EUA: O dia em que o caráter eclipsou a cor

Detroit, 12/11/2008 – A chegada de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos desatou uma onda expansiva ao redor do mundo.

 - Sitio oficial de Barack Obama

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Muitos acreditavam que a Casa Branca estava predestinada a, algum dia, abrigar um negro, devido à importância dessa comunidade. Mas observadores e ativistas não vêem na consagração do presidente eleito a concretização de um destino histórico inevitável. Pelo contrário, o consideram produto da titânica gestada pelos direitos civis e políticos dos afro-norte-americanos, cuja culminação foi na década de 60.

Afirmam tratar-se da concretização do sonho que Martin Luther King expôs no dia 28 de agosto de 1963 perante uma enorme multidão em Washington: que algum dia seus filhos não seriam julgados pela cor de sua pele, mas por seu caráter. Filho de um homem negro do Quênia, no leste africano, e de uma mulher branca do Estado de Kansas, no centro dos Estados Unidos, Obama derrotou seu adversário, John McCain, nas eleições presidenciais do último dia 4. O candidato do opositor Partido Democrata, senador pelo Estado de Illinois, conquistou 364 votos no Colégio Eleitoral contra 162 de McCain, do governante Partido Republicano.

“É um marco realmente importante, uma culminação. A mudança chegou”, disse Bernard LaFayette Jr., que foi colaborador de Martin Luther King, entrevistado por telefone pela IPS desde Belém, na Cisjordânida. “Já estava no coração das pessoas: Obama conseguiria o melhor de cada um. Isto remonta à batalha que tivemos nos anos 60”, acrescentou. LaFayette, diretor do Centro de Estudos sobre Não-Violencia e Paz na Universidade de Rhode Island, integrou a equipe executiva de King e coordenou em todo o país a Campanha das Pessoas Pobres, de 1968, junto com seu líder.

Os detratores de Obama “fizeram tudo o que podiam para desacreditá-lo e convencer o povo norte-americano de que não era o melhor, e inclusive disseram que era perigos e tentaram associá-lo com terroristas”, recordou o ativista. “Paradoxalmente, aqui havia um senador votado pelos cidadãos de Illinois para representá-los e em seguida pelo Partido Democrata como seu candidato presidencial. Mas mesmo assim disseram que não era norte-americano”, acrescentou LaFayette. Obama também sofreu ataques semelhantes aos que King teve de suportar antes de seu assassinato”, prosseguiu

“King foi acusado de ser comunista e era um pastor batista. Diziam que não sabia nada sobre política externa quando se opôs à guerra no Vietnã. Inclusive, alguns ministros negros e grupos como a Convenção Nacional Batista rechaçavam sua mensagem de integração”, disse LaFayette. Os questionamentos pelos quais passou Obama foram uma prova real de seu caráter, ressaltou. “A maioria das pessoas na leu seu livro. O que viram foi seu caráter, mais do que sua cor, e como respondeu à falsas acusações”, afirmou. Eddie Connor, jornalista de 26 anos, considerou que o resultado das eleições consagra um “casamento histórico entre as filosofias do doutor King e do presidente eleito Obama”.

Connor apresenta o programa de rádio “juventude em marcha”, em Detroit, cidade no Estado de Michigan onde King pronunciou seu discurso “Eu tenho um sonho” antes de uma maciça marcha pelos direitos civis da minoria negra chegar a Washington. Obama foi capaz de fazer o que fizera King: transcender, em alguns casos, a raça, unindo os jovens. Verdadeiramente, creio que Obama deu novas energias ao fogo da juventude nos Estados Unidos”, disse Connor.

Em janeiro, durante a campanha pela candidatura democrata à presidência, Barack Obama começou a abordar os problemas raciais na Igreja Batista Ebenezer de Atlanta, cidade da Geórgia onde King também pregou. “Cada dia, nossa política aumenta e explora as divisões, atravessando todas as raças, regiões, gêneros e partidos. Nenhum de nós tem as mãos limpas”, disse Obama. “Já não podemos dar ao luxo de nos construirmos demolindo os outros. Já não podemos nos dar ao luxo de traficar mentiras, ou temor, ou ódio. Esse é o veneno que devemos purgar de nossa política, o muro que devemos derrubar antes que seja muito tarde”, afirmou.

Robert Johnson, morador em Atlanta, disse que os resultados das eleições nos Estados Unidos vão além dos simbolismos. A vitória de Obama “demonstra que aqueles privados do direito ao voto e às famílias trabalhadoras podem abrir caminho para o sonho americano”, explicou. “Por isso estas eleições foram mais emocionantes do que qualquer outra que já vi. Nas ruas podia-se ver a alegria das pessoas de todas as raças e todas as crenças”, afirmou. Mas, LaFayette ressaltou que a eleição de um líder com caráter não deve se perder em meio às celebrações.

“A população não dizia: queremos um presidente negro. O que dizia era: queremos alguém que nos ajude a sair deste problema”, disse LaFayette. “A cor de Obama passou despercebida. Os cidadãos viram a cor de seu coração, e a ele como alguém em quem confiar”, ressaltou. O ativista disse que nunca acreditou que viveria para ver um negro eleito presidente da principal superpotência do mundo. (IPS/Envolverde)

Bankole Thompson

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