Pequim, 13/11/2008 – A preocupação das autoridades da China pelo que ocorre dentro de suas fronteiras começou a substituir sua ambição de se converter em acionista internacional responsável e líder das cobranças para uma nova ordem financeira mundial. Pequim quer ocupar um lugar significativo nos novos órgãos financeiros que possam ser criados em resposta à atual crise financeira, mas sal prioridade é estimular sua cada vez mais deprimida economia nacional. Com um olho posto na cúpula de emergência que acontecerá no próximo sábado em Washington, o governo chinês saiu em resposta aos chamados para apoiar com generosos pacotes monetários as empresas financeiras estrangeiras com problemas, alegando a necessidade de estimular sua própria economia.
O governo chinês anunciou no final de semana que destinaria quase US$ 600 bilhões para impulsionar a economia nacional, a fim de compensar a queda nas exportações. O dinheiro será investido na construção de aeroportos, estradas e modernização da rede ferroviária, segundo o anúncio oficial, divulgado pela agência estatal de notícias Xinhua. Além disso, adiantou outras medidas, como a redução de impostos e uma possível diminuição dos juros para estimular a demanda interna.
Muitos pedem que Pequim tenha um papel mais preponderante na busca de soluções em um contexto de insegurança financeira mundial. A China, cujas reservas de divisas chegam a quase US$ 2 trilhões, recebe pressões para que use sua riqueza a fim de evitar o aprofundamento da crise e o caos financeiro. O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, exortou a China e os países produtores de petróleo do Golfo Pérsico ou Arábico a aumentarem sua contribuição ao pacote de resgate de US$ 250 bilhões do Fundo Monetário Internacional destinado às nações em dificuldades.
Por sua vez, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, que ocupa a presidência rotativa da União Européia, expressou seu desejo de que as potências econômicas emergentes, como China e Índia, ocupem um lugar mais significativo nos processo de decisões internacionais e ajudem a redesenha a nova arquitetura econômica global. Entretanto, os especialistas chineses se perguntam com preocupação se o preço que a China deve pagar para subir dentro da estrutura financeira mundial não é extremamente alto diante dos sinais de recessão.
“A China deve considerar com muito cuidado se a troca de capital por poder vale a pena devido à situação atual”, afirmou o especialista em relações internacionais Ge Luosi Beijing Xinjing Bao. Os desafios internos que o país enfrenta são maiores do que o possível dano causado por uma queda na demanda por produtos chineses no exterior, segundo Zhang Wenkui, do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento do Conselho Estatal. “É um erro pensar nas dificuldades que pode nos causar a crise financeira global, quando os problemas internos, em especial a diminuição da demanda, são assuntos muito mais angustiantes. Temos de aumentar muito o investimento e não apenas procurar estimular o consumo interno”, acrescentou.
Os dirigentes chineses dão mostras de que vão nesse sentido. Ao anunciar o pacote de assistência, no fim de semana, Pequim deixou clara a mudança de curso de sua política fiscal “prudente” e de “ajuste” monetário. O governo impulsionará políticas monetárias “proativas” e de “flutuação moderada”, disse a agência Xinhua. Na reunião de ministros das finanças e outras autoridades monetárias do Grupo dos 20 países ricos e emergentes, o presidente do Banco Central da China, Zhou Xiaochuan, assegurou que seu país quer continuar sendo um motor de crescimento mundial por meio da expansão de sua economia. Além disso, previu um crescimento do produto interno bruto entre 8% e 9% para a China em 2009. Este seria o crescimento mais baixo dos últimos cinco anos.
Pequim se preocupa com o fato de o crescimento de sua economia ser abaixo de 8% porque, assim, não haverá empregos suficientes, o que propiciará um grave descontentamento social. Este ano será “o pior para nosso desenvolvimento econômico dos últimos tempos”, alertou o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, no começo destemes. Os últimos dados econômicos mostram que a abrupta queda da demanda por produtos chineses levou à quebra muitas fábricas dos centros industriais da costa leste e sudeste. Dezenas de milhares de trabalhadores imigrantes perderam o emprego. Além disso, muitos projetos imobiliários ficaram suspensos e o consumo sofreu um duro golpe.
Pelo menos um dos pesos pesados em matéria de economia previu que as conseqüências do atual descalabro financeiro seriam muito maiores do que as da crise asiática de 1997. “A dependência de estímulos econômicos estrangeiros é muito maior agora do que em 1998 e sua capacidade de produção excedente também é superior”, disse ao The Economic Observer a ex-presidente do Banco Central da China Wu Xiaoling. “Em 1998 pudemos superar a crise despejando muito dinheiro na construção de infra-estrutura e na liberação dos mercados imobiliários e de automóveis”, disse. “Mas essas opções agora têm restrições. É preciso menos infra-estrutura, as pessoas têm problemas para conseguir crédito destinado à compra de moradia e a indústria automobilística está limitada pelo alto preço dos combustíveis e pelas condicionantes ambientais”, acrescentou.
Na medida em que aparecem os sinais que mostram que a economia chinesa tem dificuldades, cada vez mais pessoas alertam contra o uso de reservas para financiar um pacote de ajuda ao estrangeiro. Alguns dos críticos lembraram o exemplo pouco feliz dos investimentos da China no exterior para justificar que se deve usar esses fundos para estimular a economia nacional. Os interesses adquiridos pela governamental China Investment Cor. No Morgan Stanley e Blackstone Group LP, no ano passado, registraram grandes perdas. Pequim não descartou a possibilidade de contribuir com algum plano de regate financeiro, mas, deixou claro que seu principal objetivo é conseguir que se faça “justiça” com as nações em desenvolvimento.
As instituições multilaterais de crédito como o FMI e o Banco Mundial “necessitam ser reformadas”, ressaltou na semana passada o vice-chanceler, He Yafei. A China pedirá mais participação para as nações em desenvolvimento na estrutura desses organismos. Não se conhece as propostas concretas que Pequim apresentará na cúpula de Washington, mas alguns especialistas especulam que tentará trocar sua contribuição econômica com um plano de resgate por um peso maior dentro do FMI, do Banco Mundial e da Organização Mundial do Comércio.
No começo deste ano, os membros do FMI aprovaram uma reforma para aumentar a participação das nações em desenvolvimento. Mas o peso dentro de sua estrutura de nações emergentes como Brasil, China e Índia não condizem com seu poderio econômico. A participação da China no sistema de votação, país que ocupa quase 10% da economia mundial, é de apenas 3,66%, enquanto a dos Estados Unidos é de 17%. (IPS/Envolverde)

