IRAQUE-EUA: Em fim de governo, Bush aposta alto

Washington, 03/11/2008 – A ameaça de retirar a assistência econômica e militar que proporciona ao Iraque se esse país não aceitar a imunidade dos militares norte-americanos estacionados em seu território foi, para o governo de George W. Bush, uma altíssima aposta. A maioria dos políticos iraquianos se opõe tanto a legitimar formalmente a presença militar dos Estados Unidos dentro de suas fronteiras – e em particular em dar extraterritorialidade legal a esses soldados – que é improvável que mesmo essa ameaça salve o pacto. Para a maioria dos iraquianos o pacto lembrou muito ao desigual acordo que deu faculdades excepcionais à Grã-Bretanha sobre o Iraque entre 1930 e 1958.

O paralelo histórico redunda em uma sensação de domínio imperialista. Aos dirigentes políticos e legisladores é perigoso avalizar um acordo que dê privilégios especiais aos Estados Unidos. O general Ray Odierno, comandante das forças dos Estados Unidos no Iraque, alertou as autoridades em Bagdá que perderiam US$ 16 bilhões em ajuda econômica, militar e de segurança caso o parlamento rejeite o acordo. A notícia, publicada pela rede norte-americana de jornais e publicações eletrônicas McClatchy, deixa evidente o desespero que tomou conta de Washington diante da resistência iraquiana ao acordo.

A ameaça consta de um documento de três paginas em que são enumerados todos os projetos de assistência que os Estados Unidos eliminariam em caso de rejeição ao pacto, informou desde Bagdá a jornalista Leila Fadel, da rede McClatchy. O documento foi entregue na semana passada a altos funcionários iraquianos. O jornal USA Today informou em seguida que a lista inclui “dezenas” de atividades, com treinamento das forças de segurança, patrulhas nas fronteiras e rios e o controle do tráfico e a defesa aérea. Tudo isso deverá ser interrompido sem uma base legal para a presença militar dos Estados Unidos. Mas, nem a ajuda econômica nem as vendas de armas requerem algum acordo desse tipo.

A ameaça de frear essa assistência é uma tentativa óbvia para pressionar todo o sistema político iraquiano para que aceite o acordo. Evidentemente, a aposta de Washington se baseia na suposição de que funcionários e parlamentares iraquianos se comoverão com a repentina perda da ajuda da qual tanto dependem. O vice-presidente do Iraque, Tariq al Hashimi, disse que o governo foi pego de surpresa. Mas diante do atual clima político, a ameaça norte-americana parece fortalecer a determinação do primeiro-ministro, Nouri al-Maliki, de exigir mudanças no “rascunho final” do acordo, o qual o governo Bush já considerava acertado no começo do mês. Washington se nega a emendá-lo.

Segundo o jornal The Washington Post, os ministros iraquianos decidiram que o pacto deve dar às autoridades nacionais mais autoridade legal sobre os soldados norte-americanos acusados de delitos. O rascunho atual limita a jurisdição da policia e da justiça iraquianas a crimes cometidos por militares dos Estados Unidos fora de suas bases e que não estejam em serviço. Mas a Casa Branca considera que já cedeu mais autoridades aos tribunais iraquianos do que o previsto em qualquer acordo anterior.

The Washington Post informou que o governo iraquiano também procurava confirmar para 2011 a retirada total das tropas norte-americanas, bem como proibir explicitamente qualquer ataque contra países vizinhos a partir de bases instaladas em seu território. Este ponto diz respeito à operação-comando dos Estados Unidos na qual foram mortos oito supostos combatentes da rede extremista Al Qaeda em território suíço, lançada a partir do Iraque no último fim de semana.

Os que acreditam na ineficácia da tática negociadora de Bush prevêem que o governo do Iraque vai esperar o próximo período de governo norte-americano, possivelmente liderado pelo senador de oposição Barack Obama, que manteria uma postura menos agressiva. O legislador xiita Ali al-Adeeb, próximo de Maliki, disse na semana passada que o primeiro-ministro não se intimida com as ameaças norte-americanas porque acredita que poderá negociar com um novo governo a partir de 20 de janeiro, quando Bush deixará a Casa Branca. Porém, mais importante é a percepção do público iraquiano sobre as semelhanças entre o acordo proposto e o desigual vínculo militar que uniu o país à Grã-Bretanha durante décadas.

Enquanto preparam a campanha eleitoral do próximo ano, os dirigentes políticos do Iraque temem que a assinatura de um acordo como o proposto pelos Estados Unidos reduza suas chances. Quem aceitar o acordo “será considerado agente dos Estados Unidos”, disse o vice-presidente do partido xiita Conselho Islâmico Supremo do Iraque, Jalal al Din al Sagheer. Maliki e outros dirigentes de todos os partidos recordam muito bem o preço que seus antecessores pagaram por não cederem à pressão nacionalista para revisar o tratado anglo-iraquiano de 1930, que deu privilégios militares à antiga metrópole em troca de uma independência limitada.

Quando foi revisado o tratado em 1948, com vistas a prorrogá-lo por mais 20 anos, os britânicos acordaram evacuar suas bases, mas ser reservaram o direito de regressar diante de uma eventual guerra. O pacto gerou protestos maciços em Bagdá. A polícia matou 400 pessoas na repressão. O primeiro-ministro Salih Jaber foi obrigado a renunciar. Em 1955, diante da pressão do presidente norte-americano Dwight Eisenhower, o primeiro-ministro Nuri al-Said concordou em entrar em um acordo de defesa liderado pela Grã-Bretanha e também integrado por Turquia, Irã e Paquistão, que na época enfrentavam a extinta União Soviética. Três anos depois, militares nacionalistas deram um golpe de Estado contra al-Said, o mataram e puseram fim ao regime monárquico.

* Gareth Porter é historiador e especialista em políticas de segurança dos Estados Unidos. “Perigo de Domínio: desequilíbrio de poder e o caminho para a guerra no Vietnã”, seu último livro, foi publicado em junho de 2005 e reeditado no ano seguinte.

Gareth Porter

Gareth Porter is an independent investigative journalist and historian who specialises in U.S. national security policy. He writes regularly for IPS and has also published investigative articles on Salon.com, the Nation, the American Prospect, Truthout and The Raw Story. His blogs have been published on Huffington Post, Firedoglake, Counterpunch and many other websites. Porter was Saigon bureau chief of Dispatch News Service International in 1971 and later reported on trips to Southeast Asia for The Guardian, Asian Wall Street Journal and Pacific News Service. He is the author of four books on the Vietnam War and the political system of Vietnam. Historian Andrew Bacevich called his latest book, ‘Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War’, published by University of California Press in 2005, "without a doubt, the most important contribution to the history of U.S. national security policy to appear in the past decade." He has taught Southeast Asian politics and international studies at American University, City College of New York and the Johns Hopkins School of Advanced International Studies.

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