os mesmos privilégios e direitos que os Estados-membros e participam das negociações. Tínhamos, e ainda temos, esperança” de que ambos compareçam. Além disso, afirmou que entre os países em desenvolvimento predomina a sensação que os dois funcionários internacionais apenas comparecem às reuniões das nações ricas e cuidam de seus interesses. “Deveriam comparecer, ainda que por um só dia”, afirmou. Abdeleziz recordou a presença de ambos na cúpula do G-20 e destacou que “esse é apenas um lado da moeda”.

A declaração final da cúpula de Doha abordará vários assuntos relevantes para a crise econômica internacional, incluindo a mobilização de recursos financeiros para o desenvolvimento, o comércio internacional e o aumento da ajuda oficial para o desenvolvimento. D’Escoto, que foi chanceler do governo esquerdista da Nicarágua entre 1979 e 1990, recordou que Bush falou duas vezes na Assembléia Geral da ONU “mas ignorou-me. Foi o único líder mundial a fazer isso. Mas, de todo modo, não o quero mal”, concluiu. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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