EUA: Obama sob pressão para permanecer no Iraque

Washington, 17/11/2008 – A proposta para o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, manter Robert Gates como secretário de Defesa parece um elemento-chave de uma ampla campanha para que abandone seus planos de retirar as tropas do Iraque no prazo de 16 meses. A estratégia é levada a cabo por militares e seus aliados da elite política e nos meios de comunicação. Mas, apesar das pressões sutis e não tão sutis, é possível que Obama se apegue à sua promessa de campanha a respeito da retirada do Iraque, segundo uma fonte próxima ao presidente eleito.

Vinte e quatro horas após a vitória de Obama, a idéia de manter Gates como secretário de Defesa (cargo que ocupa atualmente no governo de George W. Bush) foi mencionado pelo jornal The New York Times. Informou que “colunistas” e “importantes legisladores” do Partido Democrata consideravam que Gates deve permanecer no cargo “ao menos interinamente, durante os primeiros meses da nova administração”. Na terça-feira, o periódico The Wall Street Journal publicou que dois assessores de Obama, os quais não identificou, haviam indicado que o presidente eleito “estava inclinando-se” para Gates, embora o artigo não mencionasse a existência de outros candidatos.

Além disso, dizia que Gates se opunha a qualquer tipo de cronograma para a retirada do Iraque, o que poderia significar que Obama deixaria de lado sua promessa de campanha de ordenar o retorno da maioria das tropas até meados de 2010. Os assessores de Obama que apóiam a idéia de retirar as tropas se opuseram à nomeação de Gates, já que tornaria muito difícil para o novo presidente fazer valer sua opinião sobre os militares. Uma fonte próxima à equipe de transição de Obama disse na terça-feira à IPS que as possibilidades de Gates eram “de aproximadamente 10%” e que o presidente ele se manteria firme em sua idéia, apesar das pressões.

A oposição à retirada do Iraque em um prazo de 16 meses é forte entre os militares e seus aliados políticos. A maioria dos meios de comunicação baseou sua cobertura do assunto na idéia de que esse plano terá de ser modificado para ser aceitável. O jornal The Washington Post publicou um artigo segundo o qual o almirante Michael Mullen, chefe do Estado Maior Conjunto, considera que esse cronograma é “perigoso” e que as reduções de tropas “devem depender das condições no terreno”. Também disseram que compartilham desse pensamento o general David Petraeus, encarregado do Comando Central, com jurisdição sobre o Oriente Médio e alguns países asiáticos, e o general Ray Odierno, comandante das forças norte-americanas no Iraque.

The Washington Post citou “especialistas em defesa”, os quais alertaram que “se Obama pressionar para retirar duas brigadas por mês” o conflito com os militares “será inevitável”. Peter Feaver, ex-funcionario do Conselho de Segurança Nacional durante a presidência de Bush, disse que a proposta de Obama precipitaria ‘uma crise entre civis e militares”, ao não aceitar os argumentos de Mullen, Petraeus e Odierno. A campanha se baseia na idéia de que a proposta de Obama respondeu a uma motivação política durante a campanha eleitoral e que o presidente eleito não está necessariamente comprometido com sua execução. Feaver disse à IPS que “é pouco provável que faça o que disse que faria”, e que Obama deu a si mesmo “suficiente espaço de manobra para modificar o plano”.

Entretanto, no site do presidente eleito não há menção a esse “ajuste” do cronograma. Pelo contrário, diz que “a retira de tropas seria responsável e progressiva, dirigida pelos comandantes militares no terreno e realizada em consulta com o governo iraquiano”. Além disso, defende a idéia de retirar uma ou duas brigadas por mês e oferece deixar uma “força residual” para “treinamento e apoio das tropas iraquianas, na medida em que os líderes desse país avancem para a reconciliação política e se afastem do sectarismo”.

Quando Obama se reuniu em Bagdá, em julho, com Petraeus, o militar expôs seus argumentos para uma retirada baseada nas condições no terreno e pediu ao presidente eleito a “máxima flexibilidade” nesse assunto, segundo a revista Time. De acordo com essa matéria, Obama recusou-se a mudar sua posição. Teria dito a Petraeus que “seu trabalho é ter sucesso nos termos mais favoráveis possíveis, mas o meu, como potencial comandante em chefe, é ver seu assessoramento e interesses através do prisma de nossa segurança nacional”, acrescentou a revista.

Obama – disse – teria defendido a idéia de uma retirada com data fixa à luz da situação no Afeganistão, dos custos da ocupação do Iraque e das exigências que implica para as forças armadas dos Estados Unidos. Os que se opõem ao plano do presidente eleito parecem ignorar que a administração Bush já descartou a idéia de uma retirada quando assim exigiam as condições do terreno, uma proposta dos militares para responder às demandas do governo iraquiano de uma retirada até o final de 2011. Segundo Feaver, “se Washington concordar com isto, estará preservada a flexibilidade que Petraeus e Odierno afirmam necessitar”.

Porém, mesmo essa pequena margem de manobra, permitindo a dilatação do prazo máximo de 2011 para uma retirada, que constava nas primeiras versões do acordo, foi eliminada no texto final, que o governo Bush enviou às autoridades iraquianas na semana passada, conforme anunciou a agência Associated Press.

* Gareth Porter é historiador e especialista em políticas de segurança nacional dos Estados Unidos. Perigo de domínio: Desequilíbrio de poder e o caminho para a guerra no Vietnã, seu último livro, foi publicado em junho de 2005 e reeditado em 2006. (IPS/Envolverde)

Gareth Porter

Gareth Porter is an independent investigative journalist and historian who specialises in U.S. national security policy. He writes regularly for IPS and has also published investigative articles on Salon.com, the Nation, the American Prospect, Truthout and The Raw Story. His blogs have been published on Huffington Post, Firedoglake, Counterpunch and many other websites. Porter was Saigon bureau chief of Dispatch News Service International in 1971 and later reported on trips to Southeast Asia for The Guardian, Asian Wall Street Journal and Pacific News Service. He is the author of four books on the Vietnam War and the political system of Vietnam. Historian Andrew Bacevich called his latest book, ‘Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War’, published by University of California Press in 2005, "without a doubt, the most important contribution to the history of U.S. national security policy to appear in the past decade." He has taught Southeast Asian politics and international studies at American University, City College of New York and the Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

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