AMBIENTE-ÍNDIA: Assim na Terra como no espaço

Nova Déli, 26/11/2008 – A infra-estrutura de saneamento da Índia deixa muito a desejar, mas os cientistas deste país talvez estejam mais preocupados com os dejetos que pululam pelo espaço. Quatro décadas depois de sua criação, a Organização Indiana de Pesquisa Espacial, que no daí 4 deste mês conseguiu pousar uma nave na Lua, concentra-se na contaminação existente além da atmosfera terrestre, informou V. Admirthy, especialista em aerodinâmica dessa instituição. “Este também é um problema no espaço. Se não houver cuidados podem surgir graves problemas no futuro”, disse Adimurthy na terceira conferência “Saneamento por dignidade e saúde”, da qual participaram este mês representantes dos países da Ásia meridional.

Na reunião considerou-se que o saneamento, um fator decisivo no desenvolvimento sustentável, não se reduz aos banheiros. Oito países – Afeganistão, Bangladesh, Butão, Índia, Nepal, Maldivas, Sri Lanka e Paquistão – se comprometeram a cobrir as necessidades da população em matéria de banheiros e infra-estrutura de higiene. O objetivo da conferência regional foi acelerar e melhorar as condições de higiene e saneamento e a qualidade de vida da população da região, com vistas a alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio até 2015.

Apenas 28% da população rural da Índia, isto é, dois terços dos mais de um bilhão de habitantes do país, tinham banheiro em 2006, segundo Lizette Burgers, diretora de água e saneamento do escritório em Nova Déli do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Dos 2,5 bilhões de pessoas que carecem de latrinas no mundo, 50% estão na Ásia meridional. A situação da população rural deste país é pior do que a de seus vizinhos de Bangladesh e Paquistão. Mas a Índia está concentrada em seu programa espacial.

“Nossos astronautas têm as mesmas necessidades que nós na Terra”, disse Adimurthy aos participantes da conferência. Cada ser humano produz, em média, 4,98 quilos de dejetos diários. Inicialmente, os astronautas usavam fraldas. Depois foi criada uma espécie de cisterna. Para resolver o problema da falta de gravidade, os homens urinam em sacos e as mulheres em uma espécie de funil que, por meio de correntes de ar, levam a urina a depósitos que são lançados no espaço exterior por meio da força centrífuga. Esse mecanismo é chamado de “ciclos abertos”.

Os resíduos que não são reciclados e ficam armazenados em tanques são trazidos para a Terra, nos casos de missões curtas de sete dias, ou lançados no espaço para evitar problemas de saúde na tripulação, somando-se a outros tipos de dejetos. O “sistema fechado” de reutilização e reciclagem para as missões de longa duração ainda não foi aperfeiçoado. “O manejo do lixo no espaço continua sendo um grande problema”, destacou Adimurthy, porque mais de 200 espécies de micróbios crescem muito mais em um ambiente sem gravidade. “Imaginem se, em um ambiente sem gravidade, os dejetos flutuassem dentro da nave”, disse o especialista, com semblante sério. O problema é igualmente perigoso no espaço, assegurou.

Foram registrados flutuando no espaço mais de 29 mil objetos, mas pelo menos outros cem mil, com menos de 10 centímetros, não estão documentados e são fatores de contaminação. Além disso, há cerca de 1.600 partes de foguetes, 1.500 objetos, 3.100 naves e 6.400 fragmentos de veículos no espaço, e se prevê crescimento de pelo menos 210 elementos por ano. Felizmente, os dejetos que caem do espaço na Terra não causaram nenhum dano humano ou ambiental. Recipientes à pressão e tanques cilíndricos, a maioria pertencente ao programa norte-americano Delta II, caíram na América Latina, Austrália e no Oriente Médio.

Desde que um astronauta canadense da agência espacial norte-americana, Nasa, deixou escapar um tanque de amoníaco de 640 quilos, chamado Early Ammonia Servicer (EAS), foi iniciada uma campanha internacional contra os desperdícios no espaço, em julho de 2007. A iniciativa que rastreia a EAS reúne Alemanha, China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Índia, Itália, Japão e Rússia. Teme-se pelo lugar onde o tanque cairá, que, segundo a Nasa, entrou em órbita terrestre em outubro deste ano. O Comitê Interagências de Coordenação de Dejetos Espaciais (IADC) elaborou pautas sobre a gestão dos dejetos para todos os países com programas espaciais.

As normas da IADC propõem restringir a quantidade de lixo lançado no espaço para evitar sua desintegração, e incluem medidas preventivas para evitar “choques orbitais”, como acidentes de trânsito, e estabelecer programas de gestão de dejetos ao termino das missões. A Organização Indiana de Pesquisa Espacial realiza seus próprios estudos sobre gestão de lixo sólido para determinar as probabilidades de choques orbitais, disse Adimurthy. Também estuda os problemas de saúde e higiene no espaço. “Talvez possamos produzir tecnologias rentáveis no futuro”, para lidar com esta questão, afirmou. O programa espacial da Índia realizou 26 lançamentos veiculares e 58 missões de naves espaciais em seus 40 anos de existência e forneceu dados sobre recursos naturais, físicos e biológicos. (IPS/Envolverde)

Keya Acharya

A journalist with over 20 years of experience in in-depth writing and researching environment and development issues in Asia, Africa, Europe and Latin America. Keya has travelled widely, covering assignments in various areas of the world. Her research has included climate change, urban solid waste management, rural alternative energy systems, implementation of laws on industrial hazardous wastes, human rights, ecotourism, wildlife issues, transgenic cotton, corruption and environment, population and gender, e-governance, agribiotech and forests and encroachments, among other topics. Keya is vice chair of the Forum of Environmental Journalists of India, and has organised several media-training workshops, convened international media meetings and undertaken media study tours. Keya has won several research and media fellowships and is the recipient of the Press Institute’s award for Excellence in Human Development Reporting; the Prem Bhatia Award for Environmental Reporting, and the Green Globe Foundation award for Outstanding Media Contribution by a Media Individual. Keya has also conducted development journalism studies as visiting faculty, chaired media and international conference panels, and edited ‘The Green Pen’, an anthology of essays on environmental journalism, the first of its kind in South Asia, featuring the region's most prominent and respected environmental journalists.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *